Tem uma explicação pronta pro crescimento da extrema direita, e ela é confortável pra quem repete: gente desesperada, com fome, sem estudo, cai em qualquer conversa. A Alemanha do começo dos anos 1930 parecia a prova. Milhões estavam sem emprego, e o partido nazista virou o maior do país. Se a fome fizesse nazista, a conta fechava.
Em 2008, uma equipe do professor Gary King, de Harvard, refez a conta de quem votou em quem. E ela não fecha. O desempregado votou, em proporção, menos nos nazistas que o resto, e mais nos comunistas. Quem apoiou os nazistas acima da média foi outra gente: o dono da lojinha, o artesão por conta própria, o pequeno agricultor, a empregada doméstica. Os pobres que trabalham, atingidos pela crise, mas com pouco risco de perder o emprego. E o operário de fábrica? Segundo o cientista político Jürgen Falter, a partir de julho de 1932 o partido nazista foi o mais votado entre os operários, só que um pouco abaixo do resto do país: 27% dos operários, contra 31% de todo o eleitorado apto a votar.
O fascismo não cresceu no fundo do poço. Cresceu na beirada, entre quem tinha pouco e tinha pavor de perder esse pouco. E repare no que quase toda essa gente tinha em comum, além do medo: não estava numa fábrica, num sindicato, numa assembleia. O dono da venda via o caderno de fiado engordar atrás do próprio balcão, sem colega do lado e sem ninguém com quem dividir o susto.
Isso diz muito sobre a sociedade de hoje. O medo de cair é o combustível, e a falta de um coletivo é o que faz ele pegar fogo. Quem enfrenta a crise com outros do lado sente o aperto como problema comum, que se resolve junto. Quem enfrenta por conta própria sente o mesmo aperto como ameaça pessoal, e vai atrás de quem prometer proteger o pouco que tem.
No Brasil, a beirada cresceu e ganhou nome bonito: empreendedor. Em 2025, segundo o IBGE, eram 26,2 milhões de pessoas trabalhando por conta própria, um em cada quatro brasileiros que trabalham, recorde da série. De cada quatro, quase três não têm nem CNPJ. E numa pesquisa Datafolha de junho de 2025, 59% disseram preferir trabalhar por conta a ter carteira assinada. Dá pra entender: muita carteira assinada por aqui é chefe gritando e salário que não fecha o mês. Esses números não dizem em quem essa gente vota. Dizem onde ela está.
Por isso o desprezo não serve pra nada. Chamar de gado quem vota na extrema direita erra o diagnóstico e ainda empurra a pessoa pra quem a trata com consideração, mesmo que seja de mentira. A beirada não é burra. Tem medo, e tem motivo pra ter. O que falta é alguém chegar lá antes do conto, com coisa concreta: associação de entregador, cooperativa, sindicato que aceite quem não tem carteira, gente que apareça na hora do aperto e não só na hora do voto.
A beirada não é de ninguém. Fica com quem chegar primeiro e não for embora.
A beirada de 1932, a de hoje e o que o conto oferece a quem está nela estão no episódio sobre o conto da extrema direita (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

