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O laudo da cabeça
O preso ia amarrado pelo pescoço, com uma tira de couro, até uma grota no mato, longe do acampamento. Ali, o soldado mandava ele gritar viva à República. E depois cortava a garganta dele. Isso foi em Canudos, no sertão da Bahia, em 1897.
Essa cena não foi contada por inimigo do Exército. Quem deixou escrita foi um republicano que estava lá: Euclides da Cunha, o autor de Os Sertões, aquele livro que cai no vestibular. Em 1897 ele era repórter de O Estado de S. Paulo. Em março daquele ano, escreveu no jornal que a República ia sair vencedora daquela guerra.
A República sairá triunfante desta última prova.
Cinco anos depois, no livro, ele chamou a mesma guerra de crime. No meio do caminho entre as duas frases tem uma cabeça: a de Antônio Conselheiro, o homem que o Exército tinha ido buscar no sertão da Bahia.
Em 4 de novembro de 1897, no gabinete de medicina legal da Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador, abriram uma caixa. Dentro, o crânio dele, coberto de cal. O Exército tinha desenterrado o corpo e cortado a cabeça. Queriam que a ciência achasse nos ossos a prova de que ele era louco e criminoso.
Quem mediu foi o médico Raimundo Nina Rodrigues. Ele acreditava que o formato da cabeça determinava o comportamento, e queria provar que existia uma predisposição à loucura e ao crime. O laudo dele termina assim:
É, pois, um crânio normal.
Nos ossos, nada. Então fica a pergunta: se o crime não estava na cabeça daquele homem, por que a República mandou o Exército quatro vezes contra um povoado de sertanejos pobres chamado Canudos?
A resposta não está no crânio. Está na terra em volta, e em quem trabalhava nela pros outros. E no fim desta história aparece de onde vem o nome de um morro de Canudos que hoje está na boca de todo brasileiro.
Fontes deste capítulo:OSBARONIFRAGAFAPESPENEM2015, 5 fontes
Os Sertões
Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeitohttps:/
A Guerra de Canudos e a construção discursiva euclidiana
A República sairá triunfante desta última provahttps:/
O crânio-celebridade: Antônio Conselheiro e o fracasso da degeneração racial
https:/Nina Rodrigues tentou explicar as desigualdades sociais por meio da raça
É, pois, um crânio normalhttps:/
Exame Nacional do Ensino Médio 2015, caderno azul, questão 22
Belo Monte
Canudos era o nome de uma fazenda de gado parada, na beira do rio Vaza-Barris, no nordeste da Bahia. O dono não morava lá. Em junho de 1893 chegou ali um pregador cearense de 63 anos, magro, de túnica azul: Antônio Vicente Mendes Maciel, nascido em Quixeramobim, no Ceará, em 1830. O sertão o chamava de Conselheiro.
Fazia 25 anos que ele andava de vila em vila, levantando igreja, muro de cemitério e açude com o braço de quem o seguia. Em Canudos, rebatizou o lugar de Belo Monte. E o sertão começou a chegar.
Era a nossa gente, o pobre do sertão. Vinham famílias inteiras, vendendo o pouco que tinham pelo preço que desse. Muita gente ali, provavelmente, tinha sido escravizada até cinco anos antes: a abolição é de 1888. Vinha vaqueiro, meeiro que dividia a colheita com o dono, diarista sem terra. Vinham indígenas kiriri, kaimbé e tuxá.
E mulher, muita mulher: duas pra cada homem, conta o historiador americano Robert Levine. Muitas eram viúvas ou tinham sido abandonadas, e fora dali não tinham como viver.
Quantas pessoas, ninguém sabe ao certo. As estimativas vão de 10 mil a 35 mil, e as mais altas saíram das contas do próprio Exército, que tinha derrotas pra explicar. Há historiador que desconfia justamente delas.
