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O recado na porta da venda
Em 1914, na Guerra do Contestado, um bando de sertanejos atacou uma estação da Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande, no planalto de Santa Catarina. Antes de ir embora, deixaram um recado escrito na porta de uma venda. Um militar que lutou do outro lado, Demerval Peixoto, copiou o texto do jeito que eles escreviam.
O guverno da República toca os Filhos Brasileiros dos terreno que pertence a nação e vende para o estrangeiro
Traduzindo: o governo da República toca os filhos brasileiros das terras que pertencem à nação, e vende pro estrangeiro. Tocar, ali, é tocar como se toca gado: expulsar. O recado tem mais linhas, e elas voltam no fim desta história.
E o estrangeiro tinha nome: uma empresa americana, dona daquela ferrovia. O governo tinha dado pra ela a terra em volta dos trilhos, até 15 quilômetros pra cada lado. Mais de três horas de caminhada pra direita, e mais três pra esquerda, ao longo da linha. Só que essa terra tinha gente: gente que plantava ali havia gerações, e não tinha papel nenhum.
Pra tirar essa gente, a República mandou milhares de soldados e canhão. E usou avião numa operação militar pela primeira vez na história do Brasil. Contra camponês. Morreram milhares, e quantos, ninguém contou direito.
Durante quase setenta anos, essa guerra quase não apareceu em público. Quem ganhou não teve pressa de contar, porque contar essa guerra inteira mostra pra quem a República trabalhava. E leva até o que ocupa, hoje, o chão da maior serraria daquela empresa.
Fontes deste capítulo:ANCARVESP12TOPJUEBMORTOSdisputada, 7 fontes, 1 disputada
Contestado (série "Que República é essa?")
dentro desta faixa de terrenos existiam muitos posseiros caboclos, indígenas e ervateiroshttps:/
Posseiros e intrusos: o direito à terra na região do Contestado
O guverno da República toca os Filhos Brasileiros dos terreno que pertence a nação e vende para o estrangeirohttps:/
A construção da Linha Sul da EFSPRG (1908-1910): mão de obra e migrações
ficam de nenhum effeitohttps:/
Guerra, cerco, fome e epidemias: memórias e experiências dos sertanejos do Contestado
as crianças cercavam o animal abatido e comiam até as tripas quenteshttps:/
Contestado: a história bem-contada
https:/23 de março — Dia da Aviação do Exército
missão de reconhecimento com bombardeio no reduto de Santa Mariahttps:/
Contestado: a história bem-contada (número de mortos) (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/A terra dada: 15 km de cada lado do trilho
A empresa era a Brazil Railway, do empresário americano Percival Farquhar. Em 1907, ela comprou o controle da ferrovia que ia ligar São Paulo ao Rio Grande do Sul. O pedaço que faltava construir cortava o meio de Santa Catarina.
O contrato vinha do Império, e a República confirmou em 1890, com o Decreto nº 305, de 7 de abril. Terra do governo em volta da linha, até 15 quilômetros de cada lado, de presente pra companhia. O contrato ainda garantia juros sobre o dinheiro investido, por quilômetro de trilho: se a ferrovia rendesse pouco, o cofre público cobria a diferença.
O contrato do Império tinha uma contrapartida: assentar até 10 mil famílias, cada uma com um lote e uma casa. O decreto de 1890 derrubou essa parte. Sobre as cláusulas de colonização, o texto republicano diz só isto:
(...) ficam de nenhum effeito.
A obrigação caiu. A terra ficou.
O governo chamava aquilo de terra devoluta, quer dizer, terra sem dono. Só que dentro da faixa morava caboclo, indígena, gente que vivia de roça e de colher erva-mate. Quem diz isso é o próprio Arquivo Nacional, num texto do historiador Paulo Pinheiro Machado.
dentro desta faixa de terrenos existiam muitos posseiros caboclos, indígenas e ervateiros
Posseiro é isso: quem mora e planta na terra há anos, sem escritura. E a lei brasileira do século 19 reconhecia a posse de quem morava e cultivava. Na prática, quem decidia era o mais forte. E a partir de 1908, quando a companhia começou a medir a terra e a tirar posseiro, o mais forte era a companhia.
