Em 28 de julho de 1972, o ferramenteiro Lúcio Bellentani estava no turno, na Volkswagen de São Bernardo do Campo. Anos depois, ele contou à Comissão Nacional da Verdade o que aconteceu:
estava trabalhando e chegaram dois indivíduos com metralhadora, encostaram nas minhas costas, já me algemaram. Na hora em que cheguei à sala de segurança da Volkswagen já começou a tortura
Não foi só ele. Mais de 20 metalúrgicos foram presos no mesmo episódio, da Volkswagen, da Mercedes, da Perkins e da Metal Leve. E não foi só a Volkswagen. Listas negras de trabalhadores eram repassadas ao DOPS, a polícia política. Em 1976, o prensista Manoel Fiel Filho, que trabalhava havia 19 anos na Metal Arte e passava entre os colegas um jornal proibido, foi levado ao DOI-CODI do II Exército e apareceu morto no dia seguinte. A versão oficial disse que ele se enforcou com as próprias meias. Os colegas lembraram que ele estava de chinelo, sem meia.
Em 23 de setembro de 2020, a Volkswagen do Brasil assinou um acordo com o Ministério Público Federal, o de São Paulo e o do Trabalho, e pagou R$ 36,3 milhões, R$ 16,8 milhões deles a ex-funcionários e famílias. Foi o primeiro acordo do gênero no país. Chegou 48 anos depois daquela manhã de 1972. Bellentani não viu: tinha morrido no ano anterior. Em maio de 2026, o Ministério Público Federal dizia investigar 13 empresas suspeitas de colaboração com a ditadura, por tortura, vigilância e listas negras.
Por que uma empresa abriria a porta da fábrica pra polícia política? A pergunta tem resposta nos números da época. Entre 1966 e 1974, a produtividade no setor metalúrgico subiu 99% e o salário real médio ficou parado. Fábrica com medo não faz greve, e greve era o único jeito de fazer aquela diferença voltar pra quem produzia. A repressão não atrapalhava o negócio. Fazia parte das condições em que ele andava bem.
É aqui que a história de 1972 vira assunto de hoje. Empresa grande conta a própria história como se conta aniversário: com comercial emocionado, carro antigo, família feliz na estrada. O pedaço que não cabe no comercial só aparece quando alguém obriga. Foi preciso uma Comissão da Verdade, um Ministério Público, sobreviventes que não desistiram por décadas. Na lógica de qualquer balanço, o que dá lucro é ativo e o que dá vergonha é passivo, e passivo se empurra pra frente até prescrever ou até a última testemunha morrer.
Responsabilidade, nesse caso, não é sentimento. É uma regra simples: quem lucrou com o silêncio de quem trabalhava responde por ele, e responde enquanto as vítimas estão vivas pra ouvir. Indenização que chega depois do enterro acerta a contabilidade e deixa a justiça pela metade. E a fábrica continua sendo o lugar onde a maior parte de nós passa a maior parte da vida acordada; o que se aceitou lá dentro, em nome da produção, diz muito sobre o que se aceita hoje.
O lucro tem memória curta. A nossa não pode ter.
O que os colegas de Manoel Fiel Filho viram, e o resto da fábrica por dentro, está no episódio sobre a ditadura vista de quem trabalhava (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

