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A festa e a manhã seguinte
Em Berlim, no 1º de maio de 1933, os próprios sindicatos alemães mandaram os filiados pra festa. O governo de Adolf Hitler tinha acabado de transformar o Dia do Trabalhador em feriado nacional: folga, e com o dia pago. Perto de 1 milhão de pessoas lotaram o campo de Tempelhof. Uns doze Maracanãs cheios.
Os chefes dos sindicatos tinham prometido, em fevereiro, ficar quietos na política. Achavam que, baixando a cabeça, salvavam alguma coisa.
Na manhã seguinte, 2 de maio, a tropa do partido nazista invadiu sede de sindicato no país inteiro. Prendeu os dirigentes, esvaziou o cofre e pendurou a bandeira do partido na fachada.
A pergunta que importa aqui é a de quem estava naquele campo aplaudindo: por que tanto trabalhador cai no conto da extrema direita? A resposta passa por uma conta de quem votou de verdade, por uma sala em Berlim com os homens mais ricos da Alemanha e por uma frase dita aqui no Brasil, em 2018.
Fontes deste capítulo:DHM-1MAIOIGMETALLGHDI-2MAIOMARACANA, 4 fontes
1. Mai Feiertag
https:/Als die Nazis die Gewerkschaftshäuser überfielen
https:/Prohibition of Free Trade Unions: SA Members Seize the Union Office on Engelsufer in Berlin (May 2, 1933)
https:/Ranking com a capacidade dos principais estádios do futebol brasileiro
https:/Quem votou
Em 1933, o psicanalista Wilhelm Reich, no livro Psicologia de massas do fascismo, escreveu que quase todo mundo fazia essa pergunta ao contrário.
O que precisa ser explicado não é o fato de que o faminto rouba ou o fato de que o explorado faz greve, mas por que a maioria dos famintos não rouba e por que a maioria dos explorados não faz greve.
O palpite de quase todo mundo é a fome: crise, desemprego, gente desesperada. Só que a fome explica a revolta, não a obediência.
E a Alemanha estava no fundo. No começo de 1933, mais de 25% de quem trabalhava estava oficialmente sem emprego: junta quatro trabalhadores numa mesa de bar, e pelo menos um deles estava parado. Meses antes, na eleição de julho de 1932, o partido de Hitler tinha virado o maior do país, com 37,3% dos votos. Mais de um em cada três.
Só que, em 2008, uma equipe do professor Gary King, da Universidade Harvard, refez a conta de quem votou em quem, num estudo publicado no Journal of Economic History. E o desempregado, em proporção, votou menos nos nazistas que o resto. Votou mais nos comunistas.
Quem votou mais foi outra gente: o dono da lojinha, o artesão por conta própria, o pequeno agricultor, a empregada doméstica. Gente pobre, sem fábrica nem sindicato, que via a renda sumir mês a mês. O dono da venda vendo o caderno de fiado engordar.
E o operário de fábrica? A partir de julho de 1932, segundo o historiador Jürgen Falter, o partido nazista foi o mais votado entre eles. Mas um pouco menos do que no resto do país: naquele julho, votaram nos nazistas 31% de todos os eleitores e 27% dos operários.
Ou seja, o fascismo não cresceu no fundo do poço. Cresceu na beirada, entre quem tinha pouco e tinha pavor de perder esse pouco.
Fontes deste capítulo:DHM-ECONDHM-1932KING2008WILSONQKOWALL2023REICH1933, 6 fontes
Industrie und Wirtschaft
lag bis 1939 deutlich unter dem Niveau von 1928
Ergebnis der Reichstagswahl am 31. Juli 1932
Ordinary Economic Voting Behavior in the Extraordinary Election of Adolf Hitler
We find to the contrary that the unemployed voted proportionally less for the National Socialists and proportionally more for the communists.https:/
Who Voted for Hitler?
https:/"Arbeit und Brot" – die sozioökonomische NS-Propaganda vor 1933
https:/The Mass Psychology of Fascism (Psicologia de massas do fascismo)
what has to be explained is not the fact that the man who is hungry steals or the fact that the man who is exploited strikes, but why the majority of those who are hungry don't steal and why the majority of those who are exploited don't strike.https:/
O medo de cair
Em 6 de abril de 1967, o filósofo Theodor Adorno deu uma palestra na Universidade de Viena sobre a extrema direita que voltava a crescer. A explicação dele começa no bolso: o dinheiro vai se juntando na mão de cada vez menos gente, e quem se acha classe média sente o chão afundar. E essa gente, ele disse, põe a conta da própria queda não na máquina que derruba ela, mas em quem criticava a máquina.
Atribuem a própria queda não ao aparelho que a causa, mas a quem criticava o sistema
A raiva é verdadeira. O endereço é que está trocado. É xingar o garçom porque o dono subiu o preço do prato.
E isso não ficou na filosofia. Três economistas, Funke, Schularick e Trebesch, olharam mais de 800 eleições em 20 países ricos, de 1870 a 2014. Quando os bancos quebram, numa crise financeira, a extrema direita cresce em média 30%: quem tinha 10 votos passa a ter 13. O discurso que pega, dizem os autores, é o que aponta o dedo pro estrangeiro e pras minorias. E a extrema esquerda, na média, não ganha o mesmo.
No Brasil de hoje, a beirada tem um nome bonito: empreendedor. Em 2025, eram 26,2 milhões de pessoas trabalhando por conta própria, um em cada quatro brasileiros que trabalham. Recorde na conta do IBGE. E de cada quatro, quase três não têm nem CNPJ.
Mesmo assim, numa pesquisa Datafolha de junho de 2025, 59%, quase seis em cada dez, disseram preferir trabalhar por conta a ter carteira assinada. Isso não diz em quem essa gente vota. Diz onde ela está: na beirada.
E dá pra entender a escolha: muita carteira assinada no Brasil é chefe gritando e salário que não fecha o mês. Só que quem se vê como patrão de si mesmo passa a ter o medo do patrão. O fiscal, o imposto, e o vizinho que, dizem, vive às custas do governo.
Fontes deste capítulo:ADORNO1967ADORNO-PAIVAFUNKE2015IBGE2025DATAFOLHA2025, 5 fontes
Aspects of the New Right-Wing Extremism (Aspectos do novo radicalismo de direita)
they lay the blame for their own potential downgrading not on the apparatus that causes it, but on those who were critical towards the systemhttps:/
Resenha de "Aspectos do novo radicalismo de direita"
a evolução futura do fenômeno depende de nóshttps:/
Going to extremes: Politics after financial crises, 1870-2014
Em média, partidos de extrema direita aumentam sua votação em 30% depois de uma crise financeira.https:/
Registro de CNPJ entre trabalhadores autônomos atinge recorde em 2025, aponta IBGE
https:/59% preferem trabalhar por conta do que ter carteira assinada
https:/O que o conto oferece
Medo não basta pra segurar ninguém. O conto também oferece uma coisa: um lugar de honra. Em 1932, o lema da campanha nazista era Arbeit und Brot, trabalho e pão. E o programa do partido, de 1920, prometia acabar com a renda de quem não trabalha e quebrar a escravidão dos juros.
Abschaffung des arbeits- und mühelosen Einkommens. Brechung der Zinsknechtschaft.
(abolição da renda obtida sem trabalho e sem esforço; quebra da escravidão dos juros)
Parece discurso contra rico. Era um desvio pra raiva.
O economista do partido, Gottfried Feder, dividia o dinheiro grande em dois: o que produz, a fábrica alemã, e o que suga, o do juro e da especulação. Feder não queria abolir a propriedade privada nem o capitalismo. E a propaganda deu um rosto ao capital que suga: o judeu.
Aí está o truque. O dono da fábrica que te paga pouco vira gente que produz, do mesmo time que você. E depois que chegaram ao poder, em 1933, a tal escravidão dos juros foi sumindo da boca do partido.
O filósofo Jason Stanley, no livro Como funciona o fascismo, de 2018, mostra a outra metade do truque. O último capítulo tem o nome da frase do portão de Auschwitz: Arbeit macht frei, o trabalho liberta. A promessa é: nós trabalhamos, e eles são preguiçosos e vivem às custas do Estado.
É por isso que o conto pega tão bem em quem trabalha muito. Ele te dá razão: você é o honesto, e o problema é o outro.
Quem discorda vai dizer: ninguém foi enganado, as pessoas votam por valores, família, ordem, trabalho. E isso é verdade. O medo é real. A raiva é real. A violência na rua é real.
O conto não está no medo. Está na conta. E ela foi apresentada numa sala de Berlim.
Fontes deste capítulo:KOWALL2023STANLEY2018NSDAP1920WUWIENMEHRING1931, 5 fontes
"Arbeit und Brot" – die sozioökonomische NS-Propaganda vor 1933
https:/Como funciona o fascismo: a política do "nós" e "eles"
Programm der Nationalsozialistischen Deutschen Arbeiterpartei
Abschaffung des arbeits- und mühelosen Einkommens. Brechung der Zinsknechtschaft.https:/
Trennlinien zur NS-Ideologie
https:/Discurso contra o antissemitismo
A sala de fevereiro
Antes, uma coisa que não encaixa. Até chegar ao poder, o partido nazista viveu mais da contribuição do filiado comum do que do cheque dos grandes industriais. Quem mostrou foi o historiador Henry Turner, no livro German Big Business and the Rise of Hitler, de 1985, e hoje os historiadores concordam. O dinheiro grosso ia pra direita de terno e gravata, os partidos conservadores de sempre.
O grande empresário só abriu o cofre de verdade pros nazistas numa campanha: a de março de 1933, com Hitler já sentado na cadeira. O capital não inventou o fascismo. Foi buscar quando precisou.
Em 30 de janeiro de 1933, Hitler foi nomeado chanceler, o chefe do governo, e uma nova eleição foi marcada pra 5 de março. Três semanas depois, em 20 de fevereiro, uns 25 dos homens mais ricos da Alemanha foram chamados à residência de Hermann Göring, o braço direito de Hitler e presidente do Parlamento. Estava lá Gustav Krupp, um dos maiores industriais do país e presidente da associação nacional da indústria. E estava Georg von Schnitzler, diretor da IG Farben, o gigante da química que juntava a Bayer, a da aspirina da farmácia, e a BASF.
Hitler falou primeiro.
A empresa privada não pode ser mantida na era da democracia
A frase continua: ela só é concebível se o povo tiver uma boa ideia de autoridade e de personalidade. Traduzindo: lucro e voto livre não cabem na mesma casa. Disse também que não haveria paz enquanto o marxismo não fosse eliminado. E marxismo, pra ele, era todo mundo que organizava trabalhador: comunista, social-democrata, sindicato.
Depois que Hitler saiu, o banqueiro Hjalmar Schacht propôs uma vaquinha de campanha de 3 milhões de marcos. É o salário de um ano inteiro de quase 2 mil trabalhadores alemães. E Göring explicou por que valia a pena abrir a carteira.
A eleição de 5 de março seria com certeza a última pelos próximos dez anos, provavelmente até pelos próximos cem anos
O dinheiro saiu. E a próxima eleição alemã com mais de um partido só aconteceu 16 anos depois. Quem nasceu naquela semana virou adolescente sem ver uma eleição de verdade.
Com esses papéis na mão, a leitura que a gente faz é esta: na crise, o capital precisa da extrema direita. Na crise, o lucro cai, e o jeito mais rápido de recuperar é baixar o salário. Com eleição livre e sindicato, quem trabalha resiste. Voto e sindicato são o freio de mão. A extrema direita oferece ao patrão o que a democracia não oferece: o freio solto, a resistência desligada.
Fontes deste capítulo:TURNER1985BUNDESTAG1933SCHNITZLER1945KRUPP-D204D203GORING-D203SGBVIIGFARBEN, 8 fontes
German Big Business and the Rise of Hitler
Kalenderblatt: 5. März 1933
https:/Declaração juramentada de Georg von Schnitzler (documento EC-439)
https:/Memorando de Gustav Krupp sobre a reunião de 20/2/1933 (documento D-204)
https:/Relatório dos discursos de Hitler e Göring aos industriais (documento D-203)
Private enterprise cannot be maintained in the age of democracy; it is conceivable only if the people have a sound idea of authority and personality.https:/
Sessão de 22/11/1945 do Tribunal Militar Internacional (leitura do documento D-203)
the election of 5 March would surely be the last one for the next ten years, probably even for the next hundred yearshttps:/
Anlage 1 SGB VI: Durchschnittsentgelt
https:/IG Farben
O dia 2 e a conta
O dia 2 de maio foi a primeira parcela. O dinheiro dos sindicatos foi pra Frente Alemã do Trabalho, fundada em 10 de maio de 1933: patrão e empregado no mesmo saco, com o partido mandando nos dois. E quem passou a decidir o salário foi funcionário nomeado pelo governo, os chamados curadores do trabalho. Sem sindicato, não sobrou com quem negociar.