Fontes deste capítulo:ANCARVESP12, 3 fontes
Contestado (série "Que República é essa?")
dentro desta faixa de terrenos existiam muitos posseiros caboclos, indígenas e ervateiroshttps:/
Posseiros e intrusos: o direito à terra na região do Contestado
O guverno da República toca os Filhos Brasileiros dos terreno que pertence a nação e vende para o estrangeirohttps:/
A construção da Linha Sul da EFSPRG (1908-1910): mão de obra e migrações
ficam de nenhum effeitohttps:/
Oito mil enxadas
Pra abrir a linha no meio do mato, entre 1908 e 1910, a obra juntou uns 8 mil trabalhadores braçais. Chamavam de turmeiro: abria caminho, tirava pedra, assentava trilho. Muitos eram colonos imigrantes do Paraná, que vinham na entressafra ganhar um dinheiro a mais.
O salário passava pela mão de pequenos empreiteiros. E a comida, o trabalhador comprava em armazém da própria companhia. É o patrão que paga com uma mão e vende o feijão com a outra.
E a ferrovia tinha polícia própria. O Corpo de Segurança passou de 300 homens armados, mais que a polícia do estado do Paraná naquela época. Ao que tudo indica, nasceu pra segurar os próprios turmeiros. Depois, ganhou outro serviço: tirar posseiro da terra da companhia.
Em dezembro de 1910, os trilhos chegaram ao rio Uruguai, em Marcelino Ramos. A obra acabou. E os turmeiros? Quem responde é o general Setembrino de Carvalho, o mesmo que depois comandou a guerra contra os caboclos, no relatório que mandou ao ministro da Guerra em 1916.
Terminada a construcção e por uma deslealdade dos empreiteiros commummente praticada com esses homens desprotegidos, foram os trabalhadores da linha abandonados nos mesmos sitios em que se achavam as turmas
(...) os sertões foram se enchendo dos peiores malfeitores (...) manejando por igual a picareta e a faca
Terminada a obra, os trabalhadores foram abandonados onde estavam, por deslealdade dos empreiteiros. No mesmo parágrafo, o general chama esses homens de os piores malfeitores, gente que manejava a picareta e a faca. A ordem é essa: a obra usa, o empreiteiro larga, e o general chama de bandido quem ficou largado.
Esses homens largados viraram rebeldes? A historiadora Márcia Espig foi atrás e achou um problema: quase todo livro repete isso, e a única fonte documental é esse relatório do general. Ela mostra que muitos turmeiros foram embora aos poucos, de volta pras colônias. Quantos ficaram e pegaram em armas, ninguém provou. O bandido vindo de fora é a versão de quem fez a guerra.
Fontes deste capítulo:CARVESP12ESP07TURMEIROSdisputada, 4 fontes, 1 disputada
Posseiros e intrusos: o direito à terra na região do Contestado
O guverno da República toca os Filhos Brasileiros dos terreno que pertence a nação e vende para o estrangeirohttps:/
A construção da Linha Sul da EFSPRG (1908-1910): mão de obra e migrações
ficam de nenhum effeitohttps:/
Breve estudo sobre o Movimento do Contestado: a historiografia militar e o caso dos operários da EFSPRG
foram os trabalhadores da linha abandonados nos mesmos sitios em que se achavam as turmashttps:/
Breve estudo sobre o Movimento do Contestado (os operários na guerra) (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/A maior serraria da América do Sul
Enquanto o trilho avançava, o mesmo grupo abria uma madeireira, a Southern Brazil Lumber and Colonization Company, a Lumber. Em Três Barras, no norte de Santa Catarina, ela montou em 1910 a maior serraria da América do Sul. O alvo era a araucária, o pinheiro-do-paraná, a árvore do pinhão. E junto, imbuia, cedro, canela-preta.
Em 1913, a companhia já tinha uns 324 mil hectares. Mais de duas vezes o tamanho da cidade de São Paulo. A serraria chegou a ter uns 2 mil operários, entre o galpão e o corte no mato.
Em 1911, a companhia publicou um edital num jornal da região, O Palmense:
Este faz saber a todos que é expressamente proibido invadir ou ocupar os terrenos pertencentes à Companhia Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande (...)
