Capítulo 1 de 5 · Ficção
O barulho
O barulho chegou antes da linha. Bastiana estava no erval, quebrando galho de erva pra sapecar, quando ouviu lá pra baixo, do lado do rio do Peixe, um bater de ferro em pedra que não era coisa da terra. Ferreiro ali não tinha. Machado não batia daquele jeito, um golpe atrás do outro, sem parar pra tomar fôlego.
— É a turma — disse o Dito, que tinha nove anos e sabia das coisas antes dela. — O pai desceu pra ver.
Ela terminou o feixe, amarrou com cipó, jogou nas costas e desceu também.
Da beira do capão dava pra enxergar o corte. Tinham derrubado o mato numa tira reta, que vinha do norte e sumia pro sul acompanhando o rio, e a tira estava cheia de homem. Uns cavavam e levavam terra em padiola, outros quebravam pedra de marreta. Mais adiante, onde o chão já estava batido, deitavam toras lavradas atravessadas no caminho, uma do lado da outra, que nem degrau de escada caída. O Generoso estava encostado num toco, de chapéu na mão.
Bastiana olhou os homens. Eram magros, queimados, de camisa grudada no lombo. Um deles, de bigode cor de palha, levantou a cara, viu a mulher de feixe nas costas lá em cima e acenou com a mão aberta, sem largar a marreta da outra. Ela não acenou de volta. Mas também não desviou o olho.
— Turmeiro — disse o Generoso. — Disque vêm das colônias do Paraná. Tem uns que nem fala a nossa língua direito. E o trem que vem por cima disso vai de São Paulo até o Rio Grande, e passa aqui no meio.
Na ponta de lá do corte, na sombra de uma lona, tinha uns homens que não pegavam em ferramenta. Estavam de espingarda no ombro e olhavam os turmeiros do jeito que o capataz olha a tropa no corredor, contando cabeça.
— E aqueles?
— Polícia da estrada.
— Polícia de quem?
— Da companhia — disse o Generoso, como se a palavra explicasse alguma coisa.
Subiram juntos. A casa ficava no alto do campinho, de tábua lascada e chão batido, com o fogo de chão no meio e o girau da erva nos fundos. Na porteira tinha um pinheiro tão grosso que o Dito e a Zefa, de mão dada, não davam a volta nele. Foi o pai do Generoso que abriu aquela roça, e foi debaixo daquele pinheiro que o velho morreu, numa tarde de maio, catando pinhão.
A velha Eulália estava na soleira com o balaio de espiga no colo. Era o fim da debulha, e ela tinha deixado pro fim as vermelhas. Dessas não debulhava tudo: quebrava a ponta e o pé, que não prestam pra semente, e tirava só os grãos do meio, com o dedão, um por um, pra dentro de uma cuia. Ouviu a história do trilho sem levantar a cabeça.
Quando a cuia encheu, ela tirou dali um punhado, embrulhou numa palha dobrada, amarrou com fibra e pendurou no caibro em cima do fogo, onde a fumaça não deixa o caruncho entrar. O resto foi pro saco da semente.
— Por que esse vai separado? — perguntou a Zefa.
— Esse é do teu avô.
Lá embaixo, até escurecer, o ferro continuou batendo na pedra.
Num domingo de geada, o turmeiro de bigode cor de palha apareceu na porteira com outro mais novo. Queriam pinhão. Ofereceram em troca uma faca de cabo de osso. O Generoso deu o pinhão e não quis a faca, e a Eulália mandou a Bastiana pôr mais um punhado no saco. Os dois foram embora pela trilha, no meio da geada, de volta pro corte.
Quando a obra acabou, o bater de ferro parou de uma vez. O do bigode passou mais uma vez na porteira, sozinho, com uma trouxa no ombro.
— Empreiteiro foi embora — disse, no português que tropeçava. — Dinheiro foi junto.
