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A carta de 1946: 200 mil contra 1 milhão
Numa carta ao genro, Loureiro Júnior, escrita no exílio em Portugal em 4 de maio de 1946, o chefe dos camisas verdes fez uma conta que nunca tinha feito em público. Em público, a Ação Integralista Brasileira, o partido fascista dos camisas verdes, dizia ter passado de um milhão de filiados. Na carta, Plínio Salgado escreveu outra coisa.
Não é vergonha nenhuma sermos duzentos mil.
Duzentos mil é um quinto do que a propaganda anunciava. E a frase não era desabafo: era a explicação, pro genro, de por que eles tinham fundado um partido novo.
Nas palavras do historiador João Fábio Bertonha, o integralismo foi o maior partido fascista fora da Europa. Getúlio Vargas fechou as sedes e, depois, prendeu quem tentou derrubá-lo. Em 1945, o chefe mandou publicar no jornal que o partido tinha sido fechado, mas a doutrina, ninguém podia fechar.
A “Ação Integralista Brasileira” era um partido e foi fechada; mas o Integralismo é uma doutrina e ninguém o pode fechar.
Ele tinha razão. Só que o que sobreviveu não foram as camisas verdes. Foi o que aquela carta mostra: uma versão pública, e outra nos papéis.
E nos papéis está o nome de quem escreveu o texto que virou o plano falso que deu a Getúlio uma ditadura. Está também onde esse mesmo homem estava na madrugada do golpe de 1964. E está a razão de isso não ser passado: o lema deles voltou à boca de um presidente da República.
Fontes deste capítulo:GONOLI2016disputadaBERT2018GON2017CPDOC-PSPIOVEZANdisputadaBERT2011PUBLICA, 7 fontes, 2 disputadas
“Não é vergonha nenhuma sermos duzentos mil”: vivendo na ilusão com os verdadeiros números do integralismo
Não é vergonha nenhuma sermos duzentos mil
Aqui os historiadores discordam.
Salgado, Reale e Barroso. Políticos e intelectuais em circulação entre Brasil, Itália, Alemanha, França e Portugal
o maior partido fascista fora da Europa
Un ensayo bibliográfico sobre el integralismo brasileño
el movimiento fascista de mayor éxito en Latinoamérica
Verbete biográfico “Salgado, Plínio”
Vargas deixara tacitamente subentendido na ocasião que o integralismo seria a base do novo regime, e prometera inclusive a nomeação de um dirigente integralista para o cargo de ministro da Educação.
Rituais fúnebres militares: o túmulo dos Fuzileiros Navais mortos na Intentona Integralista de 1938
Aqui os historiadores discordam.
Plínio Salgado, o integralismo brasileiro e as suas relações com Portugal (1932-1975)
Deus e o diabo na terra do voto
O nosso lema é Deus, pátria, família e liberdade
Roma, 1930: o fogo sagrado de Plínio Salgado
A história começa na Roma fascista de 1930, com um escritor paulista. Plínio Salgado passou um mês olhando o fascismo de perto e conseguiu ser recebido por Benito Mussolini, o ditador fascista da Itália. Depois do encontro, escreveu a um amigo no Brasil que um “fogo sagrado” tinha entrado na vida dele.
Noutra carta da mesma viagem, ele foi mais preciso.
Tenho estudado muito o fascismo; não é exatamente esse o regime que precisamos aí, mas é coisa semelhante.
Na mesma carta, ele elogia o jeito como o fascismo organizava o trabalho. O capital, escreveu, é “admiravelmente bem controlado”. Não é igual, é semelhante. E ele não escreveu isso como defesa: escreveu como elogio.
Dois anos depois, em 7 de outubro de 1932, sai em São Paulo o manifesto que funda a Ação Integralista Brasileira. O que o fascismo daqui copiou primeiro foi a roupa. Na Itália, a milícia de Mussolini usava camisa negra. Aqui, o uniforme do fascismo integralista era a camisa verde, com uma braçadeira e uma letra grega.
A letra é o sigma, o sinal da soma na matemática, e o símbolo do integralismo. A ideia fascista era a nação inteira somada numa coisa só, sem outros partidos e sem divergência.
