Em 4 de novembro de 1897, no gabinete de medicina legal da Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador, abriram uma caixa. Dentro, envolto em cal, estava o crânio de Antônio Conselheiro, o líder do arraial de Canudos, no sertão baiano. Um mês antes, o Exército tinha arrasado o arraial, achado o corpo dele e cortado a cabeça. A cabeça foi levada pro litoral com uma missão que Euclides da Cunha resumiu numa linha: "Que a ciência dissesse a última palavra."
Quem ia dizer era Raimundo Nina Rodrigues, médico que acreditava que o formato da cabeça entregava a conduta da pessoa. Ele queria provar que o Conselheiro tinha predisposição à loucura e ao crime. Mediu, examinou e escreveu a conclusão: "É, pois, um crânio normal."
Seria a hora de mudar de ideia. Não foi o que aconteceu. Desde o meio da guerra, Nina já tinha outra explicação pronta: a da loucura coletiva, que se pegaria como doença no meio da multidão. O osso deu normal, e mesmo assim Nina continuou dizendo que o Conselheiro delirava. A explicação que ficou de pé foi a que ele já defendia, a da multidão. A teoria não perdeu nada. Só ganhou mais um acusado: o povo inteiro.
Parece coisa de museu, ciência velha que ninguém mais leva a sério. Mas repare no jeito do raciocínio, porque ele continua entre nós, sem régua de medir crânio. Quando alguém é pobre, a primeira pergunta que o país faz é o que tem de errado com ele. Faltou esforço, faltou estudo, faltou juízo. Se a pessoa trabalha desde cedo, estudou o que deu e mesmo assim não sai do lugar, a explicação não morre: muda de endereço. Aí o problema vira "o meio", "a cultura" do bairro, a família. Sempre alguma coisa dentro de quem é pobre, ou em volta dele. Nunca em cima.
A pergunta que esse raciocínio evita já dava pra fazer em 1897. Por que tanta gente largou as fazendas do sertão pra viver num arraial? De quem era a terra que ela deixou pra trás? Quem pediu o Exército, e por quê? Nada disso cabe numa medição de crânio, e é justamente por isso que a medição era tão cômoda. Enquanto a ciência procurava o defeito na cabeça do sertanejo, ninguém precisava olhar pra cerca.
Explicar a pobreza pelo pobre continua cômodo pra quem está em cima. Não pede aumento de salário, não mexe no aluguel, não pergunta quem é dono do quê. Só pede que a gente desconfie de quem está embaixo, e de preferência que quem está embaixo desconfie de si mesmo.
Nina Rodrigues fez o exame, e o exame não deu o que ele queria. Quando o osso não confirmou, ele se apoiou na explicação que já tinha pronta. Vale desconfiar de toda explicação que sobrevive a qualquer resultado: se a prova dá normal e a culpa continua no andar de baixo, a prova nunca foi o que importava. Explicação que nenhum fato consegue derrubar não é explicação. É sentença.
O crânio virou cinza num incêndio da faculdade, em março de 1905. A pergunta que ele deixou, e o que os documentos respondem, estão no episódio sobre Canudos (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

