No fim de agosto de 1937, o capitão Olímpio Mourão Filho, chefe do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira, o partido fascista dos camisas verdes, sentou numa máquina de escrever e inventou uma revolução comunista. Segundo ele mesmo, era uma hipótese de trabalho pra um boletim interno do movimento. Tinha greve geral, um "comitê de incêndios", saques e depredações. No fim de um capítulo, escreveu por brincadeira o nome do comunista húngaro Béla Kun. Depois, contou ele, riscou o sobrenome e pôs Cohen, porque lembrou que Gustavo Barroso, o comandante da milícia integralista, chamava Kun de "Béla Cohen".
Um mês depois, em 30 de setembro, o governo de Getúlio Vargas anunciou ter descoberto um plano comunista, e o texto foi lido na Hora do Brasil, o programa oficial de rádio. Em 2 de outubro, a Câmara aprovou o estado de guerra por 138 votos a 58. A Constituição de 1934 dizia o que isso significava:
O estado de guerra implicará a suspensão das garantias constitucionaes que possam prejudicar directa ou indirectamente a segurança nacional.
Plínio Salgado, o chefe integralista, tinha lido o texto no fim de agosto e achado fantasioso demais. Quando o papel virou plano comunista, reconheceu o documento e não desmentiu nada. Em 10 de novembro veio o golpe do Estado Novo, e o Congresso foi fechado. Em 2 de dezembro, todos os partidos foram dissolvidos, o dos integralistas junto. A fraude só foi denunciada em 1945, pelo general Góis Monteiro, que tinha recebido o papel e mandado adiante. Mourão admitiu a autoria em 1956, dizendo que mexeram no texto. A máquina e o nome eram dele.
O mais assustador nessa história não é que alguém tenha inventado um plano. É a velocidade. Entre o susto no rádio e a suspensão das garantias, passaram dois dias. Ninguém teve tempo de perguntar quem escreveu, de onde veio, por que um plano secreto chegava tão cheio de detalhe. E os deputados que votaram o estado de guerra abriram a porta pro regime que, cinco semanas depois, fechou o Congresso deles.
Repare também no nome. O medo fabricado nunca vem sem rosto. Em 1937, o rosto foi um sobrenome judeu, escolhido pelo antissemitismo de um dirigente fascista. O inimigo inventado precisa ser alguém que a sociedade já aprendeu a olhar torto: o comunista, o estrangeiro, a minoria de sempre. Assim a mentira não precisa convencer ninguém do zero. Só precisa confirmar um preconceito que já estava lá.
Esse jeito de governar não ficou nos anos 1930. Hoje o boletim interno dispensa máquina de escrever. O documento "descoberto" circula no grupo da família, num áudio sem dono, num print sem data, e chega antes de qualquer desmentido. O roteiro é o mesmo: uma ameaça enorme, urgente, impossível de conferir, e logo atrás dela um pedido. Mais poder pra polícia, menos direito de protestar, menos controle sobre quem manda, alguém acima da lei por um tempo que nunca termina. O susto é a embalagem. O pedido é o produto.
Por isso, diante do pânico, a pergunta útil não é se a ameaça é assustadora. Tudo que foi inventado pra assustar é assustador. A pergunta útil é outra: o que estão pedindo em troca do meu medo? Em 1937, o plano era falso e a ditadura foi de verdade. Quando o susto já chega com a solução pronta, é na solução que mora o perigo.
O caminho do papel até Getúlio, e onde o mesmo homem estava na madrugada do golpe de 1964, está no episódio sobre o integralismo (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