E tinha a saudação. O braço estendido é o de Roma, a saudação fascista. O que se gritava com ele era uma palavra de origem indígena, Anauê, que eles traduziam como “você é meu irmão”. Repara na escolha: o gesto vinha da Itália, e a palavra em cima dele era a mais brasileira que dava pra achar.
O lema do fascismo integralista era Deus, Pátria e Família. E o nacionalismo, ali, funcionava como figurino: brasileiro na casca, italiano no molde.
Fontes deste capítulo:GON2017CPDOC-PSCALIL2013IHU-DWHISTMUNDO, 5 fontes
Un ensayo bibliográfico sobre el integralismo brasileño
el movimiento fascista de mayor éxito en Latinoamérica
Verbete biográfico “Salgado, Plínio”
Vargas deixara tacitamente subentendido na ocasião que o integralismo seria a base do novo regime, e prometera inclusive a nomeação de um dirigente integralista para o cargo de ministro da Educação.
Peculiaridades e paradoxos do nacionalismo integralista (1932-1964)
Tenho estudado muito o fascismo; não é exatamente esse o regime que precisamos aí, mas é coisa semelhante
Como “Deus, Pátria e Família” entrou na política do Brasil
Texto de divulgação sobre o integralismo e seus símbolos
A milícia e a Praça da Sé, em 1934
Fascismo, aqui, não é xingamento. É o que o historiador Robert Paxton descreveu no livro A Anatomia do Fascismo: um partido de massa, de militantes nacionalistas, que larga as liberdades democráticas e usa a violência. E que age em aliança, incômoda mas eficaz, com as elites de sempre.
um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia as liberdades democráticas e passa a perseguir [...] por meio de uma violência redentora
Pra isso, o fascismo integralista organizou uma milícia. Quem comandava era Gustavo Barroso, presidente da Academia Brasileira de Letras e fundador do Museu Histórico Nacional. Quem montou a estrutura foi um capitão do Exército chamado Olímpio Mourão Filho. Ele tinha passado pela Escola de Estado-Maior, a escola dos oficiais de comando, e organizou a milícia nos moldes do Exército.
Mais tarde, o departamento da milícia mudou de nome no organograma: virou Departamento de Educação Moral e Cívica. A milícia mudou o nome. O capitão ficou. Em 1937, ele chefiava o serviço secreto do movimento.
Só que milícia precisa de rua. E a rua, em São Paulo, não era dela. Em 7 de outubro de 1934, no segundo aniversário do movimento, a milícia integralista marcou um desfile na Praça da Sé. E pela primeira vez a esquerda inteira, que vivia brigando entre si, foi junta pra impedir. A nossa gente: comunistas, anarquistas, trotskistas, socialistas, sindicatos e exilados italianos que tinham fugido de Mussolini.
Os anarquistas da Federação Operária de São Paulo convocaram assim:
guerra ao integralismo com todas as tuas energias
Começou o tiroteio, e a praça virou campo de batalha durante a tarde. Quantos morreram, ninguém sabe ao certo: o jornal dos próprios integralistas falou em cinco, outros relatos falam em mais.
O que todo mundo lembra é a fuga. Fúlvio Abramo, militante antifascista que estava lá, contou 50 anos depois como os integralistas corriam: tirando a camisa verde, pra não serem reconhecidos. Valentes de uniforme. Covardes sem ele. Acharam camisa verde jogada até nas ruas da Mooca.
O jornal do humorista Aparício Torelly, o Barão de Itararé, deu a manchete.
Um integralista não corre, voa.
Dali pra frente, eles viraram os galinhas verdes. E o dia ficou conhecido como a revoada.
Fontes deste capítulo:GON2017CPDOC-PSPAXTONCPDOC-MOURAOTOPOIABRAMOdisputadaABRAMO-LIVRO, 7 fontes, 1 disputada
Un ensayo bibliográfico sobre el integralismo brasileño
el movimiento fascista de mayor éxito en Latinoamérica
Verbete biográfico “Salgado, Plínio”
Vargas deixara tacitamente subentendido na ocasião que o integralismo seria a base do novo regime, e prometera inclusive a nomeação de um dirigente integralista para o cargo de ministro da Educação.
