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Fio Vermelho

O avião chegou antes do médico: a fila em que o progresso visita o pobre

Por Fio Vermelho ·

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Vídeo curto do pensamento: O avião chegou antes do médico: a fila em que o progresso visita o pobre

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Em 1º de março de 1915, o tenente Ricardo Kirk, primeiro aviador militar do Exército brasileiro, formado na França, decolou sobre o planalto de Santa Catarina. O próprio Exército descreve a tarefa assim: "missão de reconhecimento com bombardeio no reduto de Santa Maria". Santa Maria era o maior reduto dos caboclos do Contestado, sertanejos pobres que viviam ali em comunidade, com terra, gado e roça de todo mundo. Com tempo ruim e quase nada de visibilidade, o avião bateu num pinheiro alto e caiu. Kirk morreu. Se chegou a cair bomba, o texto do Exército não diz. Em abril, Santa Maria foi destruída.

O pinheiro tem sua ironia. A araucária era justamente o que a Lumber, a madeireira do mesmo grupo americano dono da ferrovia, tinha ido buscar ali, na maior serraria da América do Sul. Mas o detalhe que mais diz sobre o Brasil é outro: a ordem em que as coisas chegaram àquele sertão.

Três anos antes, quem cuidava de doente no planalto era um curandeiro, José Maria, que receitava chá e garrafada. A pesquisa do historiador Paulo Pinheiro Machado, na resenha de Enéas Athanázio, explica por que tanta gente ia atrás dele: "Numa época de escassos médicos e farmacêuticos, ele supria a ausência desses profissionais". Médico, ali, quase não tinha. Ferrovia tinha, e serraria também. E quando aquela gente se juntou, o que chegou de mais moderno que o país possuía foi um avião de guerra, o primeiro que o Exército usou numa operação. A novidade não veio pra atender o caboclo. Veio pra procurar ele do alto.

Isso não ficou em 1915. Repara no que chega primeiro no teu bairro: a câmera no poste ou o médico no posto? A viatura nova ou o ônibus no horário? O sistema que reconhece o teu rosto ou o sistema que marca a tua consulta? Ninguém precisa dizer em voz alta que o pobre é ameaça. Basta olhar o que o dinheiro público compra primeiro pra ele: o que vigia ou o que cuida.

Não é que falte tecnologia no Brasil. É que ela tem fila, e quem monta a fila decide quem vai ser tratado como paciente e quem vai ser tratado como alvo. O sertão do Contestado quase não tinha médico, mas viu passar por cima o primeiro avião militar do país.

Por isso, toda vez que anunciarem uma compra nova "pela segurança" na tua cidade, a pergunta que vale é de orçamento, não de opinião: quanto custou, e quantos meses de médico no posto do teu bairro esse dinheiro pagava. Se ninguém souber responder, a fila já foi montada sem você.

Como a terra virou de uma empresa estrangeira e por que o Exército subiu a serra está no episódio sobre a Guerra do Contestado (abre em outra aba).

Por Fio Vermelho ·

Fontes

4 fontes · todas confirmadas

EB

Fonte confirmada.

23 de março — Dia da Aviação do Exército — Exército Brasileiro, 2025

Ricardo Kirk, formado na França, foi o primeiro piloto aviador militar do Exército; foi na Guerra do Contestado que o Exército usou aviões pela primeira vez no teatro de operações; em 1º de março de 1915, com baixíssima visibilidade, o avião bateu num pinheiro alto e Kirk morreu.

missão de reconhecimento com bombardeio no reduto de Santa Maria

https://www.eb.mil.br/documents/d/central-de-conteudos/aviacao-23-mar-2025

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ATH

Fonte confirmada.

Resenha de Lideranças do Contestado, de Paulo Pinheiro Machado — Enéas Athanázio, 2008

Pelo livro de Machado (2004): o curandeiro José Maria receitava mezinhas e garrafadas e fazia o papel que médico e farmacêutico não faziam no planalto.

Numa época de escassos médicos e farmacêuticos, ele supria a ausência desses profissionais

https://www.cecult.ifch.unicamp.br/pf-cecult/public-files/publicacoes/83/paulopinheiro-05.pdf

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TOMP

Fonte confirmada.

Cicatrizes do Contestado: a estatização da Southern Brazil Lumber and Colonization Company e o advento do Campo de Instrução Marechal Hermes — Alexandre Assis Tomporoski, Desenvolvimento Regional em Debate, 2016

A Lumber, do mesmo grupo dono da ferrovia, instalou em 1910 em Três Barras a maior madeireira da América do Sul, de olho nos pinheiros (araucárias) do planalto.

https://www.redalyc.org/journal/5708/570863074010/movil/

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TOP

Fonte confirmada.

Guerra, cerco, fome e epidemias: memórias e experiências dos sertanejos do Contestado — Paulo Pinheiro Machado, Topoi v.12 n.22, 2011

Santa Maria, o maior reduto sertanejo, foi destruído em abril de 1915.

após a destruição do reduto de Santa Maria, em abril de 1915

https://revistas.ufrj.br/index.php/topoi/article/view/70481

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