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A sexta-feira em que a Scania desligou as máquinas
Sete da manhã de uma sexta-feira, 12 de maio de 1978, em São Bernardo do Campo. Os metalúrgicos da Scania, uns 3 mil trabalhadores numa fábrica de caminhão, batem o cartão de ponto, vão até as máquinas e não ligam nenhuma.
São Bernardo é uma das cidades do ABC, o cinturão de fábricas em volta de São Paulo. Fazia dez anos que o Brasil não via uma greve grande assim, desde as de Contagem e Osasco, em 1968. E isso numa ditadura militar que tinha tornado a greve quase impossível por lei.
O pavio daquela sexta-feira, segundo o DIEESE, o departamento de estatística dos sindicatos, tinha sido aceso anos antes. Foi uma conta errada. A inflação que o governo anunciou para 1973 foi depois refeita pelo próprio Ministério da Fazenda, e o número quase dobrou. Quem vivia de salário só soube disso em 1977, por um relatório do Banco Mundial que saiu no jornal.
Essa conta errada é só a ponta de uma conta bem maior: a do milagre econômico. Nos dez anos depois do golpe de 1964, a economia brasileira mais que dobrou, e o salário mínimo perdeu um terço do valor.
A pergunta é pra onde foi essa diferença, tirada do bolso da nossa classe, e por que ninguém tinha conseguido desligar a máquina antes daquela sexta-feira. A resposta está no papel: lei, relatório oficial, depoimento de operário e os números do próprio governo.
Fontes deste capítulo:IPEA-PIBIPEA-SMFGV-ATLAS-MILAGREINFLACAO1973disputadaOLIVEIRA-RCTDEZ-ANOSdisputada, 6 fontes, 2 disputadas
PIB, variação real anual (série SCN10_PIBG10)
Salário mínimo real (série GAC12_SALMINRE12)
Milagre econômico brasileiro
reestimaria a taxa de variação acumulada do ICV do Rio em 1973 de 13,7% para 26,6%
A inflação de 1973: o índice oficial e as outras contas
Aqui os historiadores discordam.
Greves no Brasil, de 1978 a 2018
Isso acendeu o pavio da mobilização dos trabalhadores a partir do segundo semestre de 1977, culminando nas greves de 1978.
A primeira greve em dez anos
Aqui os historiadores discordam.
Quanto valia o salário mínimo
O Ipea, o instituto de pesquisa econômica do governo federal, mantém até hoje uma série do salário mínimo corrigido pela inflação. Em dinheiro de agosto de 2026, o mínimo de 1964 valia, na média do ano, uns R$ 1.342. Em 1974, R$ 880.
E o tombo maior não foi no meio do milagre. Foi antes, nos três primeiros anos depois do golpe. Depois, enquanto o PIB crescia mais de 10% ao ano, o mínimo ficou parado lá embaixo, sem subir de volta.
Só que número corrigido por índice esconde uma coisa: o que a pessoa sente é o preço da comida. Desde 1938, a lei define uma cesta de 13 alimentos, o mínimo pra sustentar um trabalhador adulto por um mês. É a mesma cesta básica que o DIEESE mede todo mês até hoje.
Em 1965, quem ganhava o mínimo trabalhava umas 88 horas pra comprar essa cesta. Em 1974, 163. Quase o dobro de trabalho pela mesma comida. Em 1965, a cesta levava pouco mais de um terço do salário mínimo; em 1974, dois terços. O resto era pro aluguel, a condução e a família.
Um salário não encolhe sozinho num país que dobra de tamanho. O nosso foi encolhido.
Fontes deste capítulo:IPEA-PIBIPEA-SMIPEA1979disputadaDIEESE-CESTA, 4 fontes, 1 disputada
PIB, variação real anual (série SCN10_PIBG10)
Salário mínimo real (série GAC12_SALMINRE12)
Indicadores sociais para uso do CDS: resumo da situação no período 1960-1978
Aqui os historiadores discordam.
Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos: metodologia
O aumento que o governo calculava
Em julho de 1964, três meses depois do golpe, o Ministério da Fazenda baixou as primeiras regras do arrocho salarial, o aperto no salário pra segurar a inflação. Testou primeiro no funcionalismo público. Um ano depois, estendeu pra todo mundo.
Até ali, o reajuste de cada categoria saía de briga: o sindicato pedia, o patrão regateava, e sem acordo a Justiça do Trabalho decidia. Em julho de 1965, a Lei 4.725 tirou isso da mesa. O aumento passou a sair de uma conta do governo.
A conta pegava o salário real médio dos últimos dois anos, já descontada a inflação, e somava só metade da inflação que o governo previa pros 12 meses seguintes. Só metade, e só da prevista. E a previsão errava pra baixo, ano após ano.
O mínimo nem passava por essa briga: sempre foi decreto do próprio governo, e seguiu a mesma política de controle de salário. O erro da previsão era tão constante que, em 1968, uma lei nova, a 5.451, mandou refazer a conta com a inflação que tinha acontecido de verdade.
distorção resultante da subestimação, a cada ano, da inflação prevista
E pra ser justo com os números: o mínimo já vinha caindo em 1962 e 1963, comido por uma inflação que ninguém segurava. O que muda depois do golpe é que a queda deixa de ser descontrole e vira regra escrita. Escrita por eles, contra nós.
Só que uma regra dessas só para de pé se ninguém puder reclamar dela.
Fontes deste capítulo:SABOIA1976CNV2014LEI4725FGV-ATLAS-MILAGRELEI5451, 5 fontes
Mortalidade infantil e salário mínimo: uma análise de intervenção para o município de São Paulo
A partir de 1962 o SMR sofreu uma queda, inicialmente devido à forte aceleração inflacionária, e, a partir de 1964, em virtude da política oficial de controle da inflação e dos salários implantada pelo novo governo.
Relatório da Comissão Nacional da Verdade, volume II, texto 2 (violações de direitos humanos dos trabalhadores)
Lei nº 4.725, de 13 de julho de 1965
Milagre econômico brasileiro
reestimaria a taxa de variação acumulada do ICV do Rio em 1973 de 13,7% para 26,6%
Lei nº 5.451, de 12 de junho de 1968
O sindicato com dono novo e a lei antigreve
No sindicato, a ditadura chegou logo. Eles sabiam onde estava a nossa força. Entre março e abril de 1964, o governo começou a nomear interventores: gente escolhida pelo Ministério do Trabalho pra mandar no lugar da diretoria que os trabalhadores tinham eleito.
Só em 1964, segundo a Comissão Nacional da Verdade, foram 409 sindicatos sob intervenção. A Comissão foi criada por lei em 2011 pra apurar as graves violações de direitos humanos cometidas pelo Estado entre 1946 e 1988, e entregou o relatório final em dezembro de 2014. Até o fim da década, entre os sindicatos com 5 mil sócios ou mais, os mais fortes, uns 70% passaram por intervenção.
Em 1º de junho de 1964, dois meses depois do golpe, veio a lei de greve, a Lei 4.330. No papel, a greve continuava existindo. Mas precisava de assembleia com dois terços dos sócios do sindicato, em voto secreto. Depois, aviso por escrito ao patrão, com cinco dias de prazo; em água, luz, transporte e hospital, dez.
Servidor público não podia fazer greve. E greve por motivo político, social, religioso ou de solidariedade, sem uma reivindicação da própria categoria, era ilegal. Os trabalhadores deram um apelido pra ela: lei antigreve.
(...) por motivos políticos, partidários, religiosos, sociais, de apoio ou solidariedade (...)
E funcionou. Em 1963, o país teve 302 greves. Em 1970, 12. Em 1971, nenhuma registrada.
Pra quem nem pensava em greve, ainda sobrava uma proteção, e ela se media em anos de casa.