A Anatomia do Fascismo
operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais
Verbete biográfico “Mourão Filho, Olímpio”
com os conhecimentos adquiridos na Escola de Estado-Maior, organizou a milícia integralista nos moldes do Exército
A Frente Única Antifascista (FUA) e o antifascismo no Brasil (1933-1934)
pela primeira vez todas as forças antifascistas participaram em conjunto
Entrevista de Fúlvio Abramo a José Arbex Júnior
Não se sabe o número exato
Aqui os historiadores discordam.
A Revoada dos Galinhas Verdes
Barroso e o inimigo com sobrenome
O comandante da milícia também escolheu o inimigo, e deu a ele um rosto. Em 1934, Gustavo Barroso publicou um livro chamado Brasil, Colônia de Banqueiros. A tese: o Brasil seria uma colônia de banqueiros judeus. O livro saiu em segunda edição no mesmo ano.
Dois anos depois, em 1936, ele assinou a primeira tradução publicada no Brasil dos Protocolos dos Sábios de Sião, com comentários dele. É um texto que dizia revelar um plano secreto dos judeus pra dominar o mundo. E é uma fraude: desde 1921, quando o jornal inglês The Times mostrou, se sabe que ele foi copiado de uma sátira francesa de 1864 que nem falava de judeus.
Pra Barroso, o comunismo também tinha sobrenome. Segundo Olímpio Mourão Filho, que conviveu com ele, Barroso chamava o comunista húngaro Béla Kun de “Béla Cohen”. Na cabeça dele, o banqueiro e o comunista eram o mesmo inimigo, e os dois tinham sobrenome de judeu.
Agora repara pra onde o ódio apontava, e pra onde ele não apontava. O integralismo falava mal do capitalismo internacional, mas nunca pôs em questão a propriedade da fábrica, nem o lucro de quem era dono dela. Quem chamou atenção pra isso foi o cientista político Hélgio Trindade, autor do estudo clássico sobre o movimento.
o integralismo não punha em questão a propriedade dos meios de produção e o princípio do lucro
O essencial do sistema ficava intocado. O dono da fábrica no Brás não era o inimigo. O inimigo era um banqueiro em Londres, com sobrenome. O historiador Gilberto Calil resume a manobra: culpar o capitalismo internacional pelos males do capitalismo, sem tocar na propriedade de ninguém daqui.
É o truque mais velho da burguesia: dar a quem trabalha um inimigo que não seja o patrão.
Fontes deste capítulo:CALIL2013BBMTUCCIUSHMMMANCHETE1958disputada, 5 fontes, 1 disputada
Peculiaridades e paradoxos do nacionalismo integralista (1932-1964)
Tenho estudado muito o fascismo; não é exatamente esse o regime que precisamos aí, mas é coisa semelhante
Brasil, colonia de banqueiros (registro do acervo)
Resenha de Nem Rothschild nem Trotsky, de Marcos Chor Maio
o mais convicto teórico anti-semita brasileiro
Protocolos dos Sábios de Sião
Depoimento de Olímpio Mourão Filho à revista Manchete (citado no verbete “Plano Cohen”)
Aqui os historiadores discordam.
A mesada de Roma
Julho de 1937. A milícia fascista integralista desfila na Avenida Paulista, e Plínio passa a tropa em revista de uma sacada. O consulado dos Estados Unidos em São Paulo anotou, num relatório de 19 de julho, de quem era a sacada: da casa de Angelo Poci, diretor do Fanfulla, o jornal fascista dos italianos de São Paulo.
A ligação ia além da sacada. Em outubro de 1936, o ministro do Exterior da Itália, Galeazzo Ciano, genro de Mussolini, mandou um telegrama aos diplomatas italianos no Brasil com uma pergunta: valia a pena apoiar os integralistas? Os cônsules disseram que não. A embaixada no Rio disse que sim, e propôs dinheiro.
Roma aceitou. Segundo o historiador João Fábio Bertonha, que leu os arquivos do Ministério do Exterior italiano, um subsídio passou a sair regularmente dos cofres italianos para os integralistas. Quanto? Segundo uma revelação do próprio Ciano, 50 contos de réis por mês, entregues pela embaixada no Rio.
um subsídio financeiro passou a ser transferido regularmente
Pra ter uma régua: em 1940, o primeiro salário mínimo do Rio, então capital do país, era de 240 mil-réis. Cinquenta contos pagavam mais de 200 desses salários. Todo mês.
