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O laboratório na Suíça
As maiores fábricas de lâmpada do mundo fizeram um trato entre elas. Toda fábrica do trato mandava amostra para um laboratório na Suíça, e lá as lâmpadas ficavam acesas enquanto alguém anotava quantas horas elas aguentavam. Durou mais do que o combinado? A fábrica levava multa.
O combinado era 1.000 horas. Acesa quatro horas por noite, isso dá uns oito meses. Antes do trato, lâmpada de casa costumava durar de 1.500 a 2.000 horas: mais de um ano.
Quem combinou não foi governo nenhum. Foram as próprias fábricas, sentadas numa sala em Genebra: a alemã Osram, a holandesa Philips e a americana General Electric, por meio de filiais. E uma dessas filiais, diz um tribunal americano, ficava aqui. No Brasil.
Concorrente que combina pra não competir tem nome: cartel. Esse era o Cartel Phoebus, e o que ele combinou ficou no papel.
Você aprendeu que a concorrência obriga a empresa a fazer o melhor produto. Em Genebra, os concorrentes sentaram na mesma mesa e decidiram juntos quanto a sua lâmpada ia durar. É como as marcas de chinelo combinarem que a tira tem que arrebentar antes do fim do verão.
E a conta que eles fizeram ali não morreu com eles. Está na sua impressora, no seu celular e no carro. Quem paga essa conta nunca sentou naquela mesa: tem gente pagando com o salário, aqui, e gente pagando com o pulmão, do outro lado do mundo.
Fontes deste capítulo:IEEEGE49WIKI-PH-DATASdisputada, 3 fontes, 1 disputada
The Great Lightbulb Conspiracy
If any factory submitted bulbs lasting longer or shorter than the regulated life span for its type, the factory was obliged to pay a fine.https:/
United States v. General Electric Co., 82 F.Supp. 753
a paramount concern in what would afford the maximum return in profits to the manufacturerhttps:/
Phoebus cartel (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/A mesa de Genebra
Foi em 23 de dezembro de 1924, antevéspera de Natal, em Genebra, na Suíça. Ali sentaram a Osram, a Philips, a francesa Compagnie des Lampes, a húngara Tungsram, a inglesa AEI e a japonesa Tokyo Electric. A General Electric não assinou com o próprio nome: entrou pelo braço internacional, a International General Electric, e por filiais de fora dos Estados Unidos.
A General Electric do Brasil e do México está na lista de quem assinou. Quem diz é uma sentença da Justiça americana de 1949, no processo do governo dos Estados Unidos contra a General Electric. O historiador Markus Krajewski, que leu os arquivos do cartel, chega ao mesmo ponto por outro caminho: a GE era representada também por um grupo de filiais no Brasil, na China e no México.
Anderson, Meyer & Co., Ltd., Australian General Electric Co., Ltd., General Electric Company of Cuba, General Electric, S.A. (Brazil and Mexico), South African General Electric, and defendant Philips, were among the signators
O que esse papel mudou nas lâmpadas vendidas no Brasil, as fontes que a gente achou não dizem. Que a filial daqui assinou, isso a sentença diz.
O contrato tinha nome de festa: Convention for the Development and Progress of the International Incandescent Electric Lamp Industry, a convenção para o desenvolvimento e o progresso da indústria internacional de lâmpadas elétricas incandescentes.
Na prática, eles fatiaram o mundo. Cada país ou região tinha os seus fabricantes e a sua cota de venda, igual camelô dividindo a calçada: daqui pra lá é meu, dali pra cá é seu. Quem invadisse o pedaço do outro, vendendo além da cota, também pagava multa. E as cotas eram ajustadas o tempo todo.
Agora pensa na tal concorrência. Concorrência é uma loja tentar roubar o cliente da outra. Em Genebra, roubar cliente do sócio dava multa: os concorrentes tinham virado sócios. E com todo mundo sentado junto, sobrou um jeito de vender mais lâmpada sem roubar cliente de ninguém. Fazer a do cliente acabar antes.
