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Fio Vermelho

O inimigo escolhido: por que a raiva nunca chega no patrão

Por Fio Vermelho ·

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Vídeo curto do pensamento: O inimigo escolhido: por que a raiva nunca chega no patrão

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Em 1934, Gustavo Barroso, comandante da milícia integralista, o fascismo brasileiro de camisa verde, publicou um livro chamado Brasil, colônia de banqueiros. A tese: o país seria uma colônia de banqueiros judeus. O livro saiu em segunda edição no mesmo ano. Dois anos depois, Barroso assinou a primeira tradução publicada no Brasil dos Protocolos dos Sábios de Sião, uma fraude antissemita, com comentários dele. A historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro o chama de "o mais convicto teórico anti-semita brasileiro".

Agora repare no que ficou de fora do ódio. O cientista político Hélgio Trindade, autor do estudo clássico sobre o movimento, mostrou que o integralismo

não punha em questão a propriedade dos meios de produção e o princípio do lucro

O historiador Gilberto Calil resumiu a manobra: culpar o "capitalismo internacional" pelos males do capitalismo, sem tocar na propriedade de ninguém daqui. O banqueiro de Londres era o demônio. O dono da fábrica no Brás, que decidia o salário, a jornada e a demissão, nem aparecia no discurso.

Quando esse nacionalismo foi posto à prova, mostrou de que lado estava. Em junho de 1948, a direção do Partido de Representação Popular, o partido dos ex-integralistas, aprovou por unanimidade um parecer contra o monopólio estatal do petróleo. O jornal deles, o Idade Nova, escreveu: "Nós não acreditamos nessa história de interferências misteriosas do capitalismo estrangeiro". O mesmo capital estrangeiro que, no livro, era o inimigo da nação.

A pergunta que fica é por que esse truque funciona tanto, e há tanto tempo. Uma parte da resposta é simples: o patrão é quem paga o salário. Brigar com ele custa o emprego. Brigar com um inimigo distante, ou com o vizinho que é um pouco diferente, não custa nada e ainda dá a sensação de estar fazendo alguma coisa. A raiva é real, porque o aperto é real. O que muda é pra onde alguém aponta essa raiva.

Hoje o banqueiro judeu de Barroso tem outros nomes. É o imigrante que "rouba emprego", o vizinho que recebe ajuda do governo, o servidor, o "vagabundo", o sindicalista. Gente que quase sempre está no mesmo aperto de quem a odeia. Enquanto o motorista de aplicativo culpa o imigrante pela corrida mal paga, ninguém olha pra quem define a tarifa. Enquanto a vizinhança briga pelo auxílio do outro, ninguém pergunta por que o salário de quem trabalha o mês inteiro não fecha o mês.

Não é acaso. Raiva que sobe organiza: junta quem tem o mesmo problema contra quem lucra com ele. Raiva que vai pro lado desorganiza: põe trabalhador contra trabalhador, e quem está em cima fica de fora, quieto, intocado, como o dono da fábrica no livro de Barroso.

A raiva de quem trabalha é a força mais valiosa que existe neste país. Por isso tanta gente se oferece pra escolher o alvo dela. Na próxima vez que te apresentarem um inimigo pronto, com cara e sobrenome, olhe a lista com calma e veja quem ficou de fora.

O livro de Barroso, os Protocolos e o que o nacionalismo integralista fez com o petróleo estão no episódio sobre o integralismo (abre em outra aba).

Por Fio Vermelho ·

Fontes

3 fontes · todas confirmadas

CALIL2013

Fonte confirmada.

Peculiaridades e paradoxos do nacionalismo integralista (1932-1964) — Gilberto Calil, História: Debates e Tendências v. 13 n. 1, 2013

Hélgio Trindade (verbete Integralismo do DHBB, citado por Calil) sobre o que o integralismo não questionava; a crítica concentrada no capitalismo internacional; o parecer unânime da direção do PRP contra o monopólio estatal do petróleo em junho de 1948 e a frase do Idade Nova.

não punha em questão a propriedade dos meios de produção e o princípio do lucro

https://www.redalyc.org/pdf/5524/552456390003.pdf

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BBM

Fonte confirmada.

Brasil, colonia de banqueiros (registro do livro) — Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, USP, 1934

O livro de Gustavo Barroso saiu em 1934 pela Civilização Brasileira, em segunda edição no mesmo ano.

https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/7547

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TUCCI

Fonte confirmada.

Resenha de Nem Rothschild nem Trotsky, de Marcos Chor Maio — Maria Luiza Tucci Carneiro, Revista de História (USP) n. 129-131

Barroso como teórico antissemita e a primeira tradução dos Protocolos publicada no Brasil, em 1936, com comentários dele.

o mais convicto teórico anti-semita brasileiro

https://periodicos.usp.br/revhistoria/article/download/18736/20799/22267

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