O verbo escolhido foi invadir. Quem já morava ali antes do trilho chegar virou o invasor.
Em 1999, um morador da região contou ao historiador Paulo Pinheiro Machado o que a mãe dele tinha visto:
Em alguns lugares tiravam à força mesmo, com capangas. Em outras situações eles obrigavam o pessoal a assinar um papel em branco (...) As assinaturas serviam para as pessoas renunciarem ao direito de posse. Isto minha mãe viu pessoalmente
O papel em branco vinha com a promessa de acertar a terra de todo mundo. É memória de filho, contada décadas depois, e não tem documento que confirme. Mas bate com o que o edital do jornal já dizia: no papel, a terra já tinha outro dono.
O nome oficial era Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande. Nos trens, só as iniciais: EFSPRG. Demerval Peixoto, o militar que copiou o recado, anotou como o povo de um lugarejo, Perdizes, lia aquelas letras: Estrada Feita Somente pra Roubar pro Governo.
Havia-se gerado entre aquela ignorante gente a convicção de que as iniciais EFSPRG nos trens traduziam a esquisita sentença estrada feita somente para roubar pro governo
O militar escreveu que era coisa de gente ignorante. Pra quem tinha perdido a terra pra linha, era um resumo.
Fontes deste capítulo:CARVTOPTOMPCN, 4 fontes
Posseiros e intrusos: o direito à terra na região do Contestado
O guverno da República toca os Filhos Brasileiros dos terreno que pertence a nação e vende para o estrangeirohttps:/
Guerra, cerco, fome e epidemias: memórias e experiências dos sertanejos do Contestado
as crianças cercavam o animal abatido e comiam até as tripas quenteshttps:/
Cicatrizes do Contestado: a estatização da Southern Brazil Lumber and Colonization Company e o advento do Campo de Instrução Marechal Hermes
https:/A Lumber, o Contestado e a história do desmatamento da floresta de araucária (1911-1950)
https:/O santo do pobre
Sem terra e sem ninguém por ele, o caboclo tinha um santo de casa: João Maria. Na verdade, pelo menos dois andarilhos usaram esse nome. Um italiano, no meio do século 19. E outro, mais ou menos de 1890 a 1908.
Benziam, mandavam levantar cruz, indicavam água boa pra curar. O segundo batia de frente com o padre e pregava que o fim do mundo estava perto.
Em 1912, apareceu um terceiro: José Maria, curandeiro, que dizia ser irmão do monge. Receitava chá e garrafada. Num sertão quase sem médico, ele era o posto de saúde que existia.
Em agosto daquele ano, ele foi chamado pra festa do Bom Jesus em Taquaruçu, no município de Curitibanos. Veio doente de toda parte. A festa acabou e o povo não foi embora.
O prefeito de Curitibanos, Francisco de Albuquerque, era fazendeiro e coronel. Coronel, ali, não é patente: é o chefão político do lugar. Ele desconfiou que o curandeiro trabalhava pro inimigo político dele e chamou a polícia de Florianópolis. E deu à gente da festa o rótulo de fanáticos e monarquistas, o mesmo que a República tinha pregado em Canudos, a guerra do sertão da Bahia, quinze anos antes.
José Maria saiu com um grupo pro Irani, numa terra que o Paraná e Santa Catarina disputavam e que o Paraná administrava. O Paraná mandou a polícia do estado, comandada por um coronel de farda, João Gualberto. Em 22 de outubro de 1912, a polícia foi batida. Morreu o coronel João Gualberto. E morreu José Maria.
O governo achou que tinha acabado. Só que a morte transformou o curandeiro em santo: ele ia voltar, diziam, à frente de um exército encantado.
Fontes deste capítulo:ANTOPJUATH, 4 fontes
Contestado (série "Que República é essa?")
dentro desta faixa de terrenos existiam muitos posseiros caboclos, indígenas e ervateiroshttps:/
Guerra, cerco, fome e epidemias: memórias e experiências dos sertanejos do Contestado
as crianças cercavam o animal abatido e comiam até as tripas quenteshttps:/
Contestado: a história bem-contada
https:/Resenha de Lideranças do Contestado, de Paulo Pinheiro Machado
https:/A cidade santa
Um ano depois, o povo voltou pra Taquaruçu, em volta de uma menina, Teodora, que sonhava com José Maria mandando todo mundo voltar. Ali nasceu o que eles chamavam de cidade santa, ou quadro santo. A terra, o gado e a roça eram de todo mundo junto.
Um ditado dos redutos, registrado pela historiadora Marli Auras, resume a regra:
quem tem, mói; quem não tem, mói também, e no final, todos ficarão iguais
Moer, ali, é levar o milho pro moinho. Quem tinha milho e quem não tinha saía de lá com farinha.
Onde chegavam, queimavam cartório e derrubavam cerca. Cartório, pra eles, era o lugar onde a terra deles virava a terra de outro. Na praça das quatro cruzes, o povo se juntava pra rezar e pegar a tarefa do dia. A religião era o jeito que aquela gente tinha de se organizar.
O movimento se espalhou por mais de 22 mil quilômetros quadrados, uma área maior que o estado de Sergipe inteiro. O maior reduto, Santa Maria, tinha 5.500 casas, contou um capitão do Exército. Há relatos de mais de 20 mil pessoas só ali.
Em junho de 1914, um capitão mandado pra patrulhar a região, Matos Costa, deu uma entrevista a um jornal do Paraná e contou do que os rebeldes reclamavam:
Os jagunços queixam-se que o coronel Artur de Paula e outros chefes políticos lhes tomaram as terras que habitavam e agora lhes impedem de recorrer às terras devolutas do Governo, por se terem apossado delas pessoas conhecidas e que tem facilidade de obter dos governos, grandes territórios nos dois Estados
O coronel Artur de Paula e outros chefes políticos tinham tomado as terras onde eles moravam. E nem as terras do governo eles podiam pedir mais, porque gente conhecida, com facilidade nos governos, tinha pegado territórios enormes nos dois estados. Quem diz é um oficial do Exército, no meio da guerra.
Fontes deste capítulo:CARVTOPJURAMPAREAdisputada, 5 fontes, 1 disputada
Posseiros e intrusos: o direito à terra na região do Contestado
O guverno da República toca os Filhos Brasileiros dos terreno que pertence a nação e vende para o estrangeirohttps:/
Guerra, cerco, fome e epidemias: memórias e experiências dos sertanejos do Contestado
as crianças cercavam o animal abatido e comiam até as tripas quenteshttps:/
Contestado: a história bem-contada
https:/Resenha de Guerra do Contestado: a organização da Irmandade Cabocla, de Marli Auras
quem tem, mói; quem não tem, mói também, e no final, todos ficarão iguaishttps:/
Guerra, cerco, fome e epidemias (área do movimento) (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/A empresa pede tropa
Meses antes dessa entrevista, em fevereiro de 1914, já tinha vindo a primeira resposta de peso. O Exército cercou Taquaruçu pelo alto e abriu fogo. Os homens adultos estavam fora, levantando um reduto novo mais ao norte. No vale, eram sobretudo mulheres, crianças e velhos, mais de 200 pessoas.
Foram 175 granadas de estilhaço num dia. Mais de 200 casas e a igreja foram destruídas.
Um morador da região, que era criança na guerra, guardou a cena de um reduto bombardeado, sem dizer qual: todo mundo correu pra igreja, e o canhão acertou a igreja lotada de criança e mulher.
todos correram para a igreja (...) um tiro de canhão atingiu a igreja, que estava lotada de crianças e mulheres, pegou fogo (...) isto eu vi
No mês seguinte, o Exército atacou o reduto novo, Caraguatá, e perdeu. Tinha atirador caboclo escondido no alto das araucárias e das imbuias, e soldado atraído pra trilha sem saída no espinheiro. Quem guiava aquele reduto era uma menina de 15 ou 16 anos, Maria Rosa. Andava de branco, num cavalo branco.
Em setembro, os rebeldes atacaram Calmon, uma das sedes da Lumber. Queimaram a serraria e as instalações da ferrovia. Num desses ataques, morreu o capitão Matos Costa, o da entrevista.
Os governos do Paraná e de Santa Catarina pediram força federal. E os diretores da Lumber também pediram. Naquele mesmo setembro, o governo mandou o general Setembrino de Carvalho. A empresa pediu tropa, e a República mandou o Exército.
