Entre 1908 e 1910, pra abrir a estrada de ferro São Paulo–Rio Grande no meio do mato de Santa Catarina, a obra juntou uns 8 mil trabalhadores braçais. Eram os turmeiros: abriam caminho, tiravam pedra, assentavam trilho. Muitos eram colonos imigrantes do Paraná, que vinham na entressafra ganhar um dinheiro a mais. Quem mandava na ferrovia era a Brazil Railway, uma empresa americana.
Repara em como o negócio foi montado. O salário não saía da companhia direto pro bolso: passava pela mão de pequenos empreiteiros, que recebiam os homens e respondiam pelo pagamento. A comida, o trabalhador comprava no armazém da própria companhia. E a companhia tinha polícia própria, o Corpo de Segurança, com mais de 300 homens, mais que a polícia do estado do Paraná naquela época. Ao que tudo indica, ele nasceu no fim de 1908 pra segurar os próprios turmeiros. Depois ganhou outro serviço: tirar posseiro da terra que a empresa dizia ser dela.
Olha o que ficou com quem. O que dava poder, a empresa guardou: o armazém, onde o salário voltava pro caixa da casa, e a tropa, que garantia a ordem. O que dava dor de cabeça, ela pôs no meio: o pagamento, com o empreiteiro. Quando a obra terminou, em dezembro de 1910, o general Setembrino de Carvalho, que depois comandou a guerra na região, escreveu em 1916 que os trabalhadores "foram abandonados nos mesmos sítios em que se achavam as turmas". De quem era a culpa, na conta dele? Dos empreiteiros: "por uma deslealdade dos empreiteiros". A companhia nem aparece na frase.
Esse arranjo hoje se chama terceirização, e é possível que você trabalhe dentro dele. A empresa que manda em tudo contrata outra pra pagar você. Quando o salário atrasa, o problema é "com a terceirizada". Quando você é dispensado, quem dispensou foi o intermediário. O crachá é de uma, o uniforme é de outra, a ordem vem da primeira. E se você reclamar alto demais, quem aparece é a segurança, que muitas vezes também vem de fora. O lucro tem endereço fixo. A culpa vive de mudança.
O truque é velho porque funciona: cada camada no meio é um lugar a mais pra culpa parar antes de chegar em quem decide. O empreiteiro de 1910 ficou com a fama de desleal no relatório do general. A Brazil Railway seguiu com a linha, com a terra e com a sua polícia.
A regra que desmonta isso cabe numa frase: quem fica com o lucro do serviço responde pelo salário de quem fez o serviço, sem camada no meio servindo de para-choque. Até essa regra valer de verdade, toda vez que disserem que o problema é "com a terceirizada", a pergunta é uma só: quem contratou a terceirizada, e quem está com o armazém?
Como a terra virou dessa empresa e no que a polícia dela se transformou está no episódio sobre a Guerra do Contestado (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