Fontes deste capítulo:CNV2014CNV-INTERVENCOESdisputadaLEI4330, 3 fontes, 1 disputada
Relatório da Comissão Nacional da Verdade, volume II, texto 2 (violações de direitos humanos dos trabalhadores)
Intervenções sindicais em 1964 (Relatório da CNV, v. II, texto 2, pp. 60-61)
Aqui os historiadores discordam.
Lei nº 4.330, de 1º de junho de 1964 (lei de greve)
por motivos políticos, partidários, religiosos, sociais, de apoio ou solidariedade
FGTS: o fim da estabilidade de dez anos
A CLT, a Consolidação das Leis do Trabalho, tinha uma regra pra quem ficava muito tempo na mesma empresa. Quem completava dez anos de casa só podia ser mandado embora por falta grave. E antes dos dez, demitir sem justa causa custava uma indenização de um salário por ano trabalhado.
Em 13 de setembro de 1966, a Lei 5.107 criou outra coisa: o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, o FGTS. A empresa passou a depositar 8% do salário todo mês numa conta no nome do empregado. Na demissão, ele sacava. Quem desenhou o fundo foi o ministro do Planejamento, Roberto Campos, com dois objetivos: financiar casa e facilitar a demissão.
No papel, o trabalhador escolhia: fundo ou estabilidade. Em agosto de 1966, no debate da lei, um deputado da oposição, Franco Montoro, avisou como ia ser essa escolha.
A empresa escolherá aqueles que adotarem o sistema desejado pela empresa.
Em 1970, uns 70% dos trabalhadores já estavam no fundo.
O governo tinha um argumento, e ele não era mentira. Campos dizia que menos de um em cada cinco empregados chegava a ter estabilidade. Era verdade, por um motivo: as empresas demitiam antes. Mandar embora no nono ano era tão comum que a Justiça do Trabalho passou a presumir que era pra impedir a estabilidade. E pra esse caso, a própria CLT mandava pagar a indenização em dobro.
Com o FGTS, mandar embora antes dos dez anos deixou de ser manobra punida em dobro. Virou o jeito normal de funcionar. A Comissão Nacional da Verdade registra o efeito no trabalhador mais velho: ele parou de se meter com sindicato, com medo da demissão.
reduziu a participação político-sindical de trabalhadores mais velhos e experientes pelo receio da demissão
É o mesmo FGTS que aparece no holerite de quem tem carteira hoje. Ele nasceu pra esvaziar a estabilidade.
Fontes deste capítulo:CNV2014SENADO-FGTSVLEX-CLT, 3 fontes
Relatório da Comissão Nacional da Verdade, volume II, texto 2 (violações de direitos humanos dos trabalhadores)
Em 1967, FGTS substituiu estabilidade no emprego (Arquivo S nº 34)
A empresa escolherá aqueles que adotarem o sistema desejado pela empresa.
CLT, artigos 492 a 500 (estabilidade) e a antiga Súmula 26 do TST
A lista negra, a polícia dentro da fábrica e Manoel Fiel Filho
Sem sindicato, sem greve e sem estabilidade, ainda sobrava a fábrica. E a fábrica tinha arquivo. As empresas passavam o nome de quem incomodava pra polícia política, o DOPS. E passavam umas pras outras.
Na zona sul de São Paulo, os chefes de pessoal das fábricas tinham até associação: a AAPSA, Associação dos Administradores do Pessoal de Santo Amaro. Um ex-representante da Sulzer contou à Comissão Nacional da Verdade como era.
lá se partilhava os conhecimentos da área de recursos humanos e também vinham informações sobre listas de pessoas que a gente teria que ter cuidado para contratar, porque eram pessoas ditas "ativistas"
Quem estava na lista, a fábrica do lado tomava cuidado pra não contratar.
Às vezes, a polícia nem esperava o portão. Em 28 de julho de 1972, o ferramenteiro Lúcio Bellentani estava trabalhando dentro da Volkswagen, em São Bernardo do Campo.
estava trabalhando e chegaram dois indivíduos com metralhadora, encostaram nas minhas costas, já me algemaram. Na hora em que cheguei à sala de segurança da Volkswagen já começou a tortura
Mais de 20 metalúrgicos foram presos no mesmo episódio, da Volkswagen, da Mercedes, da Perkins e da Metal Leve. Em setembro de 2020, a Volkswagen do Brasil assinou um acordo com o Ministério Público e pagou R$ 36,3 milhões, R$ 16,8 milhões deles a ex-funcionários e famílias. Foi o primeiro acordo desse tipo no país. Bellentani não viu: tinha morrido no ano anterior.