Ele juntou de 6 a 8 mil soldados, conforme a conta. E mais uns 2 mil civis armados, os vaqueanos: peão de fazendeiro posto em armas. O historiador Paulo Pinheiro Machado calcula que era mais da metade de toda a tropa do Exército brasileiro. Tudo isso pra cercar caboclo de facão e espingarda, no meio de Santa Catarina.
Fontes deste capítulo:ANESP07TOPJUATHTOMPTROPASdisputada, 7 fontes, 1 disputada
Contestado (série "Que República é essa?")
dentro desta faixa de terrenos existiam muitos posseiros caboclos, indígenas e ervateiroshttps:/
Breve estudo sobre o Movimento do Contestado: a historiografia militar e o caso dos operários da EFSPRG
foram os trabalhadores da linha abandonados nos mesmos sitios em que se achavam as turmashttps:/
Guerra, cerco, fome e epidemias: memórias e experiências dos sertanejos do Contestado
as crianças cercavam o animal abatido e comiam até as tripas quenteshttps:/
Contestado: a história bem-contada
https:/Resenha de Lideranças do Contestado, de Paulo Pinheiro Machado
https:/Cicatrizes do Contestado: a estatização da Southern Brazil Lumber and Colonization Company e o advento do Campo de Instrução Marechal Hermes
https:/Contestado (tamanho da tropa de Setembrino) (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/O avião e a fome
O plano do general era cercar: fechar os quatro lados, cortar a comida e esperar. E foi nesse cerco que o Exército brasileiro usou avião em operação militar pela primeira vez. O piloto era o tenente Ricardo Kirk, primeiro aviador militar do Exército, formado na França.
Em 1º de março de 1915, Kirk decolou pra uma missão que o próprio Exército descreve assim:
missão de reconhecimento com bombardeio no reduto de Santa Maria
Se chegou a cair bomba, o texto não diz. Com tempo ruim e quase nada de visibilidade, o avião bateu num pinheiro alto e caiu. Kirk morreu. A madeireira derrubava pinheiro pra vender; o primeiro avião de guerra do Brasil caiu batendo num.
Em abril, Santa Maria foi destruída. E o que mais matou ali não foi bala. Foi a fome do cerco. Um homem que viveu nos redutos até o fim, Raulino Correa, contou ao historiador Paulo Pinheiro Machado o que acontecia quando aparecia uma rês pra matar:
as crianças cercavam o animal abatido e comiam até as tripas quentes
No fim, comiam xaxim, raiz, o que se mexesse.
Quantos morreram, ninguém contou. As estimativas vão de 3 mil a 30 mil, e a mais citada fala em mais de 10 mil. Paulo Pinheiro Machado estima que em combate não chegou a mil. A fome é que matou família inteira: seguramente mais de 10 mil pessoas.
Fontes deste capítulo:ESP07TOPEBMORTOSdisputadaQUEDA-KIRKdisputada, 5 fontes, 2 disputadas
Breve estudo sobre o Movimento do Contestado: a historiografia militar e o caso dos operários da EFSPRG
foram os trabalhadores da linha abandonados nos mesmos sitios em que se achavam as turmashttps:/
Guerra, cerco, fome e epidemias: memórias e experiências dos sertanejos do Contestado
as crianças cercavam o animal abatido e comiam até as tripas quenteshttps:/
23 de março — Dia da Aviação do Exército
missão de reconhecimento com bombardeio no reduto de Santa Mariahttps:/
Contestado: a história bem-contada (número de mortos) (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/23 de março — Dia da Aviação do Exército (a queda de Kirk) (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/O açougue
Com Santa Maria no chão, o general deu a missão por cumprida, e boa parte do Exército foi embora. Os sobreviventes formaram redutos novos. E o serviço ficou com outra gente. Um juiz de Canoinhas, o doutor Miletto, deu a receita num jornal de Lages, O Lageano, em junho de 1915:
a luta, para ser profícua ao restabelecimento da ordem sem grandes ônus ao país, tem que ser de caboclos contra caboclos
Pra sair barato pro país, a luta tinha que ser de caboclo contra caboclo. O governo federal mandou armas pra civis. E os vaqueanos, gente de coronel, passaram a caçar caboclo no mato.
