Em 7 de outubro de 1934, a milícia integralista, o fascismo brasileiro de camisa verde, marcou um desfile na Praça da Sé, em São Paulo, pra comemorar dois anos do movimento. Do outro lado apareceu uma coisa que até ali não existia: a esquerda inteira junta. Comunistas, anarquistas, trotskistas, socialistas, sindicatos e italianos que tinham fugido de Mussolini. Gente que vivia brigando entre si. O historiador Ricardo Figueiredo de Castro registra que foi a primeira vez que todas as forças antifascistas do país agiram em conjunto.
Houve tiroteio, e houve morte. Quantas, ninguém fecha a conta: o jornal dos próprios integralistas falou em cinco; Fúlvio Abramo, militante antifascista que estava na praça, disse cinquenta anos depois que não se sabe o número exato. O que ninguém discute é a fuga. Nas palavras de Abramo:
iam tirando as camisas verdes para não serem identificados. Até nas ruas da Mooca foram encontradas estas camisas
No Rio, o jornal do humorista Aparício Torelly, o Barão de Itararé, deu a manchete: "Um integralista não corre, voa." Viraram os galinhas verdes.
Dá pra rir, e a gente ri. Mas a piada esconde a lição mais séria daquela tarde. A milícia tinha tudo que se vende como coragem: uniforme, hierarquia, ordem unida, a pose de quem não tem medo de nada. Quando o outro lado apareceu em número e organizado, a camisa virou um problema. Valentia de farda é emprestada. Some no momento em que a farda vira alvo.
Isso vale muito além de 1934. A sociedade em que a gente vive ensina, todo dia, que coragem é coisa de indivíduo. O trabalhador que encara o chefe sozinho vira herói por uma tarde e desempregado no mês seguinte. O entregador que reclama sozinho pode ser desligado do aplicativo sem explicação. A mensagem é sempre a mesma: se vira, aguenta, não reclama, cada um por si. E cada um por si é exatamente a situação em que qualquer pessoa tem medo.
Do outro lado, quem manda quase nunca está sozinho. Tem associação patronal, tem advogado, tem lobby, tem jornal amigo. Quem posa de forte costuma ser quem já está organizado e prefere que você não esteja. A camisa verde era isso: um uniforme pra parecer muitos e parecer firmes.
O que a Praça da Sé mostra é o contrário do que ensinam pra gente. A coragem que funcionou ali não era de ninguém em particular. Era do anarquista que aceitou ficar do lado do comunista, do sindicato que convocou, do exilado que já tinha visto o fascismo no poder e não queria ver de novo. Ninguém precisou ser herói. Precisou estar junto, no mesmo lugar, na mesma hora.
Por isso, desconfie de quem vende coragem como coisa de homem sozinho, de farda e peito estufado. Isso é figurino. A coragem que dura é combinada antes: na reunião do sindicato, na associação do bairro, no grupo que decide junto e aparece junto. Sozinho, até o mais valente treme. Junto, quase todo mundo descobre que tem coragem.
A história da milícia, do comandante dela e de onde os livros dele foram parar está no episódio sobre o integralismo (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