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The Great Lightbulb Conspiracy
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Phoebus cartel (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/O laboratório e a multa
Eram centenas de fábricas, e todas mandavam amostra pro laboratório central do cartel, na Suíça. Lá, a lâmpada era testada até queimar, e o que valia era o número de horas.
If any factory submitted bulbs lasting longer or shorter than the regulated life span for its type, the factory was obliged to pay a fine.
A regra multava a lâmpada que durasse mais, e também a que durasse menos do que o combinado. É justo dizer: no papel, era um padrão. Só que padrão a gente julga pelo resultado.
Em oito anos, a lâmpada perdeu um terço da vida. Em 1926, a lâmpada de teste durava em média 1.800 horas. No ano fiscal de 1933-34, 1.205 horas. E nessa altura nenhuma fábrica do cartel passava de 1.500.
O padrão só andou pra um lado. E enquanto a lâmpada encurtava, a venda crescia: de 335,7 milhões de lâmpadas no ano fiscal de 1926-27 para 420,8 milhões em 1930-31. Em quatro anos, uma lâmpada a mais pra cada quatro que já vendiam.
E fazer lâmpada foi ficando mais barato nesses anos. O custo caiu; o preço ficou mais ou menos parado. A diferença virou lucro. Igual padaria que paga menos na farinha e não baixa um centavo no pão.
Fontes deste capítulo:IEEE, 1 fonte
The Great Lightbulb Conspiracy
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O papel que diz o motivo
Até aqui são números. O motivo, quem conta são eles mesmos, por escrito. Em 1927, a Tokyo Electric mandou um memorando ao cartel contando que, depois de encurtar a vida das suas lâmpadas, onde vendia uma passou a vender cinco. E achava que punir esse crescimento seria injusto, porque venda demais, no cartel, também dava multa.
Anton Philips, o chefe da Philips, escreveu a um executivo da International General Electric reclamando de sócios. Alguns estavam vendendo lâmpada que durava mais do que o combinado. Ele chamou isso de prática muito perigosa, com a pior influência sobre o faturamento, e escreveu que, depois do esforço enorme pra sair de um período de lâmpadas de vida longa, era da maior importância não afundar de novo no mesmo lamaçal.
After the very strenuous efforts we made to emerge from a period of long life lamps, it is of the greatest importance that we do not sink back into the same mire
Lâmpada que dura era o lamaçal.
Nos Estados Unidos, a General Electric foi a julgamento por monopólio, por mandar quase sozinha no mercado. E o processo abriu as gavetas dela. Um dos papéis é sobre lâmpada de lanterna, que tinha a vida medida em pilhas: quantos jogos de pilha ela aguentava antes de queimar. Nos anos 1920, a da empresa aguentava três.
Lâmpada e pilha gastavam juntas na lanterna, e os fabricantes de pilha toparam baixar pra dois. É como o dono do posto combinar com a montadora um carro que bebe mais. Uma carta interna disse que isso tinha funcionado de forma muito satisfatória.
Em 1932, a engenharia da empresa estudou o passo seguinte: uma lâmpada que durasse uma pilha só. E fez a conta: lâmpada com metade da vida, negócio crescendo de 60 a 70 por cento. O que era dez ia virar dezesseis, dezessete. No tribunal, a General Electric disse que a mudança era pra dar mais luz e baixar o custo da luz, e ficou na lâmpada de duas pilhas.
We might, therefore, expect a 60 to 70 percent increase in lamp business rather than 100 percent increase if the life of our lamps are cut in half.
O processo tem outro caso, de Natal. A empresa vendia uma lampadinha de árvore de Natal feita pra durar 500 horas, e uma lâmpada noturna de tamanho parecido e mesmo encaixe, feita pra durar 2.000. Uns revendedores pensaram em comprar a noturna pra usar na árvore.