O que eles acharam lá? Chão pra casa sem pagar um tostão, numa fazenda sem dono por perto. Roça na beira do rio: mandioca, feijão, milho, cana, abóbora. Couro de cabra curtido pra vender nas feiras da região. Nenhum imposto. E nenhum patrão.
Isso não quer dizer paraíso. Belo Monte tinha comerciante rico, chefe armado e regra dura. Mas ninguém ali era morador de fazendeiro.
Fontes deste capítulo:WPPOPULACAOdisputada, 2 fontes, 1 disputada
Guerra de Canudos
https:/Guerra de Canudos (população de Belo Monte) (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/O sertão que eles deixaram
Por que isso virou caso de Exército? A resposta está na fazenda de onde aquela gente saiu.
No sertão daquela época, de cada cem pessoas do campo, menos de cinco tinham terra, segundo Levine. Provavelmente, menos de uma. O resto morava na terra dos outros: pagava o dono com parte da colheita e com dias de trabalho, e podia ser posto pra fora a qualquer hora. Era aluguel pago com suor, e sem contrato.
E terra vazia não virava de quem trabalhasse nela. Desde a Lei de Terras, de 18 de setembro de 1850, terra do governo só saía com dinheiro na mão. O artigo 1º não deixa dúvida:
Ficão prohibidas as acquisições de terras devolutas por outro titulo que não seja o de compra
A terra tinha virado mercadoria. E quem não tinha como pagar ficava com a única coisa que sobrava pra vender: o próprio braço.
Quem mandava no município era o coronel, quase sempre o maior fazendeiro. Ele escolhia o juiz e o delegado e entregava os votos do lugar pro governo do estado. E o acordo tinha um preço: em troca dos votos, o governo mandava tropa quando o coronel precisasse. Quem não trabalhava pra ninguém ia preso. O crime tinha nome: vadiagem.
Agora pensa no fazendeiro vendo, em dois ou três anos, milhares de trabalhadores indo embora pra um arraial onde ninguém tinha patrão. Os fazendeiros reclamavam que estava faltando gente pra trabalhar; Levine achou as queixas. E eles pressionaram o governo da Bahia pra agir contra Canudos.
Repara no que incomodava. Não era a reza: rezador, o sertão tinha de sobra. Era gente pobre saindo da fazenda e levando junto a única coisa de que a riqueza do patrão dependia: o trabalho barato de quem não tinha terra.
Fontes deste capítulo:WPENWPLT, 3 fontes
Guerra de Canudos
https:/Canudos
https:/Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850 (Lei de Terras), publicação original
Ficão prohibidas as acquisições de terras devolutas por outro titulo que não seja o de comprahttps:/
A madeira já paga
A faísca foi uma encomenda. Em outubro de 1896, Belo Monte comprou madeira em Juazeiro, na beira do rio São Francisco, pra terminar a igreja nova. Pagou adiantado. A madeira não veio.
O juiz de Juazeiro era Arlindo Leoni. Anos antes, ele tinha saído às pressas da comarca de Bom Conselho por causa dos seguidores do Conselheiro. Euclides escreveu que tudo indica que o negócio foi desfeito de propósito, pra provocar a briga:
Tudo denuncia que o distrato foi adrede feito, visando o rompimento anelado.
Correu o boato de que a gente do Conselheiro ia buscar a madeira à força. O juiz telegrafou ao governador pedindo tropa. Quem pagou e não recebeu virou suspeito de assalto.
O governador da Bahia, Luís Viana, primeiro disse não. Dias depois, o mesmo juiz telegrafou de novo, e o governador mandou a força. O relatório dele, que Euclides transcreveu em Os Sertões, conta as duas coisas:
Respondi-lhe que o governo não podia move[r] força por simples boatos e recomendei, entretanto, que mandasse vigiar as estradas em distancia (...)
Poucos dias depois recebi daquele magistrado um telegrama em que me afirmava estarem os sequazes de Antônio Conselheiro distantes de Juazeiro pouco mais ou menos dois dias de viagem.
