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O recibo
A maior fábrica de armas do Brasil escreveu, no relatório de resultados de 2020 para os sócios, o que uma lei fez pelas vendas dela. A Taurus, que se apresenta como líder absoluta no mercado nacional, foi direta.
A mudança da legislação nacional com relação à posse de armas levou à mudança no perfil de consumo de armas no Brasil, com aumento da procura por armas de calibres anteriormente restritos, como 9mm e fuzis, modelos que incorporam maior valor agregado e, portanto, maior rentabilidade para a Companhia.
Está lá, com todas as letras: a mudança da lei das armas, no governo de Jair Bolsonaro, mudou o que o brasileiro compra. Mais pistola 9 mm, mais fuzil. E a frase termina assim: maior rentabilidade para a Companhia. Traduzindo: mais lucro.
O lucro da Taurus em 2020 foi de R$ 263,6 milhões, seis vezes o do ano anterior. A maior parte das vendas foi pros Estados Unidos, mas a frase sobre a lei é sobre o Brasil.
Isso é um recibo. E um recibo tem sempre duas pontas: quem recebeu e quem pagou. Porque o mesmo governo que mudou a lei das armas mudou outra lei, e essa o trabalhador sente no dia de se aposentar. Hoje, pra levar a média inteira do que contribuiu, um homem precisa de 40 anos pagando o INSS. E no mesmo ano, na reforma dos militares, o general passou a ter um adicional de 73% em cima do salário-base. O soldado, de 12%.
O mito, como os apoiadores chamavam Bolsonaro, chegou falando de Deus e de família. Aqui a gente segue outra coisa: o dinheiro. Quem pôs dinheiro nele, quem lucrou com ele e pra quem mandaram a fatura. E por que, quando o golpe deu errado, a condenação pegou um homem que tinha mandado um Pix de R$ 500.
Fontes deste capítulo:TAURUS20TAURUS21EC103-26MIL-REFMIL-73PIX500, 6 fontes
Release de resultados 4T20/2020
A mudança da legislação nacional com relação à posse de armas levou à mudança no perfil de consumo de armas no Brasil, com aumento da procura por armas de calibres anteriormente restritos, como 9mm e fuzis, modelos que incorporam maior valor agregado e, portanto, maior rentabilidade para a Companhia.https:/
Resultado da Taurus em 2021
https:/Emenda Constitucional 103/2019, art. 26
https:/Segundo governo, reestruturar carreira e Previdência dos militares trará superávit
https:/Previdência: oficiais terão aumento de até 73%; soldados, de 12%
https:/STF condena a 14 anos de prisão empresário que doou R$ 500 para ônibus
https:/O capitão do salário
A história começa com um homem reclamando do próprio salário. Em setembro de 1986, um capitão do Exército publicou na revista Veja, na seção Ponto de Vista, um artigo chamado O salário está baixo. O capitão era Jair Bolsonaro, 31 anos. Ele dizia que os cadetes estavam largando a farda por causa do dinheiro.
O Exército puniu: 15 dias de prisão disciplinar, por criar, segundo a punição, um clima de inquietação.
No ano seguinte, a mesma revista publicou que ele e outro oficial planejavam explodir bombas em quartéis, pra pressionar por salário. Ele negou. Um conselho de oficiais do Exército, por unanimidade, decidiu contra ele. Em junho de 1988, o Superior Tribunal Militar, o tribunal dos militares, absolveu ele, por maioria. Cinco meses depois, ele foi eleito vereador no Rio de Janeiro.
Olha de onde ele veio. A primeira bandeira dele foi salário. Só que o de uma categoria só: a dele. É um sindicalista de farda. E é por isso que o resto da carreira dele entrega tanto: quando o assunto era o salário de quem não usa farda, o lado dele era outro.
Fontes deste capítulo:WIKI-SALISTOE-JULGSTM-PLACARdisputada, 3 fontes, 1 disputada
O salário está baixo
https:/O julgamento que tirou Bolsonaro do anonimato
https:/Placar da absolvição no Superior Tribunal Militar (1988) (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/De que lado votava
Foram sete mandatos de deputado federal, de 1991 a 2018, quase três décadas no fundo do plenário.
Em 2012, os deputados votaram a PEC das Domésticas, a mudança na Constituição que deu às empregadas domésticas o que todo trabalhador de carteira já tinha: hora extra, jornada limitada, fundo de garantia. No primeiro turno na Câmara, em 21 de novembro de 2012, foram 359 votos a favor e 2 contra.
