Um ônibus saiu de Blumenau, em Santa Catarina, no dia 5 de janeiro de 2023, com 41 pessoas, rumo a Brasília e ao 8 de janeiro. Em 2 de março de 2026, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, condenou três homens a 14 anos de prisão por terem pago esse ônibus. Um deles tinha mandado um Pix de R$ 500. A defesa diz que o dinheiro foi empréstimo a um conhecido, e recorreu.
Ninguém aqui está dizendo que ele é inocente. Quem pagou ônibus pro 8 de janeiro responde pelo que fez. O que interessa neste texto é outra coisa: o tamanho das peças.
A Abin, a agência de inteligência do governo, mandou à comissão do Congresso que investigou o 8 de janeiro um levantamento de 103 ônibus fretados, pagos por 83 pessoas e 13 empresas. O relatório fala em
grande pulverização dos contratantes de fretados
Muita gente, cada uma pagando um pedaço. O risco foi dividido entre muitos, e cada pedaço deixou rastro.
Agora, a outra lista. Em 2020, a Taurus, a maior fábrica de armas do Brasil, vendeu R$ 381,2 milhões no mercado brasileiro, o dobro do ano anterior, e escreveu no relatório de resultados que a mudança da legislação sobre posse de armas tinha mudado o perfil de consumo no país. Só essa venda aqui dentro, num ano, dá 760 mil Pix de R$ 500. Não há nada de ilegal nisso, e este texto não liga a empresa ao 8 de janeiro. O ponto é justamente esse: ela não precisou de ônibus. O que mudou o perfil de compra, segundo o próprio relatório dela, foi a lei: decreto publicado no Diário Oficial.
Aqui aparece um traço da sociedade em que a gente vive. Existem dois jeitos de mexer no poder. Um é o da rua: precisa de gente, de ônibus, de corpo, e, quando passa da lei, deixa comprovante, foto, nome na lista. O outro é o da regra: quando o governo muda uma lei, quem já está no mercado certo ganha sem pisar na rua, sem comprovante, sem nome em lista nenhuma. O primeiro é visível e punível. O segundo é discreto e legal.
Por isso a aventura golpista é um péssimo negócio pra quem embarca nela. Quem foi chamado a pôr o corpo e o Pix ficou com o risco, e agora com a condenação. Quem lucrou com o governo que acabou em 2022 já tinha recebido o seu em lei, logo no primeiro ano, sem pisar na Esplanada.
Isso vale pra hoje, e vale contra qualquer um que convoque. Movimento que pede o corpo de quem trabalha precisa ser medido pelo que devolve a quem foi. Organizar é diferente de ser usado. A organização que presta divide o risco e divide o ganho. A outra divide o risco embaixo e guarda o ganho em cima, longe da rua.
Quem tem a caneta não precisa de ônibus.
As duas listas, lado a lado, estão no episódio sobre quem lucrou com aquele governo (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