Conta o historiador Paulo Pinheiro Machado que os vaqueanos eram pagos pelo número de orelhas que traziam. O povo da região deu nome a essa fase: o açougue.
Em Canoinhas, um chefe vaqueano, Pedro Leão de Carvalho, o Pedro Ruivo, foi processado, acusado de tirar mais de cem presos da cadeia da vila e degolar na beira do rio Iguaçu. O promotor juntou as provas e o juiz aceitou. E o júri absolveu Pedro Ruivo três vezes.
Adeodato Ramos virou chefe dos redutos em novembro de 1914, quando morreu o chefe anterior. Foi o último. Caiu preso no fim da guerra e, segundo o Arquivo Nacional, continuou preso de forma ilegal. Em 1923, foi morto pelo diretor do presídio de Florianópolis.
O acusado de degolar cem presos saiu livre. O chefe caboclo morreu na cadeia.
Fontes deste capítulo:ANTOPJU, 3 fontes
Contestado (série "Que República é essa?")
dentro desta faixa de terrenos existiam muitos posseiros caboclos, indígenas e ervateiroshttps:/
Guerra, cerco, fome e epidemias: memórias e experiências dos sertanejos do Contestado
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Contestado: a história bem-contada
https:/Os redutos também matavam
Agora a parte que quem defende os caboclos costuma pular: os redutos também mataram, e muito. No ataque a Calmon, os homens adultos da vila foram mortos. Os piquetes rebeldes arrancavam gado das fazendas e levavam gente pro reduto por bem ou por mal.
E o último chefe, Adeodato, comandou o fim dos redutos no terror. Sobreviventes contam que ele matava quem tentava sair, com medo de fuga, e que muita gente só ficava por medo dele.
E sim, eles eram monarquistas. Era uma das linhas do recado da porta da venda, que pedia a lei de Deus, que é a monarquia. Só que um antigo rebelde, Paulino Pereira, explicou em 1954, numa entrevista a Maurício Vinhas de Queiroz, o que monarquia queria dizer pra ele:
no tempo do Império não havia tais violências... As terras, cada caboclo podia então requerer para si
A monarquia que eles queriam de volta era o tempo de antes do trilho. Não o imperador. A terra.
Nada disso muda a ordem dos fatos. Primeiro veio a concessão, o aviso no jornal, a polícia da companhia. Depois veio o reduto. E o terror do fim aconteceu dentro de um cerco montado pra vencer pela fome. Quem pediu tropa federal não foi o caboclo.
Fontes deste capítulo:CARVTOPATH, 3 fontes
Posseiros e intrusos: o direito à terra na região do Contestado
O guverno da República toca os Filhos Brasileiros dos terreno que pertence a nação e vende para o estrangeirohttps:/
Guerra, cerco, fome e epidemias: memórias e experiências dos sertanejos do Contestado
as crianças cercavam o animal abatido e comiam até as tripas quenteshttps:/
Resenha de Lideranças do Contestado, de Paulo Pinheiro Machado
https:/Por que o Brasil escondeu
Começa pelo nome. Contestado não é o nome de uma guerra. É o nome de uma briga de divisa: uma terra que Paraná e Santa Catarina disputavam.
Em 1916, com a guerra no fim, os dois governos assinaram um acordo de limites e dividiram o mapa. Numa das cláusulas, segundo o Arquivo Nacional, ficavam garantidos os interesses dos coronéis do Paraná. Por muito tempo, foi isso que se contou: uma questão de limites. A guerra virou uma linha no mapa.
Depois veio o silêncio, até os anos 1980. E até descendente de rebelde aprendeu a chamar os seus de jagunço e fanático. Boa parte dos papéis do Exército só foi liberada em 1996, no centenário de Canudos. Sobre o Contestado, o historiador Paulo Pinheiro Machado achou ali 32 caixas.
E a versão do vencedor segue viva. O neto de um coronel do planalto disse ao historiador:
A guerra foi assim, puro banditismo (...) Naquela época havia terra de sobra para quem quisesse
A gente já contou Canudos nesta série. Canudos ganhou um livro famoso, Os Sertões, de Euclides da Cunha, de 1902. Já houve quem dissesse que faltou ao Contestado o seu Euclides da Cunha. Faltou mais que isso. Faltou a quem ganhou alguma vontade de contar como ganhou.