Bolsonaro foi contra, e disse na TV Câmara, em 2013, que a lei ia criar um exército de gente na informalidade ou no Bolsa Família.
É um exército de pessoas que vão para a informalidade ou vão para o Bolsa Família
O capitão que foi preso reclamando de salário, quando o direito era da empregada doméstica, falou em informalidade.
Três anos depois, quem foi pra rua foi o patrão. Em setembro de 2015, os donos de fábrica de São Paulo, pela Fiesp, inflaram um pato amarelo de 12 metros na Avenida Paulista, da altura de um prédio de quatro andares. A campanha se chamava Não vou pagar o pato. Era contra a volta da CPMF, o imposto que mordia um pedaço de todo dinheiro que saía da conta. O pato virou símbolo dos protestos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016.
Em 26 de abril de 2017, a Câmara votou a reforma trabalhista. O deputado Jair Bolsonaro votou sim. Foi a reforma que criou o trabalho intermitente, em que você só recebe pelas horas em que te chamam, e que fez o acordo com o patrão valer mais que a lei em vários pontos. Na prática, é o bico com carteira assinada.
Antes de o dinheiro grande achar o mito, o voto dele já tinha lado. O que faltava era o patrão perceber. E em 2018 ele percebeu, no dia em que uma ação subiu quase 28%.
Fontes deste capítulo:TRT12-PECCB-DOMPEC-VOTOdisputadaPATOJB-REFTRABMT-0210, 6 fontes, 1 disputada
Câmara aprova mais direitos aos domésticos
https:/Reportagem sobre a PEC das Domésticas no Dia da Trabalhadora Doméstica
É um exército de pessoas que vão para a informalidade ou vão para o Bolsa Famíliahttps:/
Câmara aprova segundo turno da PEC das Domésticas (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/Campanha contra aumento de impostos leva pato gigante a Brasília
https:/Confira o voto de cada deputado no texto-base da reforma trabalhista
https:/Kit Bolsonaro dispara com reta final das eleições e Ibovespa salta 3,8%
https:/O Posto Ipiranga
Em 2018, o deputado do fundo do plenário virou candidato a presidente. E tinha um problema: o tal mercado, os bancos e a bolsa, desconfiava dele. A solução tinha nome: Paulo Guedes, economista, um dos fundadores do banco Pactual. O candidato chamava ele de Posto Ipiranga: qualquer pergunta de economia, a resposta era pergunta pro Posto Ipiranga.
E o Posto Ipiranga tinha uma escola. Doutorado em Chicago e, no começo dos anos 1980, professor na Universidade do Chile, na ditadura de Augusto Pinochet.
Agora, o dia da ação. Em 2 de outubro de 2018, reta final do primeiro turno, os sites de economia chamaram de kit Bolsonaro as ações que subiam junto com ele: estatais e bancos. Naquele dia, a ação da Taurus, a da fábrica de armas, subiu 27,91%. Seis dias depois, passado o primeiro turno, a bolsa inteira subiu 4,6% num dia só. A manchete do site Money Times foi que o mercado vence no primeiro turno.
O mercado parece começar a pôr na conta a vitória de Jair Bolsonaro
Dez dias depois, em 18 de outubro, a Folha de S.Paulo revelou outra frente: empresas comprando disparo em massa de mensagens contra o adversário, no WhatsApp, com contratos de até R$ 12 milhões cada, segundo a reportagem. Empresa pagando propaganda de candidato é doação não declarada, e a lei proíbe. A empresa citada pela reportagem negou.
Três anos depois, em outubro de 2021, a Justiça Eleitoral julgou o caso e não cassou a chapa, por 7 votos a 0. O relator, ministro Luis Felipe Salomão, disse que ficou explícito o disparo de mensagens com o objetivo de minar candidaturas adversárias. O que faltou, segundo ele, foi prova da gravidade.
Não há elementos que permitam afirmar, com segurança, a gravidade dos fatos
E a campanha declarou ter gastado R$ 2,46 milhões, menos de dois milhões e meio. Pra quem ganhou a presidência, é quase nada. A Justiça Eleitoral aprovou essas contas, com ressalvas.
