Atualização, 28/10/2026: depois deste texto, Flávio Bolsonaro saiu do Brasil pela Argentina e desembarcou nos Estados Unidos, mesmo proibido pelo STF de deixar o país e com os passaportes cancelados pela Polícia Federal. O pedido de anulação continuava sem protocolo confirmado no TSE. Leia a notícia (abre em outra aba).
Hitler não chegou ao governo da Alemanha carregado pelo voto. Em 1932, os nazistas estavam caindo nas urnas: 37% em julho, 33% em novembro. Quem abriu a porta foi Franz von Papen, que não era do partido nazista, junto com um grupo de políticos conservadores e antidemocráticos. Eles convenceram o presidente Hindenburg, e Hitler virou chanceler em 30 de janeiro de 1933. Segundo o Museu do Holocausto dos Estados Unidos, Hindenburg e os conselheiros dele, Papen à frente, tinham confiança de que podiam controlar Hitler e limitar o poder dele.
O controle durou pouco. Em 23 de março, menos de dois meses depois, uma lei deu a Hitler o poder de fazer lei sem o Parlamento. Em 2 de maio, três meses depois da posse, a SA e a polícia ocuparam os sindicatos. O trabalhador alemão perdeu as organizações que o representavam e o direito de greve, e as condições de trabalho ficaram inteiras na mão do patrão.
A data importa menos que um detalhe: quem fez a aposta e quem pagou por ela eram gente diferente. A aposta foi feita num gabinete, por homens que achavam que dava pra usar a extrema direita e depois segurar a coleira. O que eles puseram na mesa não era deles: era o sindicato do operário, a greve, o salário. É assim que funciona uma sociedade partida entre quem decide e quem sente. O cálculo de usar agora e controlar depois é sempre feito por quem está protegido do erro.
No Brasil, esse cálculo não precisa de metáfora. Está no painel de votação. Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe. Depois disso, o Congresso aprovou o PL da Dosimetria, que reduz as penas dos condenados por envolvimento na tentativa de golpe. Lula vetou. Em 30 de abril de 2026, o Congresso derrubou o veto. Em outubro, o PL, partido de Jair, elegeu 121 deputados federais, a maior bancada eleita por um partido desde 1990, e essa bancada fica quatro anos.
Quem vota pra aliviar a pena de golpe trata a coisa como acerto de bastidor, um favor que depois se administra. Só que o recado não fica no bastidor. Ele chega na rua dizendo que tentar sai mais barato. E se um dia der certo, quem perde primeiro não é o deputado: é você, que precisa de sindicato pra negociar salário, de greve pra não aceitar qualquer coisa, de voto que valha pra trocar quem manda.
No domingo, 25 de outubro, o voto valeu. Lula foi reeleito contra Flávio Bolsonaro. Na mesma noite, Flávio disse que "é impossível reconhecer o resultado" e anunciou: "Vamos usar nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições." Até a madrugada de segunda, o pedido não tinha sido protocolado.
Em 1933, o freio era um punhado de conservadores num gabinete, e o freio não freou. Desta vez, o freio já funcionou uma vez: o voto foi dado e contado. O resto tem endereço, e o endereço é a Câmara que toma posse em fevereiro. A Dosimetria já virou lei que reduz a pena de quem tentou o golpe; a próxima conversa de bastidor vai ser anistia. Cada deputado tem que dizer em público, com o nome dele, se vota contra qualquer perdão pra golpista. Quem não disser, já respondeu. Porque a aposta de quem acha que controla, quando dá errado, vai de novo pra conta de quem trabalha.
Por Fio Vermelho ·