Quem defende o regime vai dizer: mas ele acabou com o desemprego. E acabou. Eram mais de 6 milhões de desempregados no pior da crise. Em 1936, a fila tinha encolhido pra 1,5 milhão, um quarto do que era, e o país voltou ao nível de emprego de 1928.
Com o quê? Com arma. De cada 100 marcos que o governo gastava em 1933, 4 iam pro exército. Três anos depois, eram 39. Em 1938, metade do gasto público ia pra armamento e preparação de guerra.
E o salário? Segundo o Museu Histórico Alemão, aumento de salário devia ser evitado por causa do custo, e o que o salário do operário médio da indústria comprava ficou bem abaixo de 1928 até 1939. Emprego tinha. A sacola da feira é que voltava mais leve.
mal subiu e ficou até 1939 claramente abaixo do nível de 1928
Enquanto isso, a corrida das armas dava lucro alto pras empresas. E a Krupp, aquela da sala de fevereiro, estava entre as que lucraram. O trabalho veio. O pão não voltou ao que era. E o lucro voltou pra mesma sala de fevereiro.
E toda aquela fábrica de arma tinha um destino: a guerra.
Fontes deste capítulo:IGMETALLGHDI-2MAIOHMDDHM-ECONDIW, 5 fontes
Als die Nazis die Gewerkschaftshäuser überfielen
https:/Prohibition of Free Trade Unions: SA Members Seize the Union Office on Engelsufer in Berlin (May 2, 1933)
https:/2 May 1933: dissolution of German trade unions
https:/Industrie und Wirtschaft
lag bis 1939 deutlich unter dem Niveau von 1928
Von der Weltwirtschaftskrise bis zur Machtergreifung der Nazis
https:/A segunda sala
Agora, a frase brasileira. Em 9 de novembro de 2018, o presidente recém-eleito fez uma transmissão ao vivo numa rede social, logo depois de se reunir com o futuro ministro da Economia. E disse:
Os empresários têm dito para mim que nós temos de decidir: ou todos os direitos e desemprego ou menos direitos e emprego.
Veja de onde vem a escolha: os empresários têm dito. E o que ficou fora dela? Nessa escolha, o patrão ganhar um pouco menos nem aparece no cardápio.
Não é a mesma coisa que 1933: em 2018 ninguém invadiu sindicato nem cancelou eleição, e quem disser que é igual está errado. Mas o movimento é o mesmo. O pedido do patrão chega ao trabalhador como se fosse lei da natureza, que nem chuva, pela boca de um político que acabava de se eleger.
Fontes deste capítulo:ESTADAO2018, 1 fonte
O Brasil tem direito para tudo, só não tem emprego
Os empresários têm dito para mim que nós temos de decidir: ou todos os direitos e desemprego ou menos direitos e emprego.https:/
Fecho: a manhã seguinte
Volta pro campo de Tempelhof. Os dirigentes que mandaram os filiados pra festa não eram traidores. Apostaram que, baixando a cabeça, salvavam o sindicato. Na manhã seguinte, o sindicato era justamente o que os nazistas vieram fechar.
Adorno fechou aquela palestra de 1967 dizendo que é preciso aprender os truques, dar nome a eles e descrevê-los com precisão. E que o que vem depois está com a gente.
a evolução futura do fenômeno depende de nós
Pra nós, esse "a gente" é quem trabalha. O que aconteceu com os donos daquela sala de fevereiro depois da guerra fica pra outra história.
O feriado, quem manda dá de presente. O que o patrão quer é o dia 2. Por isso a pergunta que importa não é se você foi enganado. É quem vai estar do teu lado na manhã seguinte.
Fontes deste capítulo:DHM-1MAIOIGMETALLADORNO-PAIVAADORNO-SUHRKAMP, 4 fontes
1. Mai Feiertag
https:/Als die Nazis die Gewerkschaftshäuser überfielen
https:/Resenha de "Aspectos do novo radicalismo de direita"
a evolução futura do fenômeno depende de nóshttps:/
Aspects of Contemporary Right-Wing Radicalism
How these things continue, and the responsibility for how they continue, ultimately lies with us.https:/





