Em 20 de fevereiro de 1933, uns 25 dos homens mais ricos da Alemanha foram chamados à residência de Hermann Göring, o braço direito de Hitler. Hitler era chefe do governo havia três semanas e tinha marcado eleição pra 5 de março. Na sala estava Gustav Krupp, o dono da maior fábrica de aço e de canhões do país, que agradeceu o discurso em nome dos presentes. E estava um diretor da IG Farben, o gigante da química que juntava a Bayer, a da aspirina da farmácia, e a BASF.
Hitler falou primeiro. O relatório dos discursos, achado depois da guerra nos arquivos da própria Krupp e lido no tribunal de Nuremberg, guarda a frase:
A empresa privada não pode ser mantida na era da democracia; ela só é concebível se o povo tiver uma boa ideia de autoridade e de personalidade.
Depois que ele saiu, o banqueiro Hjalmar Schacht propôs uma vaquinha de campanha de três milhões de marcos, o salário de um ano inteiro de quase dois mil trabalhadores alemães. E Göring explicou por que valia a pena abrir a carteira: a eleição de 5 de março seria, com certeza, a última pelos próximos dez anos. Provavelmente, pelos próximos cem. A próxima eleição alemã com mais de um partido só aconteceu 16 anos depois.
Tem um detalhe que deixa essa história mais incômoda, não menos. O historiador Henry Turner mostrou, e hoje os historiadores concordam, que até chegar ao poder o partido nazista viveu mais da contribuição do filiado comum do que do cheque do grande industrial. O dinheiro grosso ia pros partidos conservadores de sempre, a direita de terno e gravata. O grande empresário só abriu o cofre de verdade pros nazistas na campanha de março de 1933, com Hitler já sentado na cadeira. O capital não inventou o fascismo. Foi buscar quando precisou.
É isso que essa sala ensina sobre a sociedade de hoje. Pra quem vive do lucro, a democracia não é um valor em si. É uma linha da planilha. Enquanto voto livre e sindicato custam pouco, a convivência é tranquila. Quando a crise derruba o lucro, os dois viram o que impede baixar o salário, e a pergunta muda: quanto custa se livrar deles? Em 1933, a resposta cabia numa vaquinha.
Ninguém naquela sala precisava gostar de Hitler. Bastava fazer a conta. Por isso a lealdade de quem tem muito dinheiro à democracia nunca deve ser tomada como garantida: ela é sincera enquanto sai barata. A de quem trabalha é de outra natureza. Pra quem vive de salário, o voto e a organização não são uma linha da planilha. São o que permite discutir a planilha. Quem não tem cofre pra abrir só tem isso.
Daí uma pergunta que vale mais do que qualquer juramento democrático em discurso: o que a democracia custa pra quem está falando, e o que essa pessoa ganharia sem ela? Quem ganha muito com o fim do voto vai defender o voto só até o dia em que a conta virar.
Democracia que depende da conveniência de quem lucra dura até o primeiro balanço ruim.
Quem estava na sala, o que se disse lá e a conta que veio depois estão no episódio sobre o conto da extrema direita (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