A lista pegava até quem tinha ganhado um direito. Arleide Alves, operária da Metalúrgica Colmeia, foi eleita pra comissão de prevenção de acidentes da fábrica, a CIPA, o que dava estabilidade. Foi demitida por isso. Não quis sair, e a Polícia Militar foi buscar.
Eles me pegaram, cada um pegou de um lado, e esse chefe, oportunista, pegou por trás meu cabelo e eu caí. Fui sendo arrastada com o martelo na mão.
Em janeiro de 1976, o medo ganhou um nome. Manoel Fiel Filho era prensista havia 19 anos na mesma metalúrgica, a Metal Arte, e distribuía entre os colegas o jornal clandestino do Partido Comunista Brasileiro, a Voz Operária. Em 16 de janeiro, foi levado ao DOI-CODI, o centro de interrogatório do Exército em São Paulo. Morreu no dia seguinte.
A versão oficial: ele tinha se enforcado com as próprias meias. Os colegas contaram que ele estava de chinelo, sem meia, e o corpo tinha marcas de tortura. A história ficou tão escancarada que o próprio presidente, o general Ernesto Geisel, tirou do cargo o comandante do Exército em São Paulo. Era um regime covarde: matava operário e chamava de suicídio.
Fontes deste capítulo:CNV2014CNV-FIELECCHRCONJUR2020, 4 fontes
Relatório da Comissão Nacional da Verdade, volume II, texto 2 (violações de direitos humanos dos trabalhadores)
Ficha de Manoel Fiel Filho
Nota pela morte de Lúcio Bellentani, ex-funcionário da Volkswagen e sobrevivente de tortura
Volks pagará R$ 36 milhões por colaboração com a ditadura
Acidentes de trabalho: o preço no corpo
Pra imensa maioria, que nunca foi presa, a conta veio de outro jeito. Em 1970, o INPS, a previdência da época, registrou 1,2 milhão de acidentes de trabalho. Em 1973, deu acidente em uns 17 de cada 100 segurados do INPS: um em cada seis.
Em 1975, foram quase 2 milhões de acidentes registrados. Em 1976, morreram 3.900 trabalhadores. Mais de dez por dia.
O país ganhou um apelido que aparece até no relatório da Comissão Nacional da Verdade: campeão mundial de acidentes de trabalho. E esses são só os registrados. O estudo do Ipea de 1980 que juntou esses números avisa que muito acidente nem era comunicado.
Fontes deste capítulo:CNV2014SATO1980disputada, 2 fontes, 1 disputada
Relatório da Comissão Nacional da Verdade, volume II, texto 2 (violações de direitos humanos dos trabalhadores)
Estudo sobre acidentes de trabalho no Brasil
Aqui os historiadores discordam.
A periferia e a mortalidade infantil em São Paulo
Depois do turno, essa gente voltava pra uma cidade que não parava de inchar. A cidade de São Paulo tinha 3,7 milhões de habitantes em 1960. Em 1980, 8,5 milhões.
A Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, encomendou um estudo sobre essa cidade a pesquisadores do Cebrap, um centro de pesquisa paulistano. Saiu em 1976, com o nome de São Paulo 1975: crescimento e pobreza.
O estudo descreve os mais pobres sendo expulsos das áreas antigas da cidade pela valorização dos terrenos, pra bairros cada vez mais longe da fábrica. Lá, segundo os pesquisadores, se juntavam barracos e casas precárias, verdadeiros acampamentos desprovidos do mínimo de infraestrutura.
As casas precárias da periferia são as 'casas próprias', em que a lógica especulativa dos 'loteamentos' fixou boa parte da classe trabalhadora
O fundo de garantia tinha nascido também pra financiar casa. A casa do operário, o estudo encontra levantada pela própria família, tijolo por tijolo. E fala das várias horas por dia gastas em locomoção, em cima de jornadas de trabalho prolongadas.
Tem um número que mostra isso melhor que qualquer foto. Na cidade de São Paulo, a mortalidade de bebês vinha caindo desde 1920. Em 1962, a curva virou. Em 1973, ela estava 55% acima de 1961.
A virada também começou antes do golpe, junto com a inflação. O economista João Sabóia, que fez essa conta em 1976, achou a curva que andava junto: a do salário mínimo.
Fontes deste capítulo:SABOIA1976SENADO-FGTSPMSP-CENSOSPEREIRA-PONTE2025, 4 fontes
Mortalidade infantil e salário mínimo: uma análise de intervenção para o município de São Paulo
A partir de 1962 o SMR sofreu uma queda, inicialmente devido à forte aceleração inflacionária, e, a partir de 1964, em virtude da política oficial de controle da inflação e dos salários implantada pelo novo governo.
Em 1967, FGTS substituiu estabilidade no emprego (Arquivo S nº 34)
A empresa escolherá aqueles que adotarem o sistema desejado pela empresa.
População do município de São Paulo, censos do IBGE de 1950 a 2022
São Paulo 1975: crescimento e pobreza: uma discussão sobre a pobreza
As casas precárias da periferia são as 'casas próprias', em que a lógica especulativa dos 'loteamentos' fixou boa parte da classe trabalhadora
Como a família fechava o mês
E como uma família fechava o mês com isso? Do jeito que a Comissão Nacional da Verdade descreve: pondo mais gente pra trabalhar. A mulher foi pra fábrica, o filho adolescente também. A hora extra virou rotina. E as férias, muita gente vendia.
As perdas salariais dos chefes de família tiveram de ser compensadas com o ingresso de mulheres e jovens no mercado de trabalho, as horas extras se multiplicaram, assim como a troca das férias por salário.
Essa cena, a casa inteira trabalhando, ajuda a entender a objeção mais forte contra tudo o que está nesta história. Porque tem gente que viveu essa época e diz, com sinceridade, que a vida melhorou.
Fontes deste capítulo:CNV2014, 1 fonte
Relatório da Comissão Nacional da Verdade, volume II, texto 2 (violações de direitos humanos dos trabalhadores)
"Mas o povo vivia melhor?": a objeção mais forte
A objeção é forte, e tem dado do lado dela. Entre 1968 e 1973, o PIB cresceu, em média, 11% ao ano. Em 1973, quase 14%.
O dado mais forte a favor dela vem do economista Carlos Langoni, que estudou o Censo de 1970. Pela tabela dele, entre 1960 e 1970 a renda média subiu em todas as faixas, inclusive entre os 10% mais pobres.
Uma coisa ajuda a explicar a média subindo com o mínimo encolhendo: cada vez menos gente ficava no mínimo. O mesmo João Sabóia registrou isso em 1976: com a produtividade subindo, a parte dos trabalhadores que ganhava o mínimo vinha diminuindo.
E tem mais um fato que joga contra a tese desta história. Em 1971, a ditadura instituiu uma aposentadoria pro trabalhador rural de 65 anos. Era meio salário mínimo, pro chefe da família. Pra quem não tinha nada, era ganho de verdade.
Então quem diz que vivia melhor não está inventando. Muita gente subiu de faixa, e vivia. Só que quem ficou no piso viveu outra conta: a da cesta. Em 1965, a cesta básica custava umas 88 horas de trabalho no mínimo. Em 1970, no meio do milagre, 103. Em 1974, 163. Sessenta horas a mais em quatro anos, pela mesma comida, nos anos em que o PIB mais cresceu.
E a tabela do Langoni mostra quem ficou com o crescimento. Em 1960, os 10% do topo tinham uns 40% de toda a renda. Em 1970, quase 48%. Quase metade. A metade mais pobre do país foi de 17,7% pra 14,9%.