Ia voltar a pé pra colônia. Não pediu nada. A Bastiana deu um pedaço de queijo e meia rapadura, e ele foi embora pelo meio da linha, pisando de dormente em dormente, até virar um risco escuro no fim da reta.
No outro dia de manhã, a faca de cabo de osso estava fincada no moirão da porteira. O Generoso arrancou, ficou um tempo olhando pro lado da linha, e deu pro Dito.
Capítulo 2 de 5 · Ficção
A estaca
Os homens da medição chegaram no fim da colheita, com uma corrente de ferro comprida, um aparelho de olhar em cima de três pernas e um maço de estaca pintada. Eram dois de gravata e quatro de espingarda. Os de gravata olhavam pelo aparelho e gritavam número. Os de espingarda fincavam estaca.
Fincaram uma no meio do milharal, entre os pés já quebrados da colheita.
O Generoso foi lá falar com eles. Bastiana ficou na porteira, segurando a Zefa pelo braço, porque a menina queria correr atrás do pai. De longe ela via o marido falando com a mão aberta, apontando a casa, depois o pinheiro. O homem de gravata deixou ele falar até o fim, disse alguma coisa curta e voltou pro aparelho.
— Eu disse que o pai abriu essa roça — contou o Generoso, na janta. — Que quem tá na terra e tira o sustento dela ninguém pode tirar. Que é lei.
— E ele? — perguntou a Eulália.
— Disse que aqui é terra devoluta.
Ninguém ali sabia o que era devoluta, e o Generoso não tinha perguntado. Depois da janta ficou repetindo a palavra baixinho, pra não esquecer.
Na semana seguinte apareceu estaca no erval do Seu Lino. Depois na roça do vizinho de baixo, e na beira do caminho, do lado da cruz que o monge João Maria tinha mandado levantar, no tempo em que andou por aquela serra benzendo o povo. Depois uma no cemitério, a dois passos da cruz do finado. Essa a Eulália arrancou com as duas mãos e jogou no mato. Na outra semana tinha outra no mesmo lugar.
Em outubro plantaram. A estaca continuou no meio da roça, e o Generoso plantou em volta dela. A Eulália desceu do caibro a palha dobrada e foi pro canto dela, perto do pinheiro, onde o milho vermelho ia todo ano. Abria a cova com a enxada, punha três grãos, e a Bastiana vinha atrás fechando com o pé. Não plantaram tudo. Um punhado voltou pra palha e pra cima do fogo: se a geada ou a caturrita levasse a roça, ainda tinha semente pro outro ano.
Em novembro, num sábado de venda cheia, o Juca vendeiro subiu num caixote com um jornal na mão. Era O Palmense, que um tropeiro tinha trazido dobrado em quatro, com uma parte marcada de lápis. O Juca era dos poucos dali que liam de corrido, e lia alto, devagar, apontando com o dedo. Começava sempre pelo cabeçalho.
— O Palmense, cinco de novembro de mil novecentos e onze — leu.
Bastiana estava no balcão comprando sal. Parou com o pacote na mão.
— "Este faz saber a todos" — leu o Juca — "que é expressamente proibido invadir ou ocupar os terrenos pertencentes à Companhia Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande."
Teve um silêncio. Depois o Seu Lino perguntou, lá do fundo, quem é que estava invadindo.
— Diz aqui que é quem estiver no terreno da companhia — disse o Juca, e dobrou o jornal.
— Eu tô no meu desde antes do pai desse moço de gravata nascer — disse o Lino.
Ninguém riu. O Juca desceu do caixote e foi pesar o feijão de uma mulher.
Em dezembro vieram cinco homens da polícia da estrada, a cavalo, sem papel nenhum. O que mandava era moço, de bota boa, e falou com o Generoso sem apear: a companhia já tinha avisado no jornal, eles tinham até a lua nova pra sair, e o que conseguissem carregar podiam levar.
— E a roça? — perguntou o Generoso.
— A roça fica.
— E o milho que tá na terra?
O moço olhou pro milharal, que estava na altura do joelho, e não respondeu. Mandou dois homens arrancarem a cerca do potreiro. Os homens arrancaram tábua por tábua e jogaram no barranco. A vaca saiu pro campo e ficou parada, sem saber o que fazer com tanto espaço.
Bastiana viu a Eulália sair de dentro de casa com o terço na mão e ir até o pinheiro da porteira. A velha encostou a testa no tronco e ficou ali enquanto os homens trabalhavam, sem olhar pra eles nem uma vez. Quando eles foram embora, ela pegou a enxada, desceu pro canto do milho vermelho e capinou até escurecer.
Saíram na última semana do ano. O cavalo levou a panela de ferro, o pilão, o santo da parede e dois sacos de milho. As galinhas foram num cesto, nas costas do Dito, e a vaca foi puxada atrás, de corda. A Eulália desceu do caibro a palha com o punhado e amarrou na ponta do xale. Na porteira parou e olhou a roça. O canto do pinheiro era o único sem um pé de mato. Depois passou, e não olhou mais.
— Pra onde a gente vai? — perguntou a Zefa.
— Pro compadre Tibúrcio — disse a Bastiana. — Pros campos de Curitibanos. Lá ninguém veio medir ainda.
Ela disse "ainda" e se arrependeu, porque o Dito ouviu.
Capítulo 3 de 5 · Ficção
Terra emprestada
O compadre Tibúrcio morava perto de Taquaruçu, num campo com capão de pinheiro e uma sanga no fundo, e deu um canto pra família fazer rancho. O Generoso levantou de pau a pique, coberto de tabuinha, em três semanas. Plantaram em janeiro, fora de tempo, o milho comum que tinha sobrado nos sacos.
— A senhora não vai pôr o da roça? — perguntou a Bastiana.
— Esse volta pra lá.
O milho de janeiro saiu ralo. A vaca não se acostumou com a água da sanga e morreu antes do inverno.
No outono o Generoso desceu com uma tropa de erva do Tibúrcio pro lado do rio do Peixe, e na volta passou pela roça velha. Chegou de noite e não falou nada na janta. Depois tirou do embornal uma espiga vermelha, meio comida, e pôs no colo da mãe.
O rancho estava no chão, ele contou depois, deitado no escuro. O milho ninguém tinha colhido. Secou em pé, o vento deitou a metade, e o resto a caturrita e o bicho do mato comeram. No canto do pinheiro ele tinha achado aquela espiga, que os bichos largaram pela metade.
A Eulália debulhou ali mesmo, no colo, grão por grão. Separou os que prestavam, desamarrou a ponta do xale, juntou com os outros e amarrou de novo.
Em julho a Zefa adoeceu. Começou com uma febre de tarde, que passava de manhã e voltava de tarde. Depois não passou mais. A menina parou de comer, depois parou de reclamar. De hora em hora a Bastiana punha a mão aberta na testa dela e apertava de leve, pra ver se tinha baixado. Não baixava. A Eulália fez chá de tudo que conhecia. O Tibúrcio trouxe uma benzedeira, que benzeu e foi embora sem cobrar e sem prometer nada. Médico, ninguém ali tinha visto um.
Foi na venda de Taquaruçu que o Tibúrcio ouviu falar do curandeiro. Diziam que era irmão do monge João Maria, que receitava erva e garrafada e não pedia nada, e que o povo de lá tinha chamado ele pra festa do Bom Jesus.
— A gente vai — disse a Eulália.
Esperaram dois dias numa fila que dava volta no campo. A Zefa dormia no colo da Bastiana, quente como pedra de fogão. Na fila cada um contava de onde tinha vindo e quem tinha mandado sair. A Bastiana não contou nada.
Quando chegou a vez, ela entrou numa casa de tábua cheia de erva pendurada no teto. O curandeiro olhou a Zefa, perguntou desde quando era a febre, e disse pra Eulália, e não pra ela, o nome de três ervas e o jeito de fazer o chá. A Eulália conhecia duas. A terceira ele deu, embrulhada num pedaço de pano.
No terceiro dia, de madrugada, a Bastiana pôs a mão na testa da menina e achou fria, molhada de suor. Tirou a mão e pôs de novo.
A festa acabou e o povo não foi embora. Muitos ali não tinham mais roça pra onde voltar. Eles ficaram também, pra Zefa firmar. Foi nos fogos de noite que correu a conversa: o coronel de Curitibanos, o que mandava na política da vila, desconfiava que aquele ajuntamento em volta do curandeiro era coisa de inimigo dele. Andava dizendo que aquela gente era tudo monarquista, e tinha mandado buscar polícia.
— Que é monarquista? — perguntou o Dito.
O Generoso pensou um pouco.
— É quem gosta do tempo do imperador.
— E a gente gosta?
— No tempo do imperador ninguém veio medir a nossa roça — disse a Eulália, que estava escutando.
A polícia veio e tocou o curandeiro dali, com um grupo atrás dele, pros lados do Irani. A família voltou pro canto do Tibúrcio. No fim de outubro um tropeiro parou na porteira pra pedir água e contou, de passagem, que tinha havido briga no Irani, numa terra que o Paraná dizia que era dele e Santa Catarina dizia que era dela. A polícia do Paraná tinha ido atrás do curandeiro e apanhou. O comandante dela, um coronel de farda, tinha morrido. O curandeiro também.
A Eulália acendeu uma vela pro santo da parede e ficou sentada na frente dela até a vela acabar. Depois disse, pra ninguém em particular, que o curandeiro ia voltar. Que tinha ouvido dizer que ia voltar, com um exército que ninguém via. Enquanto falava, apertava o nó da ponta do xale.
Capítulo 4 de 5 · Ficção
O paiol
Um ano depois, foi uma menina que chamou o povo de volta pra Taquaruçu: sonhava com o curandeiro, e no sonho ele mandava todo mundo voltar. Quando a conversa chegou no canto do Tibúrcio, já tinha rancho sendo desmanchado nos campos em volta, de gente que tinha esperado o curandeiro e de gente que tinha sido tirada da sua terra. O Tibúrcio desmanchou o dele. Foram todos juntos, com o milho da colheita em dois sacos no lombo do cavalo.
Na entrada da praça, do lado das cruzes, tinha um paiol de taquara, e um homem de barba rala, que diziam ser um dos comandantes, mandava pôr ali o que cada um trazia. O Generoso desamarrou os sacos. O homem fez sinal, e um piá despejou os dois no monte, em cima do milho dos outros.
Bastiana ficou olhando. Tinha catado aquele milho espiga por espiga, no canto ralo do Tibúrcio, e agora não sabia mais qual era. O homem viu o nó na ponta do xale da Eulália e esticou a mão.
— E isso aí, dona?
— Semente.
A Eulália não tirou a mão do nó. O homem ficou com a dele esticada um tempo. Depois olhou a fila que vinha atrás e mandou passar.
De noite, na frente do rancho que deram pra eles, uma mulher veio com uma gamela de farinha, encheu os pratos e seguiu pro rancho do lado. A Zefa comeu e pediu mais, e ganhou mais.
— Aqui a senhora podia pôr o da roça — disse a Bastiana, baixo.
A Eulália apertou o nó.
— Depois.
De manhã, na praça, depois da reza, os comandantes davam as tarefas. A Bastiana pediu a roça e deram pra ela o moinho, na beira da sanga, com outras mulheres. Passava o dia despejando na moega o milho do monte, e no fim da tarde voltava com farinha no cabelo e nas sobrancelhas. O Generoso ia pro mato tirar madeira, e o Dito ia junto e voltava de ombro esfolado, calado que nem o pai.