Um memorando de 30 de julho de 1937 mandou os gerentes e vendedores investigarem esses pedidos. Um dos motivos escritos: os fabricantes de enfeite de Natal não queriam perder a venda da lampadinha de árvore. No tribunal, a General Electric respondeu que a noturna era fraca e frágil demais pra árvore.
our Xmas Tree Outfit manufacturers object (...) because they do not want to lose the sale of C-7-½ multiple Xmas tree lamps
O juiz olhou os dois casos e escreveu o que viu: o que mandava ali era a preocupação com o maior lucro possível pra fábrica. E a empresa tinha poder de encurtar a vida da lâmpada de lanterna e de empurrar uma lampadinha de vida curta no lugar de outra que durava quatro vezes mais.
there was manifested in the two situations a paramount concern in what would afford the maximum return in profits to the manufacturer and that General Electric had the power in the instance of the flashlight lamp, to shorten the life of the lamp, and in the instance of the Christmas tree lamp, at least, to promote a product with a short life for a specific use over one that had four times its life
Só que existe uma resposta da indústria pra tudo isso. E a melhor porta pra ela é uma lâmpada que nunca passou por cartel nenhum.
Fontes deste capítulo:IEEEGE49, 2 fontes
The Great Lightbulb Conspiracy
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United States v. General Electric Co., 82 F.Supp. 753
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"Mas lâmpada que dura gasta mais"
Num quartel de bombeiros de Livermore, na Califórnia, tem uma lâmpada acesa desde 1901. Foi feita à mão pela Shelby Electric Company, uma fábrica de Ohio, com filamento de carbono, antes de existir cartel.
Tem câmera ligada nela, ao vivo. Em 2011, comemoraram 1 milhão de horas acesa: a vida de mil lâmpadas do cartel, uma atrás da outra. Apagou, sim: numa mudança de quartel, em 1976, e por umas dez horas em 2013.
E aqui vem a objeção, e ela é séria. Essa lâmpada brilha que nem luz de cabeceira, uns 4 watts. Lâmpada incandescente funciona esquentando um fio até ele brilhar. De cada 100 reais de energia que ela gasta, menos de 5 viram luz; o resto é calor. Ela é mais aquecedor do que lâmpada.
Baixa um pouco a voltagem, uns 5%, e a vida dobra. Só que a luz cai uns 16%. Igual vela: chama alta clareia mais, e acaba antes. Ou seja: lâmpada que dura muito dá menos luz pela mesma energia, e pra ter a mesma claridade a conta de luz sobe.
Esse é o argumento real da indústria. A General Electric levou ao tribunal uma conta mostrando isso: duas lâmpadas de 750 horas sairiam mais barato pro consumidor do que uma de 1.500, pela mesma luz. E a conta fecha: o que pesa no bolso é o custo da luz, não o da lâmpada.
two 100 watt lamps having design lives of 750 hours would cost the consumer less than one 100 watt lamp, to operate for the same light designed for a 1500 hour life
Em 1951, o fiscal da concorrência do governo britânico, a Comissão de Monopólios, rejeitou a acusação de lâmpada feita pra quebrar. Disse que não existe vida certa pra lâmpada, e que as 1.000 horas eram um meio-termo.
there can be no absolutely right life [of light bulbs]
E aquele tribunal americano de 1949 também recusou uma parte da acusação do governo: a de que a empresa podia vender uma lâmpada comum bem mais eficiente. O juiz escreveu que a vida da lâmpada está amarrada à força da luz: quanto mais forte a luz, mais curta a vida.
A física é real, e a gente não vai fingir que não é. Mas olha o que ela não explica. Se mil horas fosse o melhor pra quem compra, ninguém precisava ser multado pra escolher outra coisa. No semáforo, por exemplo, se usava lâmpada de vida longa, mesmo dando menos luz. Quanto deve durar depende de onde a lâmpada vai. Em Genebra, quem decidiu pra todo mundo foi quem vendia.
Segundo ponto: no papel, a justificativa era mais luz por watt. Mas os mesmos papéis fazem a conta da venda: venda cinco vezes maior, negócio crescendo 60, 70 por cento. E terceiro, e essa é a nossa leitura: se o motivo fosse poupar o bolso de quem compra, a queda do custo tinha chegado ao preço. Não chegou.
A física era real. E foi usada de desculpa. O que eles defendiam na mesa era a venda.
Fontes deste capítulo:IEEEGE49WIKI-PHdisputadaGWRBGRWIKI-INC, 6 fontes, 1 disputada
The Great Lightbulb Conspiracy
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United States v. General Electric Co., 82 F.Supp. 753
a paramount concern in what would afford the maximum return in profits to the manufacturerhttps:/
Phoebus cartel (a Comissão de Monopólios britânica, 1951) (disputada)
there can be no absolutely right life [of light bulbs]
Aqui os historiadores discordam.
https:/A lâmpada de Livermore, acesa há mais de 100 anos num quartel de bombeiros
https:/This Light Bulb Has Been On For Over A Century
https:/Incandescent light bulb
A 5% reduction in voltage will double the life of the bulb, but reduce its light output by about 16%.https:/
O rival existia, a resposta foi a trava
O cartel acabou com a Segunda Guerra Mundial: com o mundo em guerra, os sócios não tinham mais como combinar nada. E aí volta o mito do começo. Sem cartel, por que um concorrente não vende a coisa que dura e leva o cliente de todo mundo?
Dentro do próprio cartel, esse rival existiu: os sócios que vendiam lâmpada de vida mais longa. O que eles receberam foi a carta de reclamação do Anton Philips. E quando quase não tem concorrência, quem domina decide. O juiz americano de 1949 escreveu isso sobre a General Electric: como mandava no mercado quase sem concorrente, ela tinha o poder de decidir quanto ia durar a lâmpada da indústria inteira.
had the power to set the standard of efficiency of incandescent electric lamps for the entire industry and in so doing to determine what should be their length of life, and this constitutes an attribute of monopoly
E hoje, sem contrato nenhum, a mesma coisa aparece. Começa pela impressora. Outras marcas vendiam cartucho pras impressoras da HP: rival existia, ali, na prateleira do lado. Só que o cartucho tem chip. Em setembro de 2016, uma atualização fez várias impressoras HP recusarem cartucho com chip de outra marca.
O cartucho estava cheio de tinta. A impressora é que recusava. É como a geladeira se recusar a gelar cerveja de outra marca. A HP pediu desculpa por não ter avisado direito. Em 2020, a autoridade de concorrência da Itália multou a empresa em 10 milhões de euros, porque na loja ninguém avisava que a impressora só aceitava a tinta da casa.
A Keurig, marca americana de cafeteira de cápsula, fez igual. Máquina se compra uma vez; cápsula, o tempo todo. E tinha cápsula de outras marcas, de supermercado, servindo na máquina dela. Em 2014, a máquina nova passou a ler uma tinta na tampa da cápsula oficial. Sem a marca, não fazia café.
Nos dois casos, o rival estava lá. A resposta não foi fazer um produto melhor. Foi trancar.
E o motivo, o presidente da HP, Enrique Lores, explicou numa entrevista ao canal americano CNBC, em janeiro de 2024. Toda vez que alguém compra uma impressora, disse ele, é um investimento da HP naquele cliente. E se esse cliente não imprime o bastante, ou não usa a tinta deles, é um mau investimento. Na mesma entrevista, disse que o objetivo de longo prazo é transformar a impressão numa assinatura.
Every time a customer buys a printer, it's an investment for us. We are investing in that customer, and if that customer doesn't print enough or doesn't use our supplies, it's a bad investment.
Tá aí a conta, na boca de quem faz: pro lucro, cliente que volta vale mais que cliente que compra uma vez e vai embora. É a mesma conta da Tokyo Electric em 1927: vida mais curta, venda cinco vezes maior. E a gente lê o resto assim: na loja, você vê o preço. Quanto a coisa dura, você só descobre depois de pagar.
Por isso o cartel não foi um desvio. Ele pôs num contrato uma conta que o presidente da HP repete na TV cem anos depois.
Só que essa conta tem um ponto fraco. Em 2015, em três meses, a venda de máquinas e acessórios da Keurig caiu 23%, quase um quarto. E o presidente da empresa, Brian Kelley, admitiu numa conversa com analistas do mercado que errou: tinha tirado o filtro reutilizável, o que aceitava qualquer café. Disse que subestimou a paixão do consumidor, e prometeu trazer de volta.
Quite honestly, we were wrong. We underestimated the passion the consumer had for this. We missed it. We shouldn't have taken it away. We're bringing it back.
Quem fez a Keurig recuar não foi um concorrente com uma máquina melhor. Foi quem comprava.
Fontes deste capítulo:IEEEGE49WIKI-PH-DATASdisputadaHP-AIHP-ITHP-CNBCK-SNK-FO, 8 fontes, 1 disputada
The Great Lightbulb Conspiracy
If any factory submitted bulbs lasting longer or shorter than the regulated life span for its type, the factory was obliged to pay a fine.https:/
United States v. General Electric Co., 82 F.Supp. 753
a paramount concern in what would afford the maximum return in profits to the manufacturerhttps:/
Phoebus cartel (disputada)
Aqui os historiadores discordam.
https:/A desculpa da HP pela atualização que bloqueou cartuchos de outras marcas
https:/Multa da autoridade antitruste italiana (AGCM) à HP por barrar cartuchos não originais
https:/Entrevista de Enrique Lores, presidente da HP, à CNBC
Every time a customer buys a printer, it's an investment for us. We are investing in that customer, and if that customer doesn't print enough or doesn't use our supplies, it's a bad investment.https:/
New Keurig designed not to work with private label pods
https:/Reportagem sobre a reação contra a trava de cápsulas da Keurig
Quite honestly, we were wrong. We underestimated the passion the consumer had for this. We missed it. We shouldn't have taken it away. We're bringing it back.https:/
O celular, o parafuso e o banco
Agora, o celular. Todo mundo já desconfiou que ele fica lento de propósito quando sai o modelo novo. Em dezembro de 2017, usuários perceberam que, trocando a bateria velha, o iPhone voltava a ficar rápido. Testes independentes confirmaram, e a Apple admitiu.
Uma atualização deixava mais lento o iPhone com bateria gasta. E o motivo era real: bateria velha fazia o aparelho desligar sozinho. Que fosse pra vender modelo novo, isso não ficou provado. O problema é que a Apple não contou.
A Itália multou a Apple em 10 milhões de euros, em 2018. Na França, em 2020, um acordo de 25 milhões, por não avisar. Nos Estados Unidos, um acordo de até 500 milhões de dólares: 25 dólares por iPhone.
E no Brasil? Um instituto pediu quase 1 bilhão de reais na Justiça, e o Tribunal de Justiça do Distrito Federal julgou a ação improcedente. O desembargador viu a Apple comprometida com a experiência do usuário, e citou a troca de bateria a 149 reais. Isso não encaixa fácil, e a gente diz: tinha motivo técnico, e um tribunal daqui achou que estava tudo certo.
comprometida com a experiência do usuário
Mas a pergunta de fundo nunca foi só a bateria. É quem tem a chave pra consertar. Em janeiro de 2011, o iFixit, um site americano de conserto, viu que o kit de 54 pontas deles, que abria quase qualquer eletrônico, não abria o iPhone 4. Nos Estados Unidos, a assistência da Apple trocava o parafuso comum por um de cinco pontas, o pentalobe.
O presidente do iFixit, Kyle Wiens, acusou: a Apple tinha escolhido esse parafuso justamente por ser novo, garantindo que a ferramenta de conserto fosse rara e cara. A Apple nunca explicou a escolha.
They chose this 'Pentalobe' fastener specifically because it was new, guaranteeing repair tools would be both rare and expensive
E tem a versão mais descarada. Em agosto de 2022, no Reino Unido, a BMW passou a cobrar assinatura pelo banco aquecido: 15 libras por mês, ou um pagamento único, pra ligar um aquecedor que já tinha saído de fábrica dentro do banco. É comprar a casa e pagar mensalidade pra ligar o chuveiro que já veio no banheiro.
A reação dos clientes foi tão ruim que a BMW desistiu da assinatura em 2023. O diretor de vendas, Pieter Nota, disse à revista britânica Autocar que as pessoas sentiam que tinham pago duas vezes.
People feel that they paid double – which was actually not true, but perception is reality, I always say
A peça estava lá. O que faltava era pagar de novo. É o lamaçal do Anton Philips, com nome de assinatura.
Fontes deste capítulo:AP-DEZ17AP-USAP-ITAP-FRAP-BRIFXIFX-WIENSdisputadaBMWBMW-NOTA, 9 fontes, 1 disputada
A desculpa da Apple e a troca de bateria mais barata
https:/O acordo de até US$ 500 milhões da Apple nos Estados Unidos
https:/Multa da AGCM à Samsung e à Apple
https:/Acordo da Apple com a autoridade francesa de defesa do consumidor
https:/A ação contra a Apple no Tribunal de Justiça do Distrito Federal
comprometida com a experiência do usuáriohttps:/
O iPhone 4 e os parafusos pentalobe (levantamento do iFixit)
https:/A acusação do iFixit sobre o parafuso pentalobe (disputada)
They chose this 'Pentalobe' fastener specifically because it was new, guaranteeing repair tools would be both rare and expensive
Aqui os historiadores discordam.
https:/A assinatura do banco aquecido da BMW no Reino Unido
https:/A BMW desiste da assinatura do banco aquecido
People feel that they paid double – which was actually not true, but perception is reality, I always sayhttps:/
Quem arrancou o direito de consertar
Se a conta empurra pra quebrar e pra prender o conserto, quem empurra de volta? Nos Estados Unidos, em 15 de janeiro de 2025, o fiscal da concorrência do governo, a Comissão Federal de Comércio (FTC), processou a fabricante de trator John Deere, junto com os procuradores-gerais de Illinois e de Minnesota.
A acusação: o programa completo de conserto do trator só existia nas concessionárias da marca. Com isso, o agricultor pagava mais caro e esperava mais, às vezes com a colheita esperando junto. É como o seu carro só poder abrir o capô na concessionária, e o mecânico do bairro ficar de braço cruzado.
A empresa chamou a acusação de sem fundamento. Em julho de 2026, fez um acordo: por 10 anos, agricultor e oficina independente têm que ter o mesmo programa, manual e ferramenta que a concessionária tem.
Na Europa, desde 20 de junho de 2025, celular novo vendido lá tem que ter peça importante à venda por sete anos depois que o modelo sai da loja.
E aqui? A regra brasileira, o Decreto 2.181, de 1997, manda a fábrica ter peça de reposição pelo menos enquanto durar a vida útil do produto. Só que não diz quantos anos é a vida útil de nada. Nem da geladeira, nem do celular.
por período razoável de tempo, nunca inferior à vida útil do produto ou serviço
Tem um projeto de lei no Senado, o PL 805, de 2024, que proíbe fazer o produto durar menos de propósito. Ele garante peça por pelo menos cinco anos, e a autorizada não pode negar conserto só porque você já levou no técnico do bairro. Já passou numa comissão, em maio de 2026. Desde 30 de setembro, está pronto pra ser votado na seguinte. Ainda não é lei. Até virar, a vida útil do seu celular continua sem número.
Olha de onde veio cada uma dessas regras: processo, lei, projeto. Nenhuma veio de concorrente oferecendo coisa mais durável. E enquanto a regra não vem, a coisa que quebrou vai pra algum lugar.
Fontes deste capítulo:FTCDEERE26UE-CELD2181PL805, 5 fontes
Processo da FTC e de dois estados contra a Deere & Company
https:/O acordo da Deere com a FTC sobre o direito de consertar
https:/Smartphones and tablets: ecodesign (Regulamento 2023/1670)
https:/Decreto nº 2.181, de 20 de março de 1997
por período razoável de tempo, nunca inferior à vida útil do produto ou serviçohttps:/
Projeto de Lei 805/2024
https:/Onde a conta vai parar
Em 2022, o mundo jogou fora 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico. Pela conta da ONU, dá uma fila de caminhão, para-choque com para-choque, mais ou menos dando a volta na Terra. De cada dez quilos, só uns dois chegam à reciclagem com registro: 22,3%. O resto some da conta.