O movimento também fez uma campanha nacional pra arrecadar dinheiro entre os apoiadores, o Empréstimo do Sigma. A campanha inteira, segundo o jornal do próprio movimento, A Ofensiva, juntou 96 contos. Roma mandava mais da metade disso todo mês.
E no arquivo do Ministério do Exterior italiano, numa pasta chamada “Integralismo”, tem uma promissória: um papel em que se assina uma dívida. Cem contos de réis, assinados pessoalmente por Plínio Salgado. Um dos italianos que carregavam o dinheiro, Nunzio Greco, confirmou o esquema numa entrevista ao jornal O Globo, em 27 de maio de 1946.
promissória de 100 contos de réis, assinada pessoalmente por Plínio Salgado
O movimento fascista que gritava Brasil numa palavra indígena recebia mesada do governo de Mussolini. Patriotas de aluguel. E a mesada durou pouco: em 1938, Roma cortou o dinheiro. Tinha achado alguém mais útil, que já estava no poder: Getúlio Vargas.
Fontes deste capítulo:CPDOC-PSBERT2001SALMIN, 3 fontes
Verbete biográfico “Salgado, Plínio”
Vargas deixara tacitamente subentendido na ocasião que o integralismo seria a base do novo regime, e prometera inclusive a nomeação de um dirigente integralista para o cargo de ministro da Educação.
Entre Mussolini e Plínio Salgado: o Fascismo italiano, o Integralismo e o problema dos descendentes de italianos no Brasil
promissória de 100 contos de réis, assinada pessoalmente por Plínio Salgado
Monografia de 1940 sobre o salário mínimo
O Plano Cohen
Em 1937, o Brasil esperava uma eleição pra presidente, e o movimento ia lançar Plínio. Em maio, fez uma votação interna e anunciou o resultado: 846.554 votos pro chefe. Nove anos depois, a carta ao genro diria duzentos mil. Mas em 1937 o papel que ia mudar o país era outro: o Plano Cohen.
O relato a seguir é do próprio capitão Olímpio Mourão Filho. No fim de agosto, já chefe do serviço secreto integralista, ele senta numa máquina de escrever. O texto era pra um boletim interno do movimento, o Boletim de Informações nº 4. Segundo ele, uma hipótese de trabalho: um exercício de imaginar como seria uma insurreição comunista. Greve geral, um “comitê de incêndios”, saques e depredações. E um homem encarregado de eliminar cada oficial suspeito.
(...) cada oficial suspeito (...) um homem encarregado de sua eliminação.
No fim de um dos capítulos, ele escreve por brincadeira o nome de Béla Kun. Aí risca o sobrenome e escreve outro: Cohen. Lembrou, contou ele depois, que um dirigente integralista chamava Béla Kun de “Béla Cohen”. Segundo o próprio Mourão, em entrevista à revista Manchete em 1958, o dirigente era o comandante da milícia, Gustavo Barroso. Se a memória dele está certa, o plano falso que ia dar ao Brasil uma ditadura foi batizado pelo antissemitismo de Barroso.
Plínio leu o texto entre 28 e 29 de agosto e desaprovou: achou fantasioso demais.
demasiado fantasioso
Só que o papel não ficou na gaveta. Ainda segundo Mourão, ele mostrou um capítulo ao general Álvaro Mariante, padrinho de casamento dele. Mariante ficou com uma cópia e devolveu dias depois. O general Góis Monteiro, chefe do Estado-Maior do Exército, contou depois que soube do texto pelo próprio Mariante. Góis mandou uma cópia pro chefe de polícia, Filinto Müller, e outra pro chefe do Gabinete Militar, pra chegar a Getúlio.
por intermédio do general Mariante, fui sabedor do ocorrido
Em 30 de setembro, o governo anuncia ter descoberto um plano comunista. O texto é lido na Hora do Brasil, o programa oficial de rádio. Dois dias depois, o Congresso aprova o estado de guerra: na Câmara, 138 votos a 58. O estado de guerra suspendia garantias da Constituição, e o governo ganhava poderes de exceção.
