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Fio Vermelho

A saudade de uma média: o que o "na ditadura era melhor" não conta

Por Fio Vermelho ·

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Vídeo curto do pensamento: A saudade de uma média: o que o "na ditadura era melhor" não conta

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"Na ditadura era melhor" é frase de fila de banco, de grupo da família, de mesa de bar. E ela não nasce do nada. Entre 1964 e 1974, a economia brasileira mais que dobrou de tamanho. Em 1973, o PIB cresceu 14%. Quem viveu aqueles anos lembra de um país que crescia, e a lembrança não é inventada.

Tem mais uma parte de verdade, e ela vem dos números do próprio governo. O economista Carlos Langoni estudou o Censo de 1970 e mostrou que a renda média subiu em todas as faixas, inclusive entre os 10% mais pobres, que passaram de 25 para 32 cruzeiros por mês, uns 28% a mais. Quem diz que o pobre ficou mais pobre em renda média, naquela década, está errado pela tabela do governo.

Só que a mesma tabela mostra pra onde foi o crescimento. Os 10% mais ricos tinham 39,66% de toda a renda em 1960; em 1970, tinham 47,79%. A metade mais pobre do país caiu de 17,71% para 14,91%. A renda média do topo subiu 66,9%, mais que o dobro do que subiu a da base. Todo mundo andou, e uns andaram de carro enquanto outros iam a pé.

No salário, a conta é mais dura. Pela série do Ipea, o salário mínimo real perdeu um terço do valor entre 1964 e 1974, e ficou parado no chão enquanto o PIB crescia perto de dez por cento ao ano. Pra comprar a cesta básica de um adulto, quem ganhava o mínimo trabalhava umas 88 horas em 1965; em 1974, 163. No setor metalúrgico, entre 1966 e 1974, a produtividade subiu 99% e o salário real médio não saiu do lugar. Em 1980, o salário era 17% do valor do produto industrial; a média mundial, segundo a mesma fonte, era 42%.

"Melhor" é palavra de média. E a média é o lugar onde o dono da fábrica e o prensista se encontram sem nunca terem se visto: soma o que os dois ganham, divide, e o resultado não descreve a vida de nenhum deles.

Mas a nostalgia esconde outra coisa, mais grave que a média. Ela esconde o silêncio. Em 1962 o país teve 154 greves; em 1970, 12; em 1971, nenhuma registrada. Sindicato com interventor, lei de greve feita pra greve não acontecer. Quando ninguém pode reclamar, fica a impressão de que ninguém tinha do que reclamar. Boa parte da lembrança de um tempo tranquilo é lembrança de um tempo em que a reclamação era caso de polícia.

Isso vale pra hoje, e não só pra quem tem saudade de farda. Toda notícia de que o país cresceu é uma notícia pela metade. Crescimento é uma informação; divisão é outra, e a segunda quase nunca vira manchete. Quando o número que se comemora é uma média, a pergunta que falta é sempre de que fatia a gente está falando. Um país pode bater recorde e, ao mesmo tempo, pedir mais horas de trabalho pra pôr a mesma comida na mesa.

A frase "na ditadura era melhor" tem um sujeito escondido. Melhor pra quem viu sua fatia crescer quase 67%, com a boca dos outros fechada por lei. Frase sem sujeito é frase que alguém prefere que você não complete.

O número de 1980 e o nome que a gente dá pra essa diferença estão no episódio sobre a ditadura vