Em agosto de 2026, quem ganha o salário mínimo precisou trabalhar 98 horas e 37 minutos só pra comprar a cesta básica. É mais de doze dias de oito horas. A conta é do DIEESE, o departamento de estatística dos sindicatos, e dá 48,46% do salário mínimo líquido, quase metade do que cai na conta, só na comida da cesta. O aluguel, a luz, o gás e o ônibus vêm depois, com o que sobrou.
Não é surpresa o que acontece em seguida. Em julho de 2026, 82% das famílias brasileiras tinham alguma dívida, o maior patamar já medido pela CNC, a entidade dos patrões do comércio. Numa rua com dez casas, em oito tem dívida. E, entre as famílias endividadas, 85,3% devem no cartão de crédito.
O cartão é onde a conta pesa mais. Quem não consegue pagar a fatura inteira cai no rotativo, e em agosto de 2026 o juro médio dele chegou a 444,9% ao ano, pelos dados do Banco Central. Desde janeiro de 2024, a Lei 14.690/2023 limita os juros e encargos do rotativo a 100% do valor original da dívida: o país precisou escrever em lei que uma dívida de cartão não pode mais que dobrar.
No mesmo país, o Itaú teve lucro de R$ 46,8 bilhões em 2025. Dá uns R$ 128 milhões por dia, quase 80 mil salários mínimos. Por dia.
Agora repare em como cada um desses números é tratado. Quem deve vive a dívida como vergonha. Esconde do vizinho, deixa o telefone tocar, ouve que não soube se controlar, que precisa de educação financeira, que é só cortar o cafezinho e fazer uma planilha. A dívida vira defeito de quem deve, assunto da mesa da cozinha, resolvido de cabeça baixa. Já o lucro de banco sai no noticiário como resultado, com gráfico e entrevista, e ninguém espera que alguém ali sinta vergonha de nada.
Só que, quando oito em cada dez casas devem, a explicação pelo caráter não para em pé. Não existe um país em que 82% das famílias nasceram sem juízo. O que existe é um salário que não cobre a comida e o resto, e um crédito caro oferecido justamente pra tapar a diferença. A dívida não é o desvio da regra. Pra muita gente, é o único jeito de o mês chegar até o fim.
E a vergonha tem uma utilidade. Quem tem vergonha não fala do assunto. Não compara a própria fatura com a do vizinho, e por isso não descobre que a do vizinho é parecida. Cada família acha que o problema é só dela e encara o banco uma de cada vez, do lado mais fraco do balcão. Uma dívida que é de quase todo mundo, vivida como segredo de cada um, é a situação mais confortável possível pra quem está do outro lado.
O primeiro passo pra mudar isso é simples e custa pouco: falar. Contar quanto se paga de juro, quanto foi a cesta, quanto sobrou do salário. Quando a conta sai da cozinha e vai pra roda de conversa, ela para de parecer fracasso pessoal e começa a parecer o que é: o jeito como o país foi montado.
Oito em cada dez casas devendo não é retrato de gente que não sabe fazer conta. É retrato de um país. A vergonha está no endereço errado.
A primeira cobrança, a que acontece dentro da firma antes de o salário cair na conta, está no episódio sobre por que a gente trabalha tanto (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