O estado de guerra implicará a suspensão das garantias constitucionaes que possam prejudicar directa ou indirectamente a segurança nacional.
E Plínio, que tinha lido aquele texto um mês antes, reconheceu o documento. E não desmentiu nada. Calou, e foi cúmplice.
Em 1º de novembro, a milícia fascista desfila no Rio, com oficiais do Exército fardados no meio. Plínio calculou 50 mil camisas verdes. O governo calculou 17 mil. A conta de sempre. Segundo o verbete de Plínio no dicionário histórico da Fundação Getúlio Vargas, Getúlio deixou subentendido que o integralismo seria a base do novo regime, e prometeu o Ministério da Educação a um integralista.
Em 10 de novembro vem o golpe. O Congresso é fechado, começa o Estado Novo. Em 2 de dezembro, Getúlio dissolve todos os partidos, incluindo o dos camisas verdes. O ministério nunca veio. O plano que um integralista escreveu ajudou a fazer a ditadura que fechou o integralismo.
Mourão diria depois, em 1956, que o texto foi alterado quando virou plano comunista. Pode ser. A máquina e o nome Cohen eram dele.
Fontes deste capítulo:GONOLI2016disputadaCPDOC-PSMANCHETE1958disputadaCPDOC-COHENCF34, 5 fontes, 2 disputadas
“Não é vergonha nenhuma sermos duzentos mil”: vivendo na ilusão com os verdadeiros números do integralismo
Não é vergonha nenhuma sermos duzentos mil
Aqui os historiadores discordam.
Verbete biográfico “Salgado, Plínio”
Vargas deixara tacitamente subentendido na ocasião que o integralismo seria a base do novo regime, e prometera inclusive a nomeação de um dirigente integralista para o cargo de ministro da Educação.
Depoimento de Olímpio Mourão Filho à revista Manchete (citado no verbete “Plano Cohen”)
Aqui os historiadores discordam.
Verbete temático “Plano Cohen”
por intermédio do general Mariante, fui sabedor do ocorrido
Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, art. 161
O estado de guerra implicará a suspensão das garantias constitucionaes que possam prejudicar directa ou indirectamente a segurança nacional.
O último ataque, em 1938
Sem partido e sem ministério, os integralistas tentam no braço. Na madrugada de 11 de maio de 1938, um grupo invade os jardins do Palácio Guanabara, onde Getúlio morava com a família. Com pouca guarda no palácio, a própria família ajuda na defesa, até o Exército chegar.
O ataque ao palácio fracassou, e os outros ataques na cidade também. Houve mortos dos dois lados, e cerca de 1.500 prisões. Os integralistas tinham pedido ajuda à Itália pro golpe, e asilo quando ele falhou. Roma, que já tinha escolhido Getúlio, não mandou arma nenhuma.
Plínio não estava no ataque. Foi preso no ano seguinte e mandado pro exílio em Portugal. E de lá a vida dupla continuou, agora com uma guerra mundial no meio.
Quando o Brasil entrou na guerra contra a Alemanha e a Itália, em 1942, Plínio mandou telegramas de solidariedade a Getúlio e ao general Dutra. Em particular, segundo o historiador Gilberto Calil, negociava com agentes alemães e italianos.
de forma clandestina negociava com agentes alemães e italianos para que fosse reconhecido como líder político do Brasil em uma “Ordem Nova” que se instauraria com a vitória do nazifascismo
Fontes deste capítulo:CPDOC-PSCALIL2013BERT2001PIOVEZANdisputadaBERT2011, 5 fontes, 1 disputada
Verbete biográfico “Salgado, Plínio”
Vargas deixara tacitamente subentendido na ocasião que o integralismo seria a base do novo regime, e prometera inclusive a nomeação de um dirigente integralista para o cargo de ministro da Educação.
Peculiaridades e paradoxos do nacionalismo integralista (1932-1964)
Tenho estudado muito o fascismo; não é exatamente esse o regime que precisamos aí, mas é coisa semelhante
Entre Mussolini e Plínio Salgado: o Fascismo italiano, o Integralismo e o problema dos descendentes de italianos no Brasil
promissória de 100 contos de réis, assinada pessoalmente por Plínio Salgado
Rituais fúnebres militares: o túmulo dos Fuzileiros Navais mortos na Intentona Integralista de 1938
Aqui os historiadores discordam.
Plínio Salgado, o integralismo brasileiro e as suas relações com Portugal (1932-1975)
"Nacionalista e cristão, não fascista": a objeção mais forte
Os grupos que se dizem herdeiros do integralismo respondem a tudo isso com uma frase: não era fascismo, era nacionalismo cristão, coisa nossa. E não é frase de hoje. É do próprio Plínio, num livro de 1934, A Quarta Humanidade: diferente do fascismo, com quem só se pareceria na atitude do Estado.
diferente (...) do “fascismo” italiano, ao qual somente nos assemelhamos no concernente à nova atitude do Estado, em face da luta social
A objeção tem argumento de verdade, e vale ouvir a versão mais forte dela. O integralismo era católico. Hitler e Mussolini, nas palavras do historiador Bertonha, eram, em essência, agnósticos.
E a versão mais forte dessa objeção não veio de integralista. Veio de um marxista. O filósofo José Chasin defendeu, numa tese de 1977, que o capitalismo chegou atrasado demais ao Brasil. Tão atrasado que o país não tinha a economia nem a sociedade que fizeram nascer o fascismo europeu. O título da tese fala em regressividade, um movimento que puxava pra trás. Pra ele, o integralismo parecia fascismo, mas não era a mesma coisa.
E o historiador Leandro Pereira Gonçalves defende que as raízes de Plínio eram católicas e portuguesas, com o fascismo adaptado depois. Mesmo ele chama o movimento de fascista.
Pela régua do Paxton, religião e nacionalismo não tiram ninguém da conta. O que pesa é o que o movimento faz. E aí entram os papéis. Semelhante, não igual: foi exatamente o que Plínio escreveu de Roma em 1930. Só que em particular, e como elogio.
Nacionalismo cristão não explica a mesada do governo de Mussolini, nem a dívida de 100 contos assinada pelo chefe. Doutrina de raça, o comandante da milícia tinha: está nos Protocolos. E nada disso explica a milícia montada nos moldes do Exército, que só trocou de nome.
Quando Hélgio Trindade foi perguntar aos ex-militantes por que tinham entrado, o primeiro motivo foi o anticomunismo. O segundo, a simpatia pelos fascismos europeus. Partido de massa e nacionalista, milícia armada, desprezo pelas liberdades, e o acordo com quem mandava, à espera de um ministério: está tudo na régua do Paxton. A objeção não fica de pé.
O teste do petróleo
Falta o nacionalismo. E pra testar nacionalismo, o Brasil teve a prova perfeita: o petróleo. No fim dos anos 1940, o país inteiro discutia se o petróleo seria monopólio do Estado, ou seja, se só o poder público poderia explorar. É o que viraria a Petrobras.
A essa altura os ex-integralistas tinham partido: o Partido de Representação Popular, o PRP, fundado em 26 de setembro de 1945. Em junho de 1948, a direção desse partido aprovou, por unanimidade, um parecer contra o monopólio estatal do petróleo. Em outubro, o jornal deles escreveu isto:
Nós não acreditamos nessa história de interferências misteriosas do capitalismo estrangeiro
Numa entrevista de 1955, Plínio chegou a sugerir abrir as estatais, Petrobras incluída, ao capital privado. Segundo Calil, o nacionalismo do partido acabou em datas cívicas e numa campanha pra trocar um verso do Hino Nacional: em vez de “deitado eternamente em berço esplêndido”, “em pé, altivo”. Nacionalista no hino. De porta aberta pro capital estrangeiro no petróleo.
O argumento do Chasin acerta numa coisa: o Brasil agrário de 1930 não era a Itália. Mas o Bertonha resume o resto.
fascista demais para ser um católico conservador, mas, ao mesmo tempo, católico demais para ser um fascista nos moldes de Mussolini e Hitler
E fascista o bastante, conclui ele, pra entrar no rol dos fascistas mais próximos do catolicismo.
Fontes deste capítulo:BERT2018GON2017CPDOC-PSCALIL2013PAXTONBERT2001PEREIRA, 7 fontes
Salgado, Reale e Barroso. Políticos e intelectuais em circulação entre Brasil, Itália, Alemanha, França e Portugal
o maior partido fascista fora da Europa
Un ensayo bibliográfico sobre el integralismo brasileño
el movimiento fascista de mayor éxito en Latinoamérica
Verbete biográfico “Salgado, Plínio”
Vargas deixara tacitamente subentendido na ocasião que o integralismo seria a base do novo regime, e prometera inclusive a nomeação de um dirigente integralista para o cargo de ministro da Educação.
Peculiaridades e paradoxos do nacionalismo integralista (1932-1964)
Tenho estudado muito o fascismo; não é exatamente esse o regime que precisamos aí, mas é coisa semelhante
A Anatomia do Fascismo
operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais
Entre Mussolini e Plínio Salgado: o Fascismo italiano, o Integralismo e o problema dos descendentes de italianos no Brasil
promissória de 100 contos de réis, assinada pessoalmente por Plínio Salgado
O integralismo no Paraná e o jornal “A Razão”, 1935
O fio: 1955, 1964, o Supremo em 2003 e o ataque de 2019
Agora a carta do começo faz sentido inteira. Plínio contava os duzentos mil pra explicar por que tinham fundado um partido novo. Os integralistas, escreveu ele, viviam na ilusão das estatísticas da propaganda. Só falavam em milhão. O partido novo, diz a carta, era pra pôr as coisas em pratos limpos: a fantasia do milhão já tinha custado derrotas.
Você sabe que os integralistas nunca souberam exatamente quantos eram em todo o país. Viviam na ilusão das estatísticas da secretaria de propaganda e dos quadros do nosso querido Pujol. Só falavam em milhão.
Ora, se não se organizasse um partido, para pôr as coisas em pratos limpos, viveríamos sempre uma vida fantasiosa, falsa, que já nos custou derrotas. Era preciso que a realidade aparecesse ao vivo.
Não é vergonha nenhuma sermos duzentos mil e sabendo que não passamos disso, não incorreremos em erros perniciosos.
E o Partido de Representação Popular, que Plínio presidiu de 1946 até o partido ser extinto, tinha outro cuidado. Segundo Calil, os dirigentes se esforçaram pra fazer parecer que os integralistas não tinham nada a ver com a fundação. A conta de 1937, ao contrário: antes inflar, agora esconder.
Em 1955, Plínio sai candidato a presidente e tem 714 mil votos, 8% do total. Mais de três vezes os duzentos mil da carta.
E aí chega a madrugada prometida no começo: 31 de março de 1964, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Entre quatro e cinco da manhã, antes da hora combinada pelos conspiradores, um general põe as tropas de Minas em movimento contra o governo de João Goulart. O general é Olímpio Mourão Filho. O capitão que montou a milícia integralista. O homem que datilografou o Plano Cohen.
Dois dias depois, as tropas dele chegam ao Rio. Plínio Salgado apoia o golpe. Quando a ditadura extingue todos os partidos, em 1965, ele entra na Arena, o partido criado pra sustentar a ditadura. Morre em 1975.
O livro de Barroso também andou. Em 1989, a Editora Revisão reeditou os Protocolos, a mesma fraude, com os comentários dele. O dono da editora, Siegfried Ellwanger, foi processado por racismo, e entre os livros que ele editou e que levaram ao processo estavam dois de Barroso. Em 2003, o Supremo Tribunal Federal manteve a condenação por 8 votos a 3. Foi o caso em que o tribunal firmou que antissemitismo é crime de racismo.
E o nome voltou à rua. Na madrugada da véspera de Natal de 2019, coquetéis molotov atingiram a sede do Porta dos Fundos, a produtora de vídeos de humor. Um vídeo assumiu o ataque em nome de um grupo com um nome comprido: Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Família Integralista Brasileira. A Frente Integralista Brasileira, um dos grupos que se dizem herdeiros do movimento, negou qualquer ligação e disse não conhecer os autores.