Cerca de 3,3 milhões de toneladas saíram de países ricos pra países mais pobres, a maior parte sem controle e sem papel. É o vizinho que joga o lixo dele no seu quintal.
Em 2016, a Basel Action Network, uma organização ambiental americana, escondeu rastreadores GPS em 200 aparelhos velhos: computador, televisão, impressora. Entregou tudo em pontos de reciclagem e de doação nos Estados Unidos, e foi ver onde parava. Um terço atravessou o oceano. A maioria foi pra área rural de Hong Kong.
Lá, a reportagem da PBS achou impressora empilhada a uns 4,5 metros de altura: duas portas, uma em cima da outra. Quem quebrava as impressoras estava coberto de pó de toner, que provavelmente dá câncer. Em outro ferro-velho, lâmpada fluorescente quebrada soltava vapor de mercúrio, e ninguém usava máscara. Muitos ali eram imigrantes sem documento, sem proteção nenhuma.
Teve incêndio nesses ferros-velhos, com fumaça preta e tóxica, e solo e rio contaminados mais de um mês depois. A impressora que pra quem vende é investimento termina assim, nas mãos de quem não ganhou nada com ela.
E o Brasil? É quem mais gera lixo eletrônico na América Latina: 2,4 milhões de toneladas em 2022. Como se cada brasileiro jogasse fora quase 12 quilos.
Então, quem paga? Quem compra de novo, com o salário de sempre. E quem desmonta o que sobrou, com a mão e o pulmão. Quem não paga é quem sentou na mesa. Esse fica com a venda de novo.
Fontes deste capítulo:GEM24GEM-BRBAN, 3 fontes
Global E-waste Monitor 2024
https:/O lixo eletrônico do Brasil no Global E-waste Monitor 2024
https:/America's e-waste: GPS tracker tells all
a probable carcinogenhttps:/
A lâmpada de antes da reunião
Em Genebra, ninguém precisou ser vilão de filme. Bastou pôr no papel a conta que o presidente da HP fez na TV. Por isso, pra nós, o problema não é uma ou outra empresa malvada. É um sistema em que quanto as coisas duram é decidido por quem lucra com a troca.
E essa decisão já mudou de mão algumas vezes. A Keurig voltou atrás pela reação de quem comprava. A BMW também. E a John Deere, antes do acordo com o governo, pagou 99 milhões de dólares, num processo coletivo, a quem tinha pago conserto pra ela desde 2018.
Nenhum desses recuos veio de concorrente melhor. Veio de quem perdia com a regra, cobrando junto. O que dá pra cobrar aqui tem nome: peça à venda, manual, ferramenta, conserto em qualquer oficina, e um número escrito na lei pra vida útil.
Lá em Livermore, a lâmpada de 1901 segue pendurada no teto. Fraquinha, 4 watts, numa câmera ao vivo. Ela não prova que toda lâmpada podia durar um século. Prova que quanto uma coisa dura é uma decisão. Em 1924, ela foi tomada numa mesa em Genebra, sem ninguém que compra lâmpada sentado nela.
Hoje um pedaço dela espera votação numa comissão do Senado: o projeto de lei 805, de 2024. Liga pro gabinete do seu senador e pergunta o que ele vai fazer com esse projeto.
Fontes deste capítulo:GWRHP-CNBCK-FOBMW-NOTADEERE26PL805, 6 fontes
A lâmpada de Livermore, acesa há mais de 100 anos num quartel de bombeiros
https:/Entrevista de Enrique Lores, presidente da HP, à CNBC
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Reportagem sobre a reação contra a trava de cápsulas da Keurig
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A BMW desiste da assinatura do banco aquecido
People feel that they paid double – which was actually not true, but perception is reality, I always sayhttps:/
O acordo da Deere com a FTC sobre o direito de consertar
https:/Projeto de Lei 805/2024
https:/




