Em setembro de 2026, uma empresa americana, a USA Rare Earth, fechou a compra da Serra Verde, a mina de terras raras de Minaçu, no norte de Goiás, por cerca de US$ 2,8 bilhões, uns R$ 14 bilhões. No ano anterior, toda a terra rara de Goiás, que é praticamente só essa mina, pagou R$ 1,89 milhão de royalty, a CFEM. Pela lei, 60% disso fica na prefeitura de Minaçu. Dividido pelos 27.075 moradores, dá R$ 42 por pessoa. No ano inteiro. R$ 3,49 por mês, menos que uma passagem de ônibus.
A conta mais dura é outra. O preço da mina dividido pelo royalty de um ano dá 7.400 anos. Pra pagar o que essa mina valeu na venda, ela teria que estar recolhendo royalty desde antes de alguém levantar as pirâmides do Egito. E não adianta dizer que a produção vai crescer: mesmo se a mina pagasse dez vezes mais, seriam 740 anos.
Cada uma dessas contas tem autor. Os R$ 14 bilhões saíram de uma negociação entre os fundos donos da mina e a compradora, com a maior parte paga em ações cotadas na bolsa. Gente que sabe exatamente quanto vale o que está debaixo daquele barro vermelho. Os R$ 42 saíram de uma alíquota que ninguém em Minaçu negociou: 2% do que a empresa fatura, tirados os impostos, a mesma taxa de "diamante e demais substâncias minerais". O minério de ferro paga 3,5%. Quem compra sabe o valor da coisa. Quem mora em cima recebe o tamanho que a lei resolveu dar.
Minaçu não é exceção. O valor de uma coisa vai pra quem tem o papel dela, não pra quem vive do lado. O bairro valoriza, e quem ganha é quem comprou o terreno antes; quem morava ali passa a pagar aluguel mais caro. A empresa vale bilhões na bolsa, e quem trabalha nela leva o salário do mês. A riqueza grande mora num lugar, a renda miúda fica em outro. E a gente vai se acostumando a achar que o preço grande é assunto de especialista, e o pequeno, destino.
Ninguém aqui despreza os mais de 350 empregos da mina, gente da região, trabalho de verdade. Mas salário é pagamento por trabalho feito. Royalty é outra coisa: é o que se cobra de quem tira do chão o que é de todo mundo. Os R$ 1,89 milhão de 2025 foram exatamente isso.
E o Brasil já mostrou que dá pra brigar pelo que é de todos e ganhar. No fim dos anos 1940, o petróleo ia pelo mesmo caminho: o governo Dutra queria abrir o setor pro capital privado, inclusive o de fora. Estudante, militar nacionalista e gente comum foram pra rua com quatro palavras: o petróleo é nosso. Em 3 de outubro de 1953, saiu a lei que criou a Petrobras, com o monopólio do petróleo na mão do Estado. Foi a rua que arrancou isso. O monopólio caiu em 1997, e a briga nunca acaba de vez.
A régua do petróleo de hoje serve de prova de outra coisa. Ele paga 10% de royalty, e o pré-sal dividido com a União paga 15%. A terra rara paga 2%. São de cinco a sete vezes de diferença, pra dois bens que têm o mesmo dono no papel. Ou seja: os 2% não são lei da natureza. São uma escolha. E escolha, o Brasil já provou em 1953, se muda.
Quem levou a mina de Minaçu, quem pôs dinheiro público nela e o que dá pra exigir agora está no episódio sobre as terras raras de Goiás (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

