No sertão da Bahia de meados do século 19, terra era coisa de pouca gente. Pela conta do historiador Robert Levine, de cada cem pessoas do campo, menos de cinco tinham terra, e provavelmente menos de uma. O resto morava na terra do fazendeiro como "morador": pagava com parte da colheita e com dias de trabalho, e podia ser posto pra fora a qualquer hora.
Em junho de 1893, Antônio Conselheiro se fixou numa fazenda de gado parada, à beira do rio Vaza-Barris, e ali nasceu o arraial de Canudos. O chão pra casa era cedido de graça, não se cobrava imposto, e havia roça na beira do rio. Famílias venderam o que tinham pra ir. Provavelmente muita gente que tinha sido escravizada até 1888 foi junto. Ninguém ali era morador de fazendeiro.
Os fazendeiros sentiram no bolso. Reclamavam da gente indo embora, faltava braço nas fazendas, e o governo da Bahia sofreu pressão deles por causa disso. Não foi a única razão dada pra guerra, mas é a queixa que ficou registrada. O Exército foi contra Canudos quatro vezes, e em outubro de 1897 o arraial acabou.
Aí vem a parte mais dura. As crianças que sobreviveram foram levadas por soldados e oficiais. Foram dadas pelo caminho, dadas de presente a aliados, algumas vendidas por uns trocados. O Comitê Patriótico da Bahia, um grupo de Salvador que foi atrás delas, registrou que "se estava distribuindo menores como animais" e que a Bahia estava ameaçada de um novo escravismo. Era 1897, nove anos depois da abolição. Muitas nunca foram encontradas: segundo a pesquisa de Vanessa Monteiro, "já se haviam convertido em mão de obra explorada no campo ou na cidade".
Os pais saíram da fazenda pra viver sem patrão. A guerra devolveu os filhos a um. Dá pra ler isso como crueldade de soldado, e foi. Mas é também a lógica de uma sociedade funcionando: quem vive de braço barato não pode deixar que a saída de uma geração vire herança pra próxima. A fuga dos pais foi cobrada na vida dos filhos.
A pergunta vale pro Brasil de hoje: o que cada um recebe ao nascer? Uns herdam terra, imóvel, sobrenome, o contato certo. Outros herdam a pressa de começar a trabalhar cedo, o aluguel, a dívida da família. Ninguém escolhe de que lado nasce, e a mesma sociedade que repete que "cada um tem o que merece" passa a terra de pai pra filho com cartório e tudo.
E a terra continua concentrada: no último censo do campo, de 2017, 1% dos estabelecimentos rurais, os de mil hectares ou mais, ocupava 47,6% da área de todos. A metade menor, somada, ficava com 2,3%.
Canudos foi uma tentativa de quebrar essa herança numa geração só, e não deixaram. A pergunta que ela deixa não é sobre o passado. É se a gente vai continuar achando natural que, neste país, uns herdem a cerca e outros herdem o lugar de trabalhar do lado de dentro dela.
O lado que a República escolheu naquela guerra, e quem saiu dela ganhando, está no episódio sobre Canudos (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

