Em janeiro de 1987, o pregador americano Oral Roberts mandou uma carta e foi pra televisão com um prazo. Se os fiéis não mandassem 8 milhões de dólares até março, Deus ia levá-lo desta pra melhor. Nas palavras que ele atribuiu a Deus: "I want you to get this going in one year or I will call you home!". Chegaram mais de 9 milhões. Ele morreu em 2009, mais de duas décadas depois.
O pedido tinha uma ideia por trás, que o próprio Roberts tinha publicado em 1970: a oferta é uma semente, e Deus devolve a colheita multiplicada. E a semente devia ser plantada a partir da necessidade. Ou seja: a hora certa de dar é a hora em que falta.
Vale parar nessa frase, porque ela não ficou na igreja de Tulsa. É a lógica de muita coisa que se vende hoje pra quem está no aperto: a promessa de que, se você puser o pouco que tem no lugar certo, ele volta multiplicado. Quem tem sobra não precisa de milagre. A promessa mira em quem está sem. E o risco fica sempre com quem deu, nunca com quem recebeu.
A historiadora Kate Bowler, que é cristã e passou dez anos entrevistando essas igrejas, explica por que isso cola. A palavra "abençoado" serve direitinho a uma sociedade que diz que o sonho americano vem do esforço, não da sorte. Se deu certo, foi mérito, foi fé. Se não deu, faltou fé. É a meritocracia com versículo: a culpa do sistema vira culpa de quem perdeu dentro dele. Bowler conta que, quando um fiel adoece e morre, a vergonha se soma ao luto.
Ao mesmo tempo, ela escreve que admira essa gente: os fiéis "se recusam a aceitar como intransponível a dívida que esmaga". Essa recusa é legítima. A esperança é de quem dá, e ninguém tem o direito de rir dela. O problema é quem transforma essa esperança em arrecadação.
E no Brasil essa crença encontra mais resistência do que se imagina. Numa pesquisa do Pew Research Center de 2014, 56% dos protestantes brasileiros disseram que Deus dá riqueza e saúde a quem tem fé suficiente. Parece muito, mas foi o menor número entre os países pesquisados na região; na Venezuela, foram 91%.
Tem uma semente que funciona, e ela corre no sentido contrário. Na promessa do cem vezes, tirada do Evangelho de Marcos, o trecho vem logo depois de Jesus mandar um homem rico vender tudo e dar aos pobres. No Deuteronômio, a cada três anos, o dízimo ficava na cidade pro estrangeiro, o órfão e a viúva. Quem tem, paga. Quem não tem, come. Hoje isso tem nome: imposto de quem tem virando escola, posto de saúde e merenda. Essa colheita existe, e não depende de prazo na televisão.
Como essa crença chegou ao Brasil está no episódio sobre o dízimo e a teologia da prosperidade (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