Fontes deste capítulo:ANTOPJURAMP, 4 fontes
Contestado (série "Que República é essa?")
dentro desta faixa de terrenos existiam muitos posseiros caboclos, indígenas e ervateiroshttps:/
Guerra, cerco, fome e epidemias: memórias e experiências dos sertanejos do Contestado
as crianças cercavam o animal abatido e comiam até as tripas quenteshttps:/
Contestado: a história bem-contada
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quem tem, mói; quem não tem, mói também, e no final, todos ficarão iguaishttps:/
O que tem hoje no chão da serraria
Falta a pergunta do começo: e o chão da serraria? A Lumber seguiu serrando por mais de 20 anos depois da guerra. Em 1940, o governo de Getúlio Vargas passou os bens da companhia pra União, pelo Decreto-Lei nº 2.346, de 22 de julho. Em 1952, a área da serraria de Três Barras foi entregue ao Exército.
Hoje, ali é um campo de treinamento do Exército, o Campo de Instrução Marechal Hermes. Nos anos 1950, o governo ainda desapropriou mais de 7 mil hectares em volta pra aumentar o campo.
Entre 27 de setembro e 2 de outubro de 2026, segundo o material da própria artilharia do Exército publicado pelo site Sociedade Militar, 1.010 militares fizeram ali um exercício de tiro real de artilharia: canhão, morteiro pesado e drone carregado de explosivo. O nome do exercício, segundo esse mesmo material: Operação Setembrino de Carvalho. O general do cerco, que depois virou ministro da Guerra.
O piloto da missão sobre Santa Maria, Ricardo Kirk, virou em 2021 o patrono da aviação do Exército. A base dessa aviação, em Taubaté, se chama Forte Ricardo Kirk.
E Calmon, onde ficava uma das sedes da Lumber, teve na última medição por cidade, de 2010, a segunda pior nota de qualidade de vida de Santa Catarina: IDHM de 0,622, contra 0,774 do estado. A araucária hoje está na lista das árvores ameaçadas de extinção. O general virou nome de exercício de tiro.
Volta pro recado da porta da venda. A última frase dele era esta:
nós agora estemo disposto a fazer prevalecer os noços direito
Nós agora estamos dispostos a fazer prevalecer os nossos direitos. Não escreveram eu. Escreveram nós. Gente que ninguém deixou ter papel de terra escreveu o seu, na porta de uma venda.
O Exército guarda os seus nomes: Setembrino, Kirk. Os nossos são Teodora, Maria Rosa, José Maria. E tem os 8 mil que abriram a linha e foram largados: contaram quantos eram, mas nenhum nome ficou no papel.
Quem tem poder organiza a memória do jeito que lhe convém. A nossa, ou a gente organiza junto, ou vira linha de divisa no mapa. Quando disserem que o Brasil é um país sem guerra, lembra do planalto de Santa Catarina. Teve canhão, teve avião, e do outro lado tinha um recado escrito nós.
Fontes deste capítulo:CARVESP07TOMPEBSMD32431IDHM-SCFAPESP, 8 fontes
Posseiros e intrusos: o direito à terra na região do Contestado
O guverno da República toca os Filhos Brasileiros dos terreno que pertence a nação e vende para o estrangeirohttps:/
Breve estudo sobre o Movimento do Contestado: a historiografia militar e o caso dos operários da EFSPRG
foram os trabalhadores da linha abandonados nos mesmos sitios em que se achavam as turmashttps:/
Cicatrizes do Contestado: a estatização da Southern Brazil Lumber and Colonization Company e o advento do Campo de Instrução Marechal Hermes
https:/23 de março — Dia da Aviação do Exército
missão de reconhecimento com bombardeio no reduto de Santa Mariahttps:/
Exército mobiliza 1.010 militares e mais de 130 viaturas em exercício com fogo real
https:/Decreto nº 32.431, de 17 de março de 1953
https:/Lista de municípios de Santa Catarina por IDH-M
https:/Estudo sobre o risco de extinção das árvores da Mata Atlântica
https:/