Langoni explicava a concentração pela educação, e dizia que era uma fase do crescimento que ia se corrigir sozinha. Antes dele, o economista Albert Fishlow tinha mostrado a piora, com os dados preliminares do mesmo Censo. Na versão que Fishlow contou numa entrevista de 2003, o ministro da Fazenda, Delfim Netto, deu os dados completos ao Langoni pra contestar o que ele tinha achado.
o Delfim Netto deu todas as informações do Censo de 1970 para o Carlos Langoni, que preparou um trabalho tentando justamente desqualificar o que eu estava apontando.
E é no Delfim, ministro da Fazenda de 1967 a 1974, que ficou grudada a frase da época: primeiro fazer o bolo crescer, depois dividir. Ele passou a vida dizendo que nunca disse isso. A frase pode não ser dele. A ideia estava no livro do Langoni. E a correção sozinha não veio: em 1980, a concentração estava maior ainda.
Dentro da fábrica, a Comissão Nacional da Verdade registra o outro lado. No setor metalúrgico, de 1966 a 1974, a produtividade quase dobrou. O salário real médio ficou parado.
Marx tinha um nome pra distância entre o que o trabalho produz e o que volta pra quem trabalhou: mais-valia. É a diferença que sai da nossa classe e fica com a deles. E tem um número que diz onde essa distância foi parar. Em 1980, o salário era 17% do valor da produção industrial do Brasil. A média mundial, segundo o estudo que a Comissão cita, era 42%.
Então o povo vivia melhor? Muita gente subiu de faixa e viveu. Quem ficou no piso trabalhou mais horas pela mesma comida.
Fontes deste capítulo:IPEA-PIBIPEA1979disputadaSABOIA1976CNV2014BARONE-BASTOS2015FISHLOW2003disputadaBOLOdisputadaCNV-GINILC11-1971, 9 fontes, 3 disputadas
PIB, variação real anual (série SCN10_PIBG10)
Indicadores sociais para uso do CDS: resumo da situação no período 1960-1978
Aqui os historiadores discordam.
Mortalidade infantil e salário mínimo: uma análise de intervenção para o município de São Paulo
A partir de 1962 o SMR sofreu uma queda, inicialmente devido à forte aceleração inflacionária, e, a partir de 1964, em virtude da política oficial de controle da inflação e dos salários implantada pelo novo governo.
Relatório da Comissão Nacional da Verdade, volume II, texto 2 (violações de direitos humanos dos trabalhadores)
A distribuição de renda durante o "milagre econômico" brasileiro: um balanço da controvérsia
Como eu pesquiso (entrevista a Leda Maria Paulani)
o Delfim Netto deu todas as informações do Censo de 1970 para o Carlos Langoni, que preparou um trabalho tentando justamente desqualificar o que eu estava apontando.
Aqui os historiadores discordam.
Autoria da frase "fazer o bolo crescer para depois dividir"
Aqui os historiadores discordam.
Estatísticas do Século XX, p. 480 (citado pela CNV, v. II, texto 2, nota 44)
Lei Complementar nº 11, de 25 de maio de 1971 (Prorural)
A conta errada da inflação de 1973
Agora dá pra voltar ao número que parou a Scania. Em 1973, o governo queria segurar a inflação perto de 12%. Pra isso, tabelou preços. O índice oficial anotava o preço da tabela. Só que, com a tabela, surgiram mercados paralelos, onde o preço era outro.
O custo de vida oficial do Rio de Janeiro fechou o ano em 13,7%. Quando Mário Henrique Simonsen assumiu o Ministério da Fazenda, em 1974, refez essa mesma conta. Deu 26,6%. Quase o dobro.
reestimaria a taxa de variação acumulada do ICV do Rio em 1973 de 13,7% para 26,6%
E era o índice oficial que reajustava os salários. Mesmo depois da lei de 1968, que mandava corrigir pela inflação que de fato aconteceu, a inflação que de fato aconteceu era a do índice oficial. A correção existia. Corrigia com o número errado.
Esse era o índice que reajustava os salários dos trabalhadores.
Quem vivia de salário só soube em 31 de julho de 1977, quando a Folha de S.Paulo publicou um relatório do Banco Mundial com uma inflação de 1973 bem acima da oficial. O DIEESE fez a conta pros metalúrgicos de São Bernardo e Diadema: a perda acumulada de poder de compra, desde 1973, era de 34,1%.
Em agosto de 1977, gente do próprio governo admitiu que tinha havido erro no cálculo. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema lançou uma campanha pela reposição, e outros sindicatos aderiram. A reposição não veio.
Fontes deste capítulo:FGV-ATLAS-MILAGRELEI5451INFLACAO1973disputadaMEMORIALALMEIDA1977CPDOC-34disputadaOLIVEIRA-RCTFPA, 8 fontes, 2 disputadas
Milagre econômico brasileiro
reestimaria a taxa de variação acumulada do ICV do Rio em 1973 de 13,7% para 26,6%
Lei nº 5.451, de 12 de junho de 1968
A inflação de 1973: o índice oficial e as outras contas
Aqui os historiadores discordam.
Os trabalhadores erguem a cabeça
Esse era o índice que reajustava os salários dos trabalhadores.
Desarrollo capitalista y acción sindical
en agosto de 1977, algunos miembros del gobierno reconocieron que hubo un error en el cálculo
Atlas Histórico do Brasil, verbete 3036
Aqui os historiadores discordam.
Greves no Brasil, de 1978 a 2018
Isso acendeu o pavio da mobilização dos trabalhadores a partir do segundo semestre de 1977, culminando nas greves de 1978.
Antecedentes
12 de maio de 1978: cartão batido, máquina desligada
Foi essa campanha derrotada que, nas palavras do DIEESE, acendeu o pavio das greves de 1978.
Isso acendeu o pavio da mobilização dos trabalhadores a partir do segundo semestre de 1977, culminando nas greves de 1978.
Naquela sexta-feira, 12 de maio, a forma foi a mais simples que existe: cartão batido e máquina desligada. Ainda naquele ano, o efeito dominó pegou o ABC inteiro e foi pra fora dele. Sete anos depois de 1971, o ano sem nenhuma greve registrada, o país teve 112 greves em 1978. Em 1979, 430.
E a resposta continuou a mesma. Em 30 de outubro de 1979, numa greve dos metalúrgicos da capital, Santo Dias da Silva, metalúrgico e dirigente da Pastoral Operária, levou um tiro da Polícia Militar. Ele estava num piquete na porta da fábrica Sylvania, em Santo Amaro. O tiro foi pelas costas. Naquela greve, 334 trabalhadores foram presos. O velório de Santo Dias virou manifestação. O policial foi absolvido.
No mês seguinte à morte dele, a regra de 1965 caiu. Com a Lei 6.708, a partir de novembro de 1979 o reajuste passou a ser automático, de seis em seis meses. Na leitura do DIEESE, o governo aprovou a lei pra tentar retomar a iniciativa e conter a onda de greves.
Em 1980, os metalúrgicos do ABC pararam 41 dias, com assembleias num estádio de futebol, o da Vila Euclides. O governo pôs interventor no sindicato, e em 19 de abril a diretoria foi presa, com o presidente do sindicato, Luiz Inácio Lula da Silva. No 1º de maio, umas 100 mil pessoas foram pra rua em São Bernardo. E a greve acabou sem ganhar o que pedia.
Mas parar tinha virado ferramenta. Em 1984, ainda na ditadura, o país teve 408 greves.
Fontes deste capítulo:CNV2014OLIVEIRA-RCTFPACONGRESSOEMFOCO-1980, 4 fontes
Relatório da Comissão Nacional da Verdade, volume II, texto 2 (violações de direitos humanos dos trabalhadores)
Greves no Brasil, de 1978 a 2018
Isso acendeu o pavio da mobilização dos trabalhadores a partir do segundo semestre de 1977, culminando nas greves de 1978.
Antecedentes
Greve histórica de metalúrgicos completa 45 anos neste 1º de maio
A regra só mudou porque a gente parou
O bolo cresceu, e a fatia de baixo encolheu. A reposição de 1977 não veio, e a greve de 1980 perdeu. O que mudou foi a regra do reajuste, em 1979, aprovada, segundo o DIEESE, pra conter a onda de greves.
Ou seja: a regra só mudou porque quem trabalhava parou. O nome clássico disso é luta de classes. Em São Bernardo, ela teve hora marcada: sete da manhã. Três mil trabalhadores, cartão batido, máquina desligada. Ninguém parou sozinho naquela sexta-feira.
E essa história não acabou em 1985. Tem gente que ainda celebra o regime que fez tudo isso com a nossa classe. Em 17 de abril de 2016, na votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara, o então deputado Jair Bolsonaro disse: "Perderam em 64, perderam agora em 2016". E dedicou o voto ao coronel Ustra.
Pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff
Carlos Alberto Brilhante Ustra comandou o DOI-CODI de São Paulo de 1970 a 1974, o mesmo centro do Exército onde Manoel Fiel Filho morreria dois anos depois de ele sair. Em 2008, numa ação da família Teles, presa e torturada no DOI-CODI em 1972, a Justiça de São Paulo declarou Ustra torturador. Em 2012, o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a decisão por unanimidade. Foi a primeira vez que um colegiado reconheceu a responsabilidade de um agente da ditadura.
Dois anos depois daquele voto, Bolsonaro foi eleito presidente. Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal o condenou, por 4 votos a 1, a 27 anos e 3 meses de prisão por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado, pela trama pra impedir a posse depois da derrota na eleição de 2022. Golpista não é adjetivo nosso. É o que diz a sentença.
Quando eles celebram 1964, é bom saber o que estão celebrando. É o interventor no sindicato, a lei antigreve, a lista negra no departamento pessoal e a cesta que passou de 88 pra 163 horas de trabalho. Pra quem trabalha, ditadura nunca foi ordem. Foi o salário encolhendo com a boca fechada.
Então a lição de São Bernardo é a nossa. Lembra, e conta pra quem não viveu. E se organiza: no sindicato, no bairro, no lugar onde você trabalha.
Em maio de 2026, o Ministério Público Federal disse que investiga 13 empresas suspeitas de ter colaborado com a repressão. A lista de quem ajudou a vigiar a fábrica ainda não terminou de ser escrita. A de quem se organiza contra eles também não. Ditadura nunca mais.
Fontes deste capítulo:IPEA1979disputadaLEI4330BARONE-BASTOS2015OLIVEIRA-RCTFPAPODER360-2016CONGRESSOEMFOCO-VOTOSIHU2012JB2012BLOOMBERG-STFALMAPRETA-STFINFOMONEY2026, 12 fontes, 1 disputada
Indicadores sociais para uso do CDS: resumo da situação no período 1960-1978
Aqui os historiadores discordam.
Lei nº 4.330, de 1º de junho de 1964 (lei de greve)
por motivos políticos, partidários, religiosos, sociais, de apoio ou solidariedade
A distribuição de renda durante o "milagre econômico" brasileiro: um balanço da controvérsia
Greves no Brasil, de 1978 a 2018
Isso acendeu o pavio da mobilização dos trabalhadores a partir do segundo semestre de 1977, culminando nas greves de 1978.
Antecedentes
Há 5 anos, Câmara abria impeachment de Dilma e Bolsonaro louvava Ustra
Pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff
Relembre votos que marcaram o impeachment de Dilma (íntegra dos votos)
Justiça reconhece Ustra como torturador
TJ-SP mantém decisão que reconhece coronel Ustra como torturador
Bolsonaro é condenado a 27 anos e três meses de prisão por tramar golpe de Estado
Bolsonaro é condenado a 27 anos e 3 meses de prisão pelo STF por golpe de Estado e outros crimes
MPF investiga empresas suspeitas de colaborar com a repressão na ditadura



