Em 24 de agosto de 2026, o Pentágono, que o governo americano rebatizou de Departamento da Guerra, se comprometeu com US$ 750 milhões numa empresa criada pra uma coisa só: comprar toda a produção atual da mina de terras raras de Minaçu, no norte de Goiás. Por 15 anos. Com preço mínimo garantido. O Pentágono não comprou a mina. Quem comprou foi uma empresa americana, a USA Rare Earth. O que o governo americano comprou foi outra coisa: a certeza.
E não foi uma vez só. Em fevereiro, uma agência de crédito do governo americano, a DFC, emprestou US$ 565 milhões à mina, com direito de virar sócia. Em janeiro, o Departamento de Comércio acertou US$ 1,6 bilhão com a compradora em troca de ações. Junta tudo e o desenho fica claro: o governo americano empresta, entra de sócio, compra a produção e garante o preço. O motivo também está no papel: quase nove em cada dez quilos de terra rara refinada no mundo saem da China, e a partir de 2027 o Pentágono não compra mais ímã feito com terra rara extraída ou processada lá.
Agora compara com o argumento de sempre por aqui, toda vez que se fala em o Brasil fazer algo parecido: o Estado não tem que se meter, quem decide é o mercado, ninguém garante nada a ninguém. Um estudo do CEBRI sobre terras raras, que está nos documentos do Senado, diz que uma usina pra separar esse minério custa na casa de US$ 500 milhões e só fica em pé com comprador garantido e contrato longo. Foi exatamente isso que o governo mais rico do planeta deu à sua indústria, com dinheiro público, por 15 anos.
Garantia existe na economia de hoje, sim. Ela só é distribuída de cima pra baixo. Quem tem peso estratégico ganha piso de preço, comprador certo e prazo longo. Quem vive de salário ou de bico escuta que estabilidade é coisa do passado, que o contrato tem que ser flexível, que planejamento é responsabilidade individual. O risco que o grande capital não quer correr vira política de Estado. O risco que você corre todo mês vira lição de empreendedorismo.
Isso não quer dizer que o Brasil tenha que copiar os Estados Unidos. Quer dizer que o argumento de que "não dá" é escolha, não lei da natureza. E o Brasil já pôs dinheiro público na mesa. Segundo a Agência Pública, o BNDES e a Finep, a agência de inovação do governo, abriram uma chamada pra minerais críticos com meta de pelo menos R$ 5 bilhões em financiamento. A pergunta é o que esse dinheiro pede em troca.
A exigência cabe numa linha: nenhum real dessa chamada sem o compromisso de separar a terra rara aqui, no Brasil. Quem decide são o BNDES e a Finep, o banco de desenvolvimento e a agência de inovação do governo federal, e a hora de decidir é cada contrato que sair dessa chamada. Os Estados Unidos garantiram preço pra ter terra rara garantida. O Brasil pode, no mínimo, botar condição no dinheiro que é teu.
Como a mina de Minaçu foi vendida, quanto fica na cidade e o que mais dá pra exigir está no episódio sobre as terras raras de Goiás (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

