O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado por Lula no domingo (25), desembarcou com a mulher e as filhas no aeroporto executivo de Opa-locka, em Miami, na manhã desta quarta-feira (28). Desde segunda (26) ele estava proibido pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de deixar o país, e tinha 24 horas pra entregar à Polícia Federal todos os passaportes, inclusive o diplomático. Não entregou. O prazo venceu às 11h de terça (27), e a PF cancelou os documentos.
Ele sabia da ordem. Em vídeo, disse: "fui intimado a entregar os meus passaportes e também tô proibido de deixar o país". Também em vídeo nas redes, negou que tivesse intenção de sair do Brasil e disse que ficaria aqui pra organizar a oposição ao governo Lula. No dia seguinte, estava fora.
Ponte, jatinho e visto
Às 22h50 de terça, Flávio entrou na Argentina pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu a Puerto Iguazú, segundo a Direção Nacional de Migrações argentina. Às 23h30, a família embarcou num avião privado rumo a Guayaquil, no Equador, e de lá seguiu pra Miami. Pelos dados de rastreador de voo publicados pelo jornal O Tempo, o jatinho fez o caminho sem passar pelo espaço aéreo brasileiro.
Do lado de cá, uma autoridade da PF disse à Reuters que ele não saiu do país por nenhum posto regular de controle migratório, e a PF investiga a rota entre Brasília e a fronteira. A Reuters e a Agência Brasil, empresa pública, chamaram a viagem de fuga: fuga de um processo judicial. Até a manhã desta quarta (28), não havia mandado de prisão contra ele.
Do outro lado, a porta estava aberta. Um alto funcionário do Departamento de Estado disse à agência AP, sob anonimato, que o governo dos Estados Unidos vai dar visto a Flávio e à família. Na manhã de quarta, Donald Trump disse a jornalistas que aprova a vinda de Flávio: "It would be OK with me". Por ele, tudo bem.
Por que ele estava proibido
Flávio é investigado, não réu, em dois inquéritos no STF: um que apura o advogado Willer Tomaz e outro sobre os pagamentos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo o InfoMoney, a investigação mira "possíveis operações de lavagem de dinheiro e evasão de divisas". Não há denúncia nem ação penal. Segundo a DW, a proibição de sair partiu de um pedido da Polícia Federal, que viu risco de fuga, e Moraes não consultou a Procuradoria-Geral da República antes de decidir.
Flávio atacou a decisão: "Isso é motivo para tirar meu passaporte? Isso é justiça?". Disse que a decisão se baseou numa fala do irmão, de 23 de outubro, de que ele deveria deixar o país se perdesse, e completou: "Eu nunca falei isso." Quem falou foi Eduardo Bolsonaro, no podcast americano Louder with Crowder. Na versão da DW: "Se meu irmão não ganhar [a eleição], sou a favor de que ele deixe o país".
A ordem do Supremo vale pra quem?
Pensa no tamanho disso pra você. Uma ordem do Supremo assinada contra um senador que admitiu em vídeo que tinha recebido. A resposta foi uma ponte, um jatinho particular e a promessa de visto do governo mais poderoso do mundo. Quem pegou ônibus no domingo pra votar não tem nada disso do outro lado da fronteira. Você teria?
E ele segue senador. O mandato vai até 1º de fevereiro de 2027, e não há registro de renúncia nem de licença. Segundo a AP, o coordenador da campanha, Rogério Marinho, disse que Flávio mandou mensagem dizendo que queria dar um tempo e depois falaria com eles. O pedido de anulação da eleição que ele anunciou no domingo, e que no dia seguinte virou conversa de cassar a chapa Lula-Alckmin, não tinha protocolo confirmado no TSE até esta quarta.
A gente escreveu sobre essa divisão no pensamento Quem acha que controla nunca é quem paga (abre em outra aba), que parte do vídeo curto Eles achavam que iam controlar o homem. A história ali é de 1933, e não é sobre ele. O que se repete é a divisão: quem desrespeita a regra tem rota de saída, e quem fica com a conta é quem ficou.
O que pode mudar
Flávio deve dar entrevista coletiva na quinta-feira (29), segundo a Gazeta do Povo. Até a manhã desta quarta, ele não tinha explicado a saída, e a defesa não respondeu de imediato à Reuters, na terça. A PF vai informar Moraes de que a ordem não foi cumprida. Se o ministro decretar prisão, a situação jurídica dele muda.
O que dá pra exigir
- O quê: uma decisão sobre o pedido de prisão preventiva e de alerta vermelho da Interpol, feito em 27 de outubro pelos deputados Lindbergh Farias (PT-RJ) e Rogério Correia (PT-MG) e pela deputada eleita Ana Elisa (PT-MG), por "descumprimento de medidas cautelares e do risco de fuga do país".
- Quem decide: o ministro Alexandre de Moraes, no STF. Os deputados pediram que a Procuradoria-Geral da República se manifeste com urgência; até a manhã de quarta, não havia manifestação pública da PGR.
- Quando: sem data marcada.
- Onde acompanhar: o pedido, no Poder360 (abre em outra aba).
Ordem judicial descumprida por quem disse em vídeo que sabia dela não pode morrer na gaveta. O pedido está na mesa de Moraes. A resposta tem que vir, e tem que ser pública: sim ou não, com o motivo dito.