Fontes deste capítulo:GONOLI2016disputadaCPDOC-PSCALIL2013CPDOC-MOURAOTUCCISTF-HC82424CONJURCONGFOCO, 8 fontes, 1 disputada
“Não é vergonha nenhuma sermos duzentos mil”: vivendo na ilusão com os verdadeiros números do integralismo
Não é vergonha nenhuma sermos duzentos mil
Aqui os historiadores discordam.
Verbete biográfico “Salgado, Plínio”
Vargas deixara tacitamente subentendido na ocasião que o integralismo seria a base do novo regime, e prometera inclusive a nomeação de um dirigente integralista para o cargo de ministro da Educação.
Peculiaridades e paradoxos do nacionalismo integralista (1932-1964)
Tenho estudado muito o fascismo; não é exatamente esse o regime que precisamos aí, mas é coisa semelhante
Verbete biográfico “Mourão Filho, Olímpio”
com os conhecimentos adquiridos na Escola de Estado-Maior, organizou a milícia integralista nos moldes do Exército
Resenha de Nem Rothschild nem Trotsky, de Marcos Chor Maio
o mais convicto teórico anti-semita brasileiro
Notícia do julgamento do habeas corpus 82.424 (caso Ellwanger)
Publicação do acórdão do habeas corpus 82.424
Na véspera do Natal, produtora do Porta dos Fundos é alvo de ataque
O lema voltou
O partido foi fechado, mas a doutrina ninguém pode fechar. Plínio tinha razão, só que não do jeito que ele queria. O que não fechou foi a versão de fora: nacionalista, cristão, nada a ver com fascismo. É a frase que os grupos que se dizem herdeiros do integralismo repetem hoje, e é a que Plínio publicou em 1934.
A outra versão também nunca sumiu. Ela está nos papéis: a carta de Roma, a promissória, o plano datilografado em agosto. No fim dos anos 1960, mais de 20 anos depois daquela carta ao genro, o cientista político Hélgio Trindade sentou com Plínio e perguntou quantos integralistas tinham existido no Brasil. Ele respondeu: “Um milhão”. A versão de fora, até o fim.
E a versão de fora não ficou nos grupinhos de camisa verde. Ela subiu a rampa. Em 18 de setembro de 2022, o presidente da República, Jair Bolsonaro, discursou na embaixada do Brasil em Londres.
O nosso lema é Deus, pátria, família e liberdade.
É o lema dos camisas verdes de Plínio Salgado, o do Manifesto de Outubro de 1932. Com uma palavra a mais no fim. E não foi o único eco. Na posse de 2019, o chanceler do governo dele, Ernesto Araújo, usou no discurso a expressão “anauê jaci”. Anauê era a saudação dos camisas verdes.
Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão, por tentativa de golpe de Estado e organização criminosa armada, entre outros crimes. Em 1937, em 1964 e na trama que o Supremo condenou em 2025: três vezes, o mesmo atalho, o golpe.
Eles contam com a nossa memória curta. E sempre foram menos do que diziam: o próprio chefe contava duzentos mil, enquanto a propaganda falava em um milhão. Em 1934, quando a nossa gente se juntou na Praça da Sé, o desfile da milícia fascista não aconteceu.
Por isso, a nossa parte é memória e organização. Reconhecer o lema quando ele voltar, e estar junto: no sindicato, no movimento, no voto, na rua.
A carta dos duzentos mil continua guardada no Arquivo Público e Histórico de Rio Claro, no interior de São Paulo, junto com o resto dos papéis dele. Eles eram menos do que diziam. Nós podemos ser mais.
Fontes deste capítulo:GONOLI2016disputadaIHU-DWTOPOIPUBLICAAOSFATOS, 5 fontes, 1 disputada
“Não é vergonha nenhuma sermos duzentos mil”: vivendo na ilusão com os verdadeiros números do integralismo
Não é vergonha nenhuma sermos duzentos mil
Aqui os historiadores discordam.
Como “Deus, Pátria e Família” entrou na política do Brasil
A Frente Única Antifascista (FUA) e o antifascismo no Brasil (1933-1934)
pela primeira vez todas as forças antifascistas participaram em conjunto
Deus e o diabo na terra do voto
O nosso lema é Deus, pátria, família e liberdade
O que acontece com Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão


