Pular para o texto
Fio Vermelho

Duas réguas: o acusado que saiu livre e o preso que morreu na cadeia

Por Fio Vermelho ·

Conferir as fontes · 2

Vídeo curto do pensamento: Duas réguas: o acusado que saiu livre e o preso que morreu na cadeia

O vídeo não carregou aqui. Pode ser bloqueador ou a conexão. Assiste direto no YouTube, ou tenta de novo.

O vídeo só carrega quando você aperta. Sem rastreador antes disso.

Depois da Guerra do Contestado, no planalto de Santa Catarina, dois homens dos dois lados da guerra passaram pelas mãos do Estado. Terminaram de jeitos opostos.

O primeiro foi Pedro Leão de Carvalho, o Pedro Ruivo, chefe vaqueano em Canoinhas. Vaqueano era o peão de fazendeiro posto em armas pra guiar as tropas contra os caboclos dos redutos. Num processo-crime de 1918, Pedro Ruivo foi acusado de tirar mais de cem presos da cadeia da vila e degolar na beira do rio Iguaçu. O historiador Paulo Pinheiro Machado registra o desfecho: "Apesar da atividade do Promotor em juntar provas aceitas pelo Juiz, o réu foi absolvido 3 vezes pelo júri". Três vezes. Pra lei, ele é isto: acusado e absolvido.

O segundo foi Adeodato Ramos, o último chefe dos redutos, no comando desde novembro de 1914. Ele não tem defesa limpa. Sobreviventes contaram que, no fim da guerra, ele matava quem tentava sair do reduto, e que muita gente só ficava ali por medo dele. O próprio Machado avisa que parte desses relatos vem de quem se rendeu e precisava se mostrar vítima, mas a acusação existe. Adeodato caiu preso quando a guerra acabou. Segundo o Arquivo Nacional, "continuou ilegalmente preso". Em 1923, foi morto pelo diretor do presídio de Florianópolis.

O ponto aqui não é escolher um santo. Adeodato não era. O ponto é a régua. Contra um, havia prova juntada pelo promotor e aceita pelo juiz, e ele saiu pela porta da frente três vezes. O outro ficou preso fora da lei e morreu na mão de quem devia guardar ele. A lei era a mesma no papel. Na prática, um estava do lado que ganhou a guerra e o outro, do lado que perdeu.

Você conhece essa régua de perto, mesmo sem nunca ter pisado num tribunal. É o processo que anda devagar pra quem tem sobrenome e voa pra quem não tem. É o preso que espera julgamento sem advogado enquanto o acusado com advogado bom espera em casa. É a absolvição que surpreende a cidade inteira e o caso que ninguém nem abre. Não precisa de juiz comprado. Basta que, na hora de decidir, pese mais de que lado o réu estava do que o que ele fez.

Defender a mesma régua pra todo mundo não é passar pano pra ninguém. É a única garantia de que, no dia em que o acusado for alguém da tua casa, a prova vai valer mais que o lado. Quando a régua muda conforme quem está no banco dos réus, o nome disso não é Justiça. É escolta pra quem ganhou.

Quem armou os vaqueanos, quem pediu a tropa e o que ficou da terra está no episódio sobre a Guerra do Contestado (abre em outra aba).

Por Fio Vermelho ·

Fontes

2 fontes · todas confirmadas

TOP

Fonte confirmada.

Guerra, cerco, fome e epidemias: memórias e experiências dos sertanejos do Contestado — Paulo Pinheiro Machado, Topoi v.12 n.22, 2011

Pedro Leão de Carvalho, o Pedro Ruivo, chefe vaqueano em Canoinhas, respondeu a processo-crime (1918) por ter executado mais de cem prisioneiros retirados da cadeia e degolados no rio Iguaçu, e foi absolvido três vezes pelo júri; vaqueanos eram peões postos em armas por fazendeiros; Adeodato chefiou os redutos desde novembro de 1914, e sobreviventes contam que matava quem tentava sair, relatos que Machado ressalva como em parte autovitimização de quem se rendia.

Apesar da atividade do Promotor em juntar provas aceitas pelo Juiz, o réu foi absolvido 3 vezes pelo júri

https://revistas.ufrj.br/index.php/topoi/article/view/70481

Abrir o documento (abre em outra aba)

AN

Fonte confirmada.

Contestado — Paulo Pinheiro Machado, Arquivo Nacional (série Que República é essa?), 2018-07-31

Adeodato Ramos, último chefe rebelde, ficou preso de forma ilegal e foi morto em 1923 pelo diretor do Presídio de Florianópolis.

Adeodato Ramos, o último chefe rebelde, continuou ilegalmente preso

https://querepublicaeessa.an.gov.br/index.php/que-republica-e-essa/assuntos/temas/97-tema-contestado

Abrir o documento (abre em outra aba)