Nos fogos de noite, quem chegava de fora contava que o governo não gostava daquela cidade santa, que já tinha mandado polícia atrás do curandeiro e ia mandar soldado pra desmanchar o ajuntamento. Um dia os homens feitos foram levantar um reduto novo, mais pro norte, num mato fechado chamado Caraguatá. As mulheres, os velhos e as crianças iam depois, quando lá tivesse rancho. O Generoso levou o facão, a espingarda velha do pai e um saco de farinha. O Dito quis ir junto e o pai não deixou.
— Tu fica. Tu cuida da tua mãe, da tua avó e da tua irmã. Na semana que vem eu mando buscar.
O Dito ficou na beira da praça até não dar mais pra ver o pai no meio do campo.
Capítulo 5 de 5 · Ficção
Do alto
A Zefa foi quem viu primeiro. Estava no terreiro, de manhã, logo depois da reza, e apontou pro morro do lado do nascente.
— Mãe. Tem gente lá em cima.
Bastiana olhou. No alto do morro, contra o céu ainda claro de cedo, tinha uma fila de pontinhos parados. Depois ela olhou pro morro do outro lado, e tinha também. E do outro. O vale de Taquaruçu era uma bacia, e em toda a beira da bacia tinha gente olhando pra baixo.
— Soldado — disse uma mulher do lado. — É soldado do governo.
Alguém começou a gritar o nome dos comandantes, e ninguém respondeu. Na praça, em volta das cruzes, juntou-se um povo que não sabia o que fazer, mulher de criança no colo, velho, menino. Tinha mais de duzentos ali, e quase nenhum homem feito.
O primeiro tiro passou alto, com um assobio comprido, e estourou no ar, em cima dos ranchos do lado do moinho. Não foi um estouro no chão, como Bastiana imaginava que era tiro de canhão. Foi no céu. Uma nuvenzinha branca e redonda, e logo depois um barulho de chuva grossa caindo nas tabuinhas, nas costas de quem estava embaixo, no chão de terra, levantando pó em cem lugares ao mesmo tempo.
Depois veio outro. E outro.
Ela agarrou a Zefa por um braço e o Dito pelo outro, e o Dito se soltou e correu pro rancho, e ela gritou, e ele voltou de dentro com a avó pela mão. A Eulália vinha devagar, de terço na mão e a ponta do xale amarrada.
— Pra sanga — disse a Bastiana. — Pro mato da sanga.
Correram. Atrás deles os estouros iam caindo em cima dos ranchos, e começou a subir fumaça de tabuinha queimando. O Dito ia contando os tiros em voz alta, sem perceber que estava contando, como quem reza. Quinze. Dezesseis. Na beira da sanga tinha um barranco fundo, com xaxim e taquara por cima, e a Bastiana empurrou os filhos lá pra dentro e se jogou por cima deles. A Eulália não desceu. Ficou sentada lá em cima, encostada num xaxim, com o terço na mão.
— Desce, mãe — gritou a Bastiana.
— Daqui eu escuto melhor — disse a velha.
Os tiros continuaram o dia inteiro. Os estouros andavam pelo vale de um lado pro outro, devagar. O Dito parou de contar no setenta e poucos, quando a voz dele acabou. A Zefa dormiu. Bastiana não dormiu. Ficou olhando o pedacinho de céu que aparecia entre as folhas de xaxim, esperando a próxima nuvem branca, e a fumaça escura que subia do vale, cada vez mais grossa.
Quando escureceu, os tiros pararam.
Ela subiu o barranco sozinha. A Eulália estava onde tinha ficado, sentada, encostada no xaxim, com o terço enrolado nos dedos. Estava de olho aberto, olhando pro vale. Bastiana chamou baixinho, depois chamou mais alto, depois parou de chamar. Não tinha nada no rosto da velha. Só um furinho na roupa, do lado do peito, e um pouco de sangue que nem chegava a ser muito. Bastiana fechou os olhos dela com a mão. Depois desamarrou a ponta do xale e tirou o punhado de milho, e guardou no bolso da saia, e só depois disso chorou.
