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Quem segura a régua: o índice oficial e o salário de quem trabalha

Por Fio Vermelho ·

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Vídeo curto do pensamento: Quem segura a régua: o índice oficial e o salário de quem trabalha

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Em 1973, o governo da ditadura queria uma inflação baixa e foi pelo caminho mais curto: tabelou os preços. O índice do custo de vida passou a anotar o preço da tabela. Só que, na vida real, o produto tabelado sumia da prateleira e reaparecia por fora, mais caro, nos mercados paralelos. O índice olhava a tabela; a dona de casa olhava a prateleira. O número oficial do custo de vida no Rio fechou o ano em 13,7%.

Em 1974, o novo ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, refez a mesma conta, na mesma série. Deu 26,6%. Quase o dobro. De cada duas moedas de aumento nos preços, o índice tinha enxergado uma. Em agosto de 1977, gente do próprio governo admitiu publicamente que houve um erro no cálculo.

Se aquele número ficasse numa gaveta de estatístico, seria só um vexame técnico. Não ficava. O Memorial da Democracia resume em uma linha o que estava em jogo:

Esse era o índice que reajustava os salários dos trabalhadores.

Ou seja: o salário de quem trabalhava foi corrigido por uma régua que media metade da subida. Pelas contas do DIEESE, a perda acumulada dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema chegou a 34,1%. O sindicato lançou em 1977 a campanha pela reposição, outros sindicatos aderiram, e a reposição não veio. O erro foi admitido; a diferença ficou no bolso de quem paga salário.

Quem descobriu o tamanho do estrago não foi o governo por bondade. Foi gente que fazia conta do lado de cá: os economistas dos sindicatos, no DIEESE, e os próprios metalúrgicos que sentiam no mercado o que o índice não registrava. Segundo o DIEESE, a campanha da reposição "acendeu o pavio" da mobilização a partir do segundo semestre de 1977. Na sexta-feira 12 de maio de 1978, às 7 da manhã, cerca de 3 mil metalúrgicos da Scania, em São Bernardo do Campo, bateram o cartão e não ligaram as máquinas. Naquele ano o país teve 112 greves; no seguinte, 430.

A lição que fica é sobre como a sociedade funciona hoje. Número oficial tem cara de coisa neutra, de planilha, de ciência. Mas todo índice é feito por alguém, com alguma cesta, olhando para alguma prateleira. E o erro de um índice nunca se espalha por igual: quando ele mede a inflação pra baixo, quem vive de salário corrigido por ele perde, e quem paga o salário economiza. Até hoje, reajuste de salário, de aposentadoria e de aluguel se decide em cima de índice, e a discussão sobre qual índice usar quase sempre acontece numa sala onde quem trabalha não está.

Isso não é convite pra desconfiar de todo número. Desconfiar de tudo é o atalho preferido de quem vive de boato, e acaba no mesmo lugar: na mão de quem grita mais alto. O antídoto de 1977 foi outro. Foi ter régua própria, saber medir o próprio prejuízo e chegar à mesa com a conta feita. Foi a conta do lado de cá que virou greve. E, na leitura do próprio DIEESE, foi pra conter a onda de greves que o governo mudou a regra do reajuste em 1979.

Quem não mede a própria perda acaba aceitando a medida de quem lucra com ela.

O caminho inteiro, da tabela de 1973 à manhã da Scania, está no episódio sobre a ditadura vista de quem trabalhava (abre em outra aba).

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Fontes

4 fontes · todas confirmadas

FGV-ATLAS

Fonte confirmada.

Milagre econômico brasileiro (verbete) — Luís Aranha Correia do Lago, FGV/CPDOC, Atlas Histórico do Brasil

O tabelamento de 1973, o índice que registrava o preço da tabela, os mercados paralelos e a reestimativa de Simonsen, em 1974, do custo de vida do Rio em 1973: de 13,7% para 26,6%.

reestimaria a taxa de variação acumulada do ICV do Rio em 1973 de 13,7% para 26,6%

https://atlas.fgv.br/verbete/6001

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MEMORIAL

Fonte confirmada.

Os trabalhadores erguem a cabeça — Memorial da Democracia

O índice oficial de 1973 era o que reajustava os salários; a perda acumulada dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema chegou a 34,1%.

Esse era o índice que reajustava os salários dos trabalhadores.

https://memorialdademocracia.com.br/card/os-trabalhadores-erguem-a-cabeca

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ALMEIDA1977

Fonte confirmada.

Desarrollo capitalista y acción sindical — Maria Hermínia Tavares de Almeida, Revista Mexicana de Sociología, 1977

Em agosto de 1977, membros do governo reconheceram publicamente o erro no cálculo do custo de vida de 1973, usado para fixar os reajustes salariais.

en agosto de 1977, algunos miembros del gobierno reconocieron que hubo un error en el cálculo

https://revistamexicanadesociologia.unam.mx/index.php/rms/article/download/61800/54580/174795

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OLIVEIRA-RCT

Fonte confirmada.

Greves no Brasil, de 1978 a 2018 — C. R. Oliveira, Revista Ciências do Trabalho n. 15, DIEESE/ABET

A campanha pela reposição das perdas de 1973 como estopim das greves; a greve da Scania em 12/05/1978, às 7h, com cerca de 3 mil metalúrgicos; 112 greves em 1978 e 430 em 1979; a Lei 6.708 de 1979 como resposta do governo à onda de greves, na leitura do DIEESE.

Isso acendeu o pavio da mobilização dos trabalhadores a partir do segundo semestre de 1977, culminando nas greves de 1978.

https://rct.dieese.org.br/index.php/rct/article/download/233/pdf/702

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