Fontes deste capítulo:POSTOGUEDES-CHILEMT-0210MT-0810FOLHA-WPPdisputadaAB-TSECONTAS18, 7 fontes, 1 disputada
De Posto Ipiranga a troféu na Esplanada
https:/Brasil, novo laboratório da extrema direita
https:/Kit Bolsonaro dispara com reta final das eleições e Ibovespa salta 3,8%
https:/Mercado "vence no 1º turno" e dispara; dólar vai a R$ 3,76
O mercado parece começar a pôr na conta a vitória de Jair Bolsonarohttps:/
Reportagem sobre empresas que compraram disparos em massa no WhatsApp (disputada)
prática viola a lei por ser doação não declarada
Aqui os historiadores discordam.
https:/TSE forma maioria contra cassação da chapa presidencial
Não há elementos que permitam afirmar, com segurança, a gravidade dos fatoshttps:/
Campanha de Bolsonaro não declarou à Justiça gastos com santinhos
https:/A fatura
No primeiro dia de governo, 1º de janeiro de 2019, a primeira canetada do presidente, a Medida Provisória 870, acabou com o Ministério do Trabalho. O fiscal que confere o teu ponto, quem cuida do teu fundo de garantia e do seguro-desemprego: quase tudo foi parar dentro do Ministério da Economia, o do Posto Ipiranga. O Ministério do Trabalho só foi recriado em julho de 2021.
E no fim do primeiro ano, em 12 de novembro de 2019, a reforma da Previdência entrou na Constituição. A conta oficial: R$ 800 bilhões de economia em 10 anos. E economia, aqui, quer dizer dinheiro que deixa de ir pra quem se aposenta. Esse dinheiro pagaria um salário mínimo por mês, durante 10 anos, a mais de 6 milhões de pessoas.
A regra nova: com 20 anos pagando, o homem leva 60% da média. Pra levar ela inteira, 40 anos. Quem começou aos 25 só fecha a conta aos 65, sem um mês de desemprego no meio, sem bico por fora.
E podia ter sido pior. A proposta original do governo, a PEC 6/2019, abria a porta pra capitalização: cada um juntando a própria aposentadoria numa conta individual. A Câmara tirou isso do texto. O resto passou.
Agora, o outro lado. No mesmo ano, os militares ganharam uma reforma separada, a Lei 13.954, de dezembro de 2019. Só que ela vinha junto com um pacote de vantagens na carreira: a economia seria de R$ 97,3 bilhões em 10 anos, e a reestruturação da carreira custaria R$ 86,85 bilhões. De cada 10 reais economizados, quase 9 voltavam pra farda. Sobraram R$ 10,45 bilhões, diz o próprio Ministério da Defesa. Do resto do país, a reforma economizou 800.
E dentro da farda, de novo, a escada: em cima de cada 100 reais de salário-base, o general leva mais 73. O soldado, mais 12. O capitão de 1986, que foi preso reclamando do salário, chegou à presidência. E o salário da farda foi resolvido, principalmente lá em cima. Pro resto, a regra dos 40 anos.
Fontes deste capítulo:MP870MP870-SENADOSEN-PREVEC103-26MIN19CAM-PEC6MIL-REFMIL-73, 8 fontes
MP que extingue Ministério do Trabalho é questionada no STF
https:/Senado confirma medida que recriou o Ministério do Trabalho e Previdência
https:/Promulgada Emenda Constitucional da reforma da Previdência
https:/Emenda Constitucional 103/2019, art. 26
https:/Decreto 9.661, de 1º/1/2019 (salário mínimo de R$ 998)
https:/Quadro comparativo da PEC 6/2019: redação original e aprovada na Câmara
https:/Segundo governo, reestruturar carreira e Previdência dos militares trará superávit
https:/Previdência: oficiais terão aumento de até 73%; soldados, de 12%
https:/A Disney e as Ilhas
Em 12 de fevereiro de 2020, o dólar bateu R$ 4,35, recorde. O ministro da Economia, o Posto Ipiranga, foi perguntado sobre isso e disse que um dólar um pouco mais alto é bom pra todo mundo. E lembrou o tempo do dólar barato com uma frase.
Empregada doméstica indo pra Disneylândia, uma festa danada
A empregada doméstica de novo. Oito dias depois, ele pediu desculpas. Mas a frase já tinha dito pra quem o dólar barato era festa demais.
