Em 1897, o Exército que cercava Canudos, um arraial de sertanejos pobres no interior da Bahia, acampou num morro chamado Favela. O nome vinha de uma planta da caatinga. Lá de cima, a artilharia bombardeava as casas de taipa do arraial. Na guerra de Canudos, a Favela era o lugar de onde se atirava.
Depois da guerra, um morro no centro do Rio de Janeiro, o da Providência, passou a ser chamado de Morro da Favella. Como o nome viajou do sertão até lá, ninguém provou. A história mais contada fala de soldados que voltaram de Canudos e montaram barraco no morro pra cobrar o salário atrasado; a socióloga Licia Valladares chama essa versão de mito de origem. O que está no papel é o nome. Na década de 1910, favela já era palavra comum, o nome do bairro do pobre.
Repare na viagem que a palavra fez. Em Canudos, Favela era a posição de quem segurava o canhão. No Rio, virou o nome de quem mora embaixo da mira. O nome saiu do lado do atirador, foi parar do lado do alvo, e ficou.
Em 1906, o engenheiro Everardo Backheuser fez pro governo um relatório sobre as moradias populares do Rio. Ao contar a origem do nome, juntou o "reduto dos fanáticos" com o "reduto da miséria". Reduto é palavra de guerra: é onde o inimigo se entrincheira. Pelas duas expressões que sobraram dele, o relatório parece olhar pro morro carioca do jeito que o Exército olhava pro arraial. No papel do governo, o bairro do pobre parece já nascer como posição a ser tomada.
Mais de cem anos depois, esse jeito de olhar mudou menos do que deveria. Pra muita gente que nunca subiu um morro, favela é sinônimo de perigo antes de ser endereço de alguém. No noticiário, ela costuma aparecer como lugar de onde vem a ameaça, quase nunca como o lugar de onde sai, de madrugada, a gente que limpa o escritório, dirige o ônibus e levanta o prédio do resto da cidade. A pergunta "por que tanta gente precisou morar ali?" quase não aparece. A pergunta "como controlar quem mora ali?" aparece todo dia.
Nome não é detalhe. Quem dá nome a um lugar escolhe de onde ele vai ser visto. Junto com a palavra, o Brasil herdou o ponto de vista de quem estava lá em cima, com o canhão, olhando pra baixo. E herdou sem perceber, porque palavra que pega deixa de ser notada: vira só o jeito de dizer.
Na guerra, a Favela era o alto de onde se mirava. Na cidade, virou o nome do alvo. Desfazer essa viagem não depende de trocar a palavra. Depende de trocar o lugar de onde se olha: ver o morro do ponto de vista de quem mora nele, e não de quem aponta pra ele.
Por que atiraram naquela gente, lá no sertão, está no episódio sobre Canudos (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