De madrugada, com os filhos pela mão, ela atravessou o que tinha sido Taquaruçu. Os ranchos estavam no chão, quase todos, uns ainda soltando brasa. Onde era a igreja tinha um monte de tábua preta. Tinha gente andando no meio da fumaça como ela, catando o que dava pra catar, chamando nome. Às vezes alguém respondia.
Ela não ficou pra enterrar a Eulália. Os soldados podiam descer. Pediu pra uma mulher de Curitibanos, que tinha ficado sozinha e não ia sair dali, que pusesse uma cruz onde a velha estava. A mulher disse que punha.
Depois pegou a estrada do norte, por dentro do mato, do jeito que os homens tinham ido, com o Dito na frente abrindo caminho com a faca de cabo de osso e a Zefa no meio. Foram junto outras mulheres com criança e uns velhos que ainda aguentavam andar. Andaram dias, comendo o que achavam e dormindo no mato sem fogo, com medo de que o fogo fosse visto do alto.
Numa tarde chegaram num lugar onde a mata era tão fechada que mal entrava luz, com imbuia velha e pinheiro de um tamanho que Bastiana nunca tinha visto, e lá dentro tinha rancho novo, de madeira ainda branca, e fumaça de cozinha.
O Generoso veio correndo do meio dos ranchos. Parou na frente dela. Contou os filhos com os olhos e depois olhou por cima do ombro dela, procurando mais alguém. Bastiana fez que não com a cabeça. Ele não perguntou mais nada. Abraçou os três de uma vez, e ficou um tempo assim, e depois foi buscar água.
No outro dia de manhã teve reza na praça nova, em volta das cruzes novas, e depois as tarefas. Os homens subiam nas imbuias com corda e facão. As mulheres foram pra roça, que era um pedaço de mato acabado de derrubar, ainda com toco e cinza.
Bastiana pegou a enxada que deram pra ela e foi com as outras. Abriu uma cova de milho, depois outra. No fim da tarde, quando as outras já iam voltando, ela ficou. Andou até a beira da roça, onde a terra encostava no mato, e tirou do bolso da saia o punhado de milho vermelho da roça velha.
A Zefa estava olhando.
— É o milho da vó?
— É.
— E dá aqui?
— Dá — disse a Bastiana. — Se der tempo.
Ajoelhou na terra, que ainda estava morna do dia. Com o dedão, abriu um buraco pequeno, pôs três grãos dentro e fechou. Depois abriu outro, um palmo adiante, e mais outro. Quando acabou o punhado, ela ficou de joelhos mais um pouco, com a mão aberta em cima da terra, apertando de leve, do jeito que se aperta a testa de criança.
Fim do conto
O que é fato e o que é ficção
Este conto é ficção. Bastiana, Generoso, Dito, Zefa, a velha Eulália, o compadre Tibúrcio, o Juca vendeiro, o Seu Lino, o turmeiro de bigode cor de palha, o moço da polícia da estrada e o homem do paiol não existiram. A roça, o pinheiro da porteira, a faca de cabo de osso e o milho vermelho são inventados. O mundo em volta deles, não.
O que é histórico:
- Entre 1908 e 1910, uns 8 mil trabalhadores braçais, os turmeiros, abriram a Linha Sul da Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande pelo vale do rio do Peixe. Muitos eram colonos imigrantes das colônias do Paraná, e o salário passava pela mão de empreiteiros. A obra acabou em dezembro de 1910; em 1916, o general Setembrino de Carvalho escreveu que os trabalhadores da linha foram abandonados onde estavam "por uma deslealdade dos empreiteiros". A maioria foi deixando a região aos poucos; só um pequeno número ficou no vale (Espig, 2012; Espig, 2007).
- A ferrovia tinha um Corpo de Segurança armado, de mais de 300 homens, criado provavelmente no fim de 1908 pra vigiar os turmeiros e usado depois pra tirar posseiros da terra (Espig, 2012; Carvalho, 2003).
- A companhia, controlada desde 1907 pela Brazil Railway, do americano Percival Farquhar, recebeu do governo as terras que ele chamava de "devolutas" ao longo da linha. Dentro delas viviam posseiros havia gerações, e a lei reconhecia a posse de quem morava e cultivava. Entre 1908 e 1911 a companhia demarcou essas terras e expulsou famílias (Machado, 2018; Sugimoto, 2005; Carvalho, 2003; Espig, 2012).
- O aviso lido na venda é real: em 5 de novembro de 1911 o jornal O Palmense publicou o edital da companhia dizendo que era "expressamente proibido invadir ou ocupar os terrenos pertencentes à Companhia Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande" (Carvalho, 2003).
- O monge João Maria, nome usado por pelo menos dois andarilhos na região, benzia e mandava levantar cruzes (Sugimoto, 2005).
- Em agosto de 1912, o curandeiro José Maria, que se dizia irmão do monge e receitava chás e garrafadas, foi à festa do Bom Jesus em Taquaruçu, no município de Curitibanos. Vieram doentes de toda parte e, acabada a festa, o povo ficou. O prefeito de Curitibanos, coronel Francisco de Albuquerque, desconfiou que o curandeiro servia a um adversário político, chamou a polícia de Florianópolis e acusou aquela gente de fanáticos e monarquistas. Em setembro de 1912 a polícia catarinense expulsou José Maria e um grupo para o Irani, área disputada entre Paraná e Santa Catarina e administrada pelo Paraná. Ali, em 22 de outubro de 1912, a polícia do Paraná foi batida; morreram o coronel João Gualberto, que a comandava, e José Maria. Depois disso, o curandeiro passou a ser esperado de volta, à frente de um exército encantado (Sugimoto, 2005; Athanázio, 2008; Machado, 2011; Machado, 2018).
- Um ano depois, o povo voltou a Taquaruçu em torno de uma menina, Teodora, que contava sonhar com José Maria mandando voltar. Na "cidade santa", terra, gado e roça eram de posse comum, e o povo se juntava na praça das cruzes pra rezar e receber as tarefas dos comandantes (Machado, 2011; Sugimoto, 2005).
- Em fevereiro de 1914, com os homens adultos fora, levantando o reduto de Caraguatá mais ao norte, o Exército cercou Taquaruçu pelo alto e atirou durante um dia sobre mais de duzentas pessoas, na maioria mulheres, crianças e velhos: 175 granadas de estilhaço, do tipo que explode no ar (schrapnell). Mais de duzentas casas e a igreja foram destruídas (Machado, 2011).
- Caraguatá ficava na mata de imbuia e araucária (Machado, 2011).
O que veio depois (fora do conto): em março de 1914 o Exército atacou Caraguatá e foi batido por atiradores escondidos no alto das árvores (Machado, 2011). A guerra durou até 1916, com o cerco pela fome e a caçada aos sobreviventes. Os mortos nunca foram contados: as estimativas vão de 3 mil a 30 mil (Sugimoto, 2005; Machado, 2018).
O que é inventado sobre gente real: uma cena só. Na festa de Taquaruçu, a Zefa é atendida pelo curandeiro José Maria: esse atendimento é inventado. O que é histórico é que ele receitava ervas e garrafadas aos doentes que vinham à festa (Athanázio, 2008; Sugimoto, 2005). Ele não tem fala nem é nomeado no conto. Teodora e o coronel de Curitibanos chegam só pelo que a família ouve dizer, também sem nome e sem fala. O boato de que o governo ia mandar soldado contra a cidade santa é conversa de personagem; o que é fato é o ataque do Exército (Machado, 2011). A medição na roça, a volta do Generoso à roça velha, o paiol, a morte da Eulália e a viagem da família até Caraguatá são ficção.