Em outubro de 2021, jornalistas do mundo inteiro abriram quase 12 milhões de documentos de paraísos fiscais, onde rico guarda dinheiro pagando pouco imposto: o Pandora Papers. Estava lá uma empresa do ministro, a Dreadnoughts International, nas Ilhas Virgens Britânicas, com US$ 9,55 milhões depositados. Aberta em 2014, e mantida enquanto ele era ministro.
A defesa diz que é legal e declarada, e que ele tinha se afastado da gestão em dezembro de 2018. A Comissão de Ética Pública, a comissão de ética do governo, não viu irregularidade. A gente não está dizendo que ele defendeu o dólar alto por causa da conta no Caribe: nenhum documento que a gente leu mostra isso.
Mas a conta do dólar não depende de intenção. É que nem ter a despensa cheia quando o arroz sobe. Quando o dólar sobe, quem guarda dinheiro em dólar fica mais rico em real. E quem recebe em real compra menos.
Fontes deste capítulo:DISNEYPANDORAPANDORA-VALORdisputada, 3 fontes, 1 disputada
Guedes pede desculpas às empregadas por fala sobre Disney
empregada doméstica indo pra Disneylândia, uma festa danadahttps:/
Guedes tem offshore milionária em paraíso fiscal
https:/Guedes diz à PGR que se afastou da administração de offshore em 2018 (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/Quem faturou
De volta ao recibo do começo. A partir de 2019, uma série de decretos abriu a porta pras armas. Os registros de caçador, atirador e colecionador, os tais CACs, quase multiplicaram por sete em quatro anos: de 117.467 em 2018 pra 783.385 em 2022. E um atirador sozinho podia comprar 60 armas, 30 delas de calibre restrito, o que o cidadão comum não podia ter.
As vendas da Taurus no Brasil dobraram de um ano pro outro: de R$ 187,4 milhões em 2019 pra R$ 381,2 milhões em 2020. A empresa vendeu 279,9 mil armas no Brasil naquele ano. Mais de 700 por dia, todo dia do ano.
Uma coisa que não encaixa, e é justo dizer: a maior parte do faturamento da Taurus veio da venda pros Estados Unidos, R$ 1.392 milhões de uma receita de R$ 1.773,2 milhões. O lucro não nasceu todo aqui. Mas aqui dentro, o próprio relatório liga a venda à lei, e explica qual arma dava mais lucro: justamente a de calibre que antes era restrito, como a pistola 9 mm e o fuzil.
O cidadão de bem pagou a arma. O dono da ação ficou com o lucro.
A outra porta foi a da terra. Em 22 de abril de 2020, numa reunião de ministros que o Supremo depois tornou pública, o ministro do Meio Ambiente propôs aproveitar que a imprensa só falava de covid pra ir passando a boiada, mudando as regras.
porque só fala de covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas
Em quatro anos, de 2019 a 2022, a Amazônia perdeu 45.586 quilômetros quadrados, segundo o Inpe. Mais que dois Sergipes.
E em 2022, quando ele tentou a reeleição, os dados da Justiça Eleitoral mostram quem pôs a mão no bolso. De cada três grandes doadores da campanha, dois eram ligados ao agronegócio: 33 dos 50 maiores, segundo a agência Reuters. Quase 8 de cada 10 reais da campanha vieram de pessoa física, e cada um desses 33 deu pelo menos R$ 200 mil. Mais de 12 anos de salário mínimo.
Doação legal, declarada. A gente não está dizendo que quem doou desmatou. É uma leitura, e a gente diz que é leitura: ninguém financia duas vezes um governo que não entregou na primeira. O recibo do agro não tem relatório como o da Taurus.
Fontes deste capítulo:TAURUS20FBSP23SALLESPRODESREUTERS22, 5 fontes
Release de resultados 4T20/2020
A mudança da legislação nacional com relação à posse de armas levou à mudança no perfil de consumo de armas no Brasil, com aumento da procura por armas de calibres anteriormente restritos, como 9mm e fuzis, modelos que incorporam maior valor agregado e, portanto, maior rentabilidade para a Companhia.https:/
A herança de meia década de descontrole sobre as armas de fogo no Brasil
https:/Salles sugere "ir passando a boiada" para mudar regras durante pandemia
porque só fala de covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normashttps:/
Legado de destruição: Amazônia perde 45.586 km² somente no governo de Jair Bolsonaro
https:/Agro responde por 33 dos 50 maiores doadores de Bolsonaro
https:/A mesa de 2021
Aí veio a pandemia. E ela é o melhor teste pra essa pergunta, porque crise mostra quem paga.