E o trem saiu de Salvador com 104 praças e três oficiais. Era a primeira expedição. Em Juazeiro, o ataque não veio. Mesmo assim, o tenente Pires Ferreira, que comandava, decidiu marchar até Canudos.
Em 21 de novembro de 1896, na vila de Uauá, a tropa acordou com uma procissão: cruz de madeira, bandeira do Divino, imagens de santo, reza. No meio dela vinham homens com espingarda velha, foice e ferrão de vaqueiro.
Os soldados tinham fuzil de repetição. Pela conta do tenente, morreram 150 sertanejos. Da tropa, dez. Quinze sertanejos pra cada soldado. E a tropa voltou pra Juazeiro às pressas. Vieram mais três expedições.
Fontes deste capítulo:OSWP, 2 fontes
Os Sertões
Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeitohttps:/
Guerra de Canudos
https:/O inimigo inventado
Em janeiro de 1897 saiu a segunda expedição, a do major Febrônio de Brito: mais de 500 soldados, com canhão e metralhadora. Foi batida na serra do Cambaio e voltou.
Aí o governo federal mandou o comandante mais temido que tinha, o coronel Antônio Moreira César. Três anos antes, quando ele governava Santa Catarina como interventor, 185 presos foram fuzilados na fortaleza da ilha de Anhatomirim. Eram presos da Revolta Federalista, a guerra civil do Sul contra o governo de Floriano Peixoto. Se a ordem foi dele ou do próprio Floriano, até hoje se discute.
Ele levou quase 1.300 homens e 15 milhões de balas, mais de 11 mil pra cada soldado. No arraial, o apelido dele chegou antes: Corta-cabeças. Em março, Moreira César atacou o arraial com a tropa morta de cansaço, foi baleado e morreu. A tropa debandou e largou no caminho fuzis modernos, munição e quatro canhões.
E aqui tem uma coisa que esta história não vai esconder. Os sertanejos cortaram a cabeça dos soldados mortos, queimaram os corpos e enfileiraram as cabeças nas duas beiras da estrada, com pedaços das fardas pendurados nos arbustos.
No Rio de Janeiro, a notícia virou pânico. Os jornais diziam que Canudos era uma conspiração pra trazer a monarquia de volta, com armas e dinheiro de fora; teve quem pintasse os sertanejos como gente armada, sustentada e treinada pela Inglaterra. Multidões atacaram redações de jornais monarquistas. O dono de dois deles, Gentil de Castro, acusado sem prova de mandar armas pro sertão, foi morto numa estação de trem.
E Euclides publicou, em 14 de março de 1897, o artigo A nossa Vendéia. A Vendeia foi a região da França onde camponeses pegaram em armas pela volta do rei, contra a Revolução Francesa. Canudos, pra ele, era isso: a revolta do atraso contra a República. E ele fechou o texto prometendo vitória.
Prova, nunca apareceu nenhuma. Era a notícia falsa daquele tempo. Até Rui Barbosa, que tratava Canudos como um problema simplesmente militar, disse no Senado:
O monarquismo entre nós é o pesadelo voluntário do espírito de perseguição.
Monarquista, ali, era rótulo sem prova. E com esse rótulo, a queixa do fazendeiro que perdia braço virou causa da República.
Fontes deste capítulo:OSBARONIECOPOSWPRUIANHATdisputadaGENTIL, 7 fontes, 1 disputada
Os Sertões
Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeitohttps:/
A Guerra de Canudos e a construção discursiva euclidiana
A República sairá triunfante desta última provahttps:/
Anatomia de uma teoria da conspiração: o papel de Euclides da Cunha na divulgação de que Canudos seria o epicentro de um movimento de restauração monarquista patrocinado por potências internacionais
https:/Guerra de Canudos
https:/Rui Barbosa e sua visão crítica de Canudos
O monarquismo entre nós é o pesadelo voluntário do espírito de perseguiçãohttps:/
Há 125 anos 185 pessoas eram fuziladas na Ilha de Anhatomirim (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
Gentil José de Castro e os ataques aos jornais monarquistas
A quarta expedição
A quarta expedição saiu em junho de 1897, comandada pelo general Artur Oscar. Com os reforços, chegou a uns 8 mil homens, conta Euclides: mais de setenta vezes a primeira tropa. O ministro da Guerra, o marechal Carlos Machado Bittencourt, foi em pessoa pra base de Monte Santo.
Levaram um canhão inglês, um Whitworth 32, arrastado pelo sertão por vinte juntas de boi. Os sertanejos chamavam ele de matadeira. Em 1º de julho, um rapaz de 18 anos, o filho mais velho de Joaquim Macambira, um dos chefes de Belo Monte, atravessou o rio com onze companheiros pra destruir o canhão na mão. Só um escapou.
A artilharia derrubou as torres das duas igrejas. Em 22 de setembro, Antônio Conselheiro morreu dentro do arraial. De doença ou de jejum, as versões não fecham.
Euclides estava lá desde 16 de setembro, como repórter. Dois dias depois da morte do Conselheiro, o cerco fechou. Em 1º de outubro, o Exército jogou dinamite e fogo nas casas com gente dentro.
No dia 2, um sertanejo chamado Antônio Beatinho saiu pra negociar. Voltou com umas 300 mulheres e crianças e meia dúzia de velhos, que se entregaram. Na manhã seguinte, os homens presos na véspera tinham sumido, Beatinho entre eles. Quem registra o sumiço é Euclides, em Os Sertões.
Fontes deste capítulo:OSBARONIWPMORTE-CONSELHEIROdisputada, 4 fontes, 1 disputada
Os Sertões
Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeitohttps:/
A Guerra de Canudos e a construção discursiva euclidiana
A República sairá triunfante desta última provahttps:/
Guerra de Canudos
https:/Guerra de Canudos (morte de Antônio Conselheiro) (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/Canudos não se rendeu
No dia 5 de outubro, no fim da tarde, caíram os últimos. Euclides deu ao capítulo o nome de Canudos não se rendeu e contou quantos eram:
Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.
No dia seguinte, derrubaram o que restava do arraial. Euclides escreveu que eram 5.200 casas, contadas com cuidado.
E acharam o corpo do Conselheiro, enterrado num casebre, com umas flores murchas que alguém tinha posto ali. Fotografaram o cadáver: a foto é de Flávio de Barros, o fotógrafo contratado pelo Exército. Lavraram uma ata pra provar que era ele. Devolveram o corpo à cova.
Depois, pra não perder tempo desenterrando de novo, cortaram a cabeça ali mesmo. Quem levou a caixa pra Salvador foi um médico do Exército. Euclides contou a viagem da cabeça com ironia:
Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio. Que a ciência dissesse a última palavra.
A ciência disse: crânio normal. A marca do crime não estava ali. E o que tinham feito com os vivos ainda estava por contar.
Fontes deste capítulo:OSFRAGAMR, 3 fontes
Os Sertões
Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeitohttps:/
O crânio-celebridade: Antônio Conselheiro e o fracasso da degeneração racial
https:/Canudos (Flávio de Barros), descrição do fundo
https:/"Viva a República"
Euclides descreveu inteira a cena do começo. A tira de couro no pescoço, a grota no mato, longe do acampamento. E o ritual:
Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeito. Era o prólogo invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça (...) degollavam-na.
O grito não salvava ninguém: era o começo da execução. Agarravam pelos cabelos, dobravam a cabeça pra trás e cortavam a garganta. O sertanejo tinha pavor de morrer a faca, porque acreditava que assim a alma não se salvava. Os soldados sabiam, e usavam isso.
Um rapaz preso respondia "sei não" a tudo que perguntavam. Perguntaram como queria morrer. Ele disse: de tiro. Ouviu que ia ser a faca. Morreu gritando viva o Bom Jesus.
E não era soldado fora de controle. Euclides escreveu que essas covardias eram tácita e explicitamente sancionadas pelos chefes militares. E que o governo sabia:
O atentado era público. Conhecia-o, em Monte Santo, o principal representante do governo, e silenciara.
Nessa fase, o ministro da Guerra estava em Monte Santo. Euclides não escreve o nome de quem se calou. Mas governo que sabe e cala tem nome: cúmplice.
Quantos foram degolados, ninguém contou. Morreram de 15 mil a 30 mil pessoas, somando os dois lados. Até a conta mais baixa passa da população inteira de quase metade das cidades brasileiras de hoje.
As crianças que sobraram tiveram outro destino. Soldados e oficiais levavam, davam pelo caminho, presenteavam aliados, e algumas foram vendidas. Um grupo de Salvador, o Comitê Patriótico da Bahia, mandou gente atrás delas. O relatório registrou o que os enviados viram:
(...) vieram dizer-lhe que se estava distribuindo menores como animais; estavam cruelmente separando famílias inteiras; que finalmente, a Bahia estava ameaçada de um novo escravismo
Muitas nunca foram encontradas. Já tinham virado mão de obra explorada, no campo e na cidade. Os pais tinham saído da fazenda pra viver sem patrão. Os filhos foram entregues a um.
Fontes deste capítulo:OSMORTOSdisputadaMONTEIROBAND, 4 fontes, 1 disputada
Os Sertões
Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeitohttps:/
Guerra de Canudos (número de mortos) (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/Crianças do sertão: a história de vida dos jaguncinhos da guerra de Canudos
se estava distribuindo menores como animaishttps:/
Censo 2022: 44,8% dos municípios do Brasil têm até 10 mil habitantes
https:/"Mas eram fanáticos armados"
Tem quem diga: eram fanáticos, monarquistas, armados, e mataram soldado. Uma parte disso é verdade, e precisa ser dita inteira.
O Conselheiro era contra a República, sim. Era contra o casamento no cartório e contra separar a Igreja do governo. Em 1895, a um frade que foi ao arraial, frei João Evangelista de Monte Marciano, ele disse:
No tempo da monarquia deixei-me prender, porque reconhecia o governo, hoje não, porque não reconheço a República.
Belo Monte matou soldado em Uauá e no ataque de Moreira César. E cortou a cabeça dos mortos. Lá dentro também se matou: o comerciante Antônio da Mota e parte da família foram mortos por ordem de um dos chefes, João Abade, sob a suspeita de ter avisado a tropa, segundo o historiador José Calasans.
E não era comunismo, como já se quis contar. Em Belo Monte havia comércio, casa se comprava e vendia, lucro não era proibido, e o maior comerciante do arraial, Antônio Vilanova, saiu de lá rico, com ouro e joias.
Agora a resposta. Primeiro: a conspiração monarquista que justificou a guerra nunca apareceu. Nenhuma arma de fora, nenhum dinheiro de monarquista. Os papéis achados em Canudos mostram reza, não plano político.
Segundo: a violência foi levada até Canudos, não saiu de lá. Antes das tropas, o arraial vivia em paz com os vizinhos, e quem diz isso é Levine, não um militante. Nas palavras dele, a violência foi trazida contra Canudos; não foi exportada de lá.
E Levine não romantiza ninguém. O livro dele, Vale of Tears, de 1992, diz que Canudos não foi nem revolta de fanáticos loucos, nem modelo de resistência operária.
Terceiro, e é aqui que a objeção cai. A pergunta nunca foi se Belo Monte era o paraíso. Não era. A pergunta é por que um arraial sem plano e sem aliado pra derrubar a República recebeu quatro expedições, artilharia e degola. E o que está documentado aponta pro dono da terra: pro fazendeiro que perdia braço, pro coronel que perdia voto.
O sociólogo marxista Clóvis Moura chamou Canudos de protesto social da massa camponesa. E fez a conta de quem ganhou:
Os grandes proprietários de terras saíram vitoriosos.
Não foi revolução. Foi gente pobre que parou de trabalhar pro dono da terra e montou a vida em outro lugar. Pros donos, isso bastava.
Fontes deste capítulo:OSWPLEVINE-UCMOURA, 4 fontes
Os Sertões
Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeitohttps:/
Guerra de Canudos
https:/Vale of Tears
neither a rebellion of crazed fanatics nor a model of proletarian resistancehttps:/
O Significado Político da Guerra de Canudos
Os grandes proprietários de terras saíram vitoriososhttps:/
O que Euclides escreveu depois
Euclides voltou e levou anos escrevendo. Os Sertões saiu em 1902. A nota de abertura, assinada em São Paulo em 1901, traz a frase que o livro carrega até hoje:
Aquella campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemol-o.
O homem que tinha escrito A nossa Vendéia agora chamava a guerra de crime. Só que ele não virou outro homem. Na mesma nota, chama os sertanejos de "sub-raças sertanejas" e escreve que eles estavam condenados a sumir, no "esmagamento inevitavel das raças fracas pelas raças fortes":
Retardatarios hoje, amanhã se extinguirão de todo.
Pra ele, o crime foi o jeito. O fim daquela gente, ele achava natural. Como quem reclama do despejo violento, mas acha justo despejar. É a denúncia da elite do litoral.
O médico do crânio também tinha a saída pronta. Nina Rodrigues tinha diagnosticado no Conselheiro um "delírio crônico de evolução sistemática". E desde o meio da guerra, no estudo A loucura epidêmica de Canudos, de 1897, defendia que a loucura não era só de um homem: era da multidão, uma loucura que pegava de um pro outro. Com o crânio normal, foi essa a explicação que ficou.
Repara na manobra. A ciência da época não achou defeito na cabeça do líder. Então o defeito passou a ser do povo. Doença, agora, era pobre junto.
Euclides tinha usado um psiquiatra inglês do século 19, Henry Maudsley, pra pôr o Conselheiro "nas fronteiras oscilantes da loucura". E fechou o livro com um capítulo chamado Duas linhas:
É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades...
Ele foi procurar o louco no sertão e terminou o livro apontando pro país.
Fontes deste capítulo:OSFRAGAFAPESP, 3 fontes
Os Sertões
Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeitohttps:/
O crânio-celebridade: Antônio Conselheiro e o fracasso da degeneração racial
https:/Nina Rodrigues tentou explicar as desigualdades sociais por meio da raça
É, pois, um crânio normalhttps:/
O que sobrou
Depois da guerra, o que restou de Canudos foi sumindo, por acidente e por obra. Menos uma coisa: o nome de um morro.
Em Canudos, a tropa acampou num morro chamado Favela, nome de uma planta da caatinga. Foi de lá que a artilharia bombardeou o arraial. No Rio de Janeiro, o Morro da Providência, no centro da cidade, passou a ser chamado de Morro da Favella. O mesmo nome.
Em 1906, o engenheiro Everardo Backheuser entregou ao Ministro da Justiça um relatório sobre as moradias do Rio, Habitações populares. É tido como o primeiro documento oficial a tratar a favela como um tipo de moradia da cidade. Ele contou a origem do nome do morro e juntou as duas coisas: o "reduto dos fanáticos" e o "reduto da miséria".
Como o nome viajou do sertão pro Rio não está documentado. A versão mais repetida diz que soldados que voltaram de Canudos montaram barracos no morro pra cobrar do governo o salário atrasado. A socióloga Licia Valladares chama essa história de mito de origem. O que está no papel é o nome, e de onde ele veio. Na década de 1910, favela já tinha deixado de ser o nome de um morro e virado o nome que o Brasil dá pro bairro do pobre.
A cabeça do Conselheiro ficou exposta no gabinete da Faculdade de Medicina até março de 1905, quando um incêndio atingiu a faculdade. O crânio virou cinza.
Os sobreviventes voltaram e ergueram um povoado novo em cima das ruínas. Entre 1951 e 1969, o governo federal, pelo DNOCS, fez ali uma represa, o açude de Cocorobó, pra irrigar lavoura. A água cobriu as ruínas de Belo Monte e o povoado dos sobreviventes. Na seca forte, as ruínas reaparecem.
E em 13 de maio de 2019, a Lei 13.829 pôs Antônio Conselheiro no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. O Exército da mesma República tinha cortado a cabeça dele.
Fontes deste capítulo:OSFRAGAUERJMITO-FAVELAdisputadaL13829COCO, 6 fontes, 1 disputada
Os Sertões
Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeitohttps:/
O crânio-celebridade: Antônio Conselheiro e o fracasso da degeneração racial
https:/Artigo sobre a exposição de Maurício Hora
https:/Artigo sobre a exposição de Maurício Hora (o mito de origem da favela) (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/Lei nº 13.829, de 13 de maio de 2019
https:/Canudos, uma tragédia brasileira
https:/Fecho: o crime de Canudos
Cento e vinte e nove anos depois, a terra continua na mão de poucos. O último censo do campo, o Censo Agropecuário de 2017, do IBGE, fez a conta. Pega cem propriedades rurais. Uma delas, a gigante, com mil hectares ou mais, maior que mil campos de futebol, ocupa quase metade de toda a terra: 47,6%. As cinquenta menores, somadas, ficam com 2,3%.
E pobre que se organiza pra entrar na terra continua sendo tratado como caso de polícia. Em 17 de abril de 1996, em Eldorado dos Carajás, no Pará, uns 1.500 sem-terra que marchavam pra Belém fecharam a rodovia PA-150, na Curva do S. A Polícia Militar matou 19 ali mesmo. Mais dois morreram depois. Só os dois comandantes da operação foram condenados. Mais de 140 policiais, absolvidos.
Em 2023, a extrema direita montou na Câmara dos Deputados uma comissão parlamentar de inquérito contra o MST, o movimento dos sem-terra. Instalada em maio, ela terminou em 27 de setembro sem conseguir nem votar a conclusão. Em 1897, o rótulo era fanático e monarquista. Em 2023, foi invasão: no fim daquela investigação, a oposição entregou ao presidente da Câmara um pacote de projetos de lei chamado Invasão Zero.
Agora volta pro laudo. Mediram a cabeça de um homem procurando o crime. O crime não estava ali. Estava no que aquela gente fez: largou a fazenda e foi viver da própria roça, sem patrão. Pra quem era dono da terra e do voto, isso não tinha perdão.
Belo Monte não era modelo de nada. Tinha comerciante rico, chefe armado e sangue dos dois lados. O que assustou os donos foi o gesto: pobre deixando de trabalhar pra eles. E enquanto um em cada cem tiver quase metade da terra, esse gesto vai continuar sendo tratado como crime.
Antes da faca, a República de 1897 exigia um viva. A gente não deve viva a ninguém. O que a gente cobra é o que o sertão cobrou com os pés, saindo da fazenda: a terra pra quem trabalha nela.
O Exército contou as casas de Canudos depois de derrubar. A gente conta pra não esquecer. E a pergunta que Belo Monte fez, saindo da fazenda, continua de pé: de quem é a terra, e pra quem a gente trabalha?
Fontes deste capítulo:IBGECARAJASCPI, 3 fontes
Censo Agropecuário 2017, resultados definitivos (tabela 6754)
https:/Massacre de Eldorado dos Carajás
CPI do MST na Câmara dos Deputados