Em 2020, o governo propôs um auxílio emergencial de R$ 200 por mês. Não pagava nem meia cesta básica em São Paulo, que custava R$ 556,25 em abril daquele ano, segundo o Dieese. A Câmara empurrou, e o acordo com o governo fechou em R$ 600. Em 2021, o auxílio voltou encolhido: de R$ 150 a R$ 375 por mês. A parcela mais baixa era um quarto do que tinha sido.
E o salário mínimo de 2021 subiu menos que os preços: foi de R$ 1.045 pra R$ 1.100, alta de 5,26%, contra uma inflação de 5,45% pelo INPC de 2020. Quem ganhava o mínimo passou a comprar menos com ele.
Entre novembro de 2021 e abril de 2022, a Rede PENSSAN, uma rede de pesquisadores, foi a 12.745 casas, em todos os estados. E contou 33,1 milhões de pessoas passando fome. Quase três cidades de São Paulo inteiras.
Em 2021, os quatro maiores bancos do país com ação na bolsa lucraram R$ 81,6 bilhões. Mais de R$ 200 milhões por dia, domingo e feriado incluídos. Recorde sem descontar a inflação, segundo a consultoria Economatica. Os juros tinham voltado a subir. E juro alto no teu cartão é lucro no balanço do banco.
E a fábrica de armas? A Taurus lucrou R$ 635,1 milhões em 2021, mais que o dobro do recibo do começo.
A pandemia não escolheu quem ia ficar doente. Mas alguém escolheu quem ia pagar a crise. A crise foi a mesma pra todo mundo. A conta, não.
Fontes deste capítulo:TAURUS21AUXILIODIEESE-CESTA20MINIMO21PENSSANCENSO-SPBANCOS21, 7 fontes
Resultado da Taurus em 2021
https:/Senado aprova auxílio emergencial de R$ 600 para trabalhadores informais
https:/Pesquisa Nacional da Cesta Básica, abril de 2020
https:/Sem aumento real, salário mínimo vai a R$ 1.100 em 2021
https:/Pesquisa revela que a fome avança no Brasil e atinge 33,1 milhões de pessoas
https:/Censo 2022: as dez cidades mais populosas do Brasil
https:/Lucro líquido dos 4 maiores bancos bate recorde em 2021: R$ 81,6 bilhões
https:/"Mas o empresário assinou a carta"
Agora, a objeção mais forte contra tudo isso. Em agosto de 2022, a mesma Fiesp do pato organizou o manifesto Em Defesa da Democracia e da Justiça, publicado em 5 de agosto com 107 entidades. A associação dos banqueiros, a Febraban, assinou. A Caixa e o Banco do Brasil, que o governo controlava, ficaram de fora.
E aí vem a pergunta honesta: se o dinheiro grande era dele, por que os bancos e a indústria assinaram contra?
A nossa leitura: o dinheiro grande não é fiel a homem nenhum. É fiel ao que o homem entrega. Em 2018, ele era o caminho pra reforma. Em 2022, a reforma já estava na Constituição, e a Eletrobras, uma das estatais do kit Bolsonaro, já tinha sido vendida na bolsa, em junho. E ele, na nossa leitura, tinha virado risco. Que nem empreiteiro com a obra pronta: ninguém quer ele morando na casa.
Ninguém da Fiesp ou da Febraban disse isso com essas palavras. Mas pra quem já tinha recebido em lei, a democracia era o lugar mais seguro pra guardar o que ganhou.
E a objeção esconde uma coisa. Não foi o capital inteiro que ganhou com o mito. Foi uma parte dele: arma, uma fatia do agro, uma fatia do mercado. O homem passa. A lei que passou no governo dele fica.
Fontes deste capítulo:MT-0210FIESP22ELETRO, 3 fontes
Kit Bolsonaro dispara com reta final das eleições e Ibovespa salta 3,8%
https:/Federação de bancos decide assinar manifesto pela democracia
https:/Eletrobras dá início à privatização com oferta de ações
https:/O Pix de quinhentos reais
E quando deu errado, quem pagou?
Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro, por 4 votos a 1, por cinco crimes, golpe de Estado entre eles: 27 anos e 3 meses de prisão. A condenação ficou definitiva em 25 de novembro de 2025, e ele começou a cumprir a pena. Junto com ele, o tribunal condenou a cúpula da trama: generais, um almirante, ex-ministros.
Mas o 8 de janeiro de 2023 também teve quem pagasse a viagem. A Abin, a agência de inteligência do governo, mandou à comissão do Congresso que investigou o 8 de janeiro um levantamento: 103 ônibus fretados, pagos por 83 pessoas e 13 empresas. A própria Abin falou em grande pulverização dos contratantes: muita gente, cada uma pagando um pedaço.
Um desses ônibus saiu de Blumenau, em Santa Catarina, em 5 de janeiro de 2023, com 41 pessoas. Um dos homens condenados por pagar esse ônibus tinha mandado um Pix de R$ 500. Pegou 14 anos de prisão, na Primeira Turma do Supremo, em 2 de março de 2026. A defesa diz que o dinheiro era empréstimo a um conhecido, e recorreu.
Ninguém aqui está dizendo que é inocente. Quem pagou ônibus pra derrubar o resultado de uma eleição responde pelo que fez.
Mas olha as duas listas lado a lado. Numa, os três condenados pelo ônibus de Blumenau, com Pix de R$ 500, de R$ 1.000, de mais de R$ 10 mil. Respondem por isso. Na outra, quem lucrou com a lei das armas, com a venda no Brasil que dobrou, com a reforma. Só a venda da Taurus aqui dentro, num ano, dá 760 mil Pix desses. Não precisou de ônibus.
O dinheiro grande não precisou do golpe. Já tinha recebido, em lei, no primeiro ano.
Fontes deste capítulo:TAURUS20STF-GOLPEABIN-ONIBUSPIX500PIX500-RECURSO, 5 fontes
Release de resultados 4T20/2020
A mudança da legislação nacional com relação à posse de armas levou à mudança no perfil de consumo de armas no Brasil, com aumento da procura por armas de calibres anteriormente restritos, como 9mm e fuzis, modelos que incorporam maior valor agregado e, portanto, maior rentabilidade para a Companhia.https:/
STF conclui processo e Bolsonaro já pode começar a cumprir pena
https:/Abin identificou financiadores de 103 ônibus para atos golpistas do 8 de janeiro
a grande pulverização dos contratantes de fretadoshttps:/
STF condena a 14 anos de prisão empresário que doou R$ 500 para ônibus
https:/STF não marca data para julgar recurso de empresário condenado a 14 anos por Pix no 8/1
https:/Fecho: o pato
A fábrica de armas escreveu no relatório quem ganhou. O balanço de quem perdeu não tem relatório pros sócios. Ele está na carteira de trabalho: nos 40 anos de contribuição pra levar a média inteira, na aposentadoria que encolheu pra sobrar R$ 800 bilhões.
Lembra do pato? Em 2015, a Fiesp inflou quatro andares de pato na Paulista pra avisar o país: não vou pagar o pato. O pato era contra um imposto, mas a frase serviu pra década inteira. Quem lucrou com o mito recebeu em lei. A fatura veio pra gente: pra empregada doméstica, pro pedreiro, pra quem vai contribuir 40 anos.
Então, da próxima vez que aparecer um salvador falando de Deus e de família, venha de onde vier, faz a pergunta que atravessa esta história: quem está pagando a campanha dele, e o que vai levar de volta.
E guarda a lição que eles deram de graça. Patrão nenhum ganhou isso por conta própria: teve federação, pato, campanha, manifesto. O pato era deles. A frase é boa demais pra ficar com eles.
O relatório da Taurus de 2020 (abre em outra aba) ainda está publicado, pra quem quiser ler. O pato, quem paga somos nós. Até a gente parar de pagar.
Fontes deste capítulo:TAURUS20PATOSEN-PREVEC103-26, 4 fontes
Release de resultados 4T20/2020
A mudança da legislação nacional com relação à posse de armas levou à mudança no perfil de consumo de armas no Brasil, com aumento da procura por armas de calibres anteriormente restritos, como 9mm e fuzis, modelos que incorporam maior valor agregado e, portanto, maior rentabilidade para a Companhia.https:/
Campanha contra aumento de impostos leva pato gigante a Brasília
https:/Promulgada Emenda Constitucional da reforma da Previdência
https:/Emenda Constitucional 103/2019, art. 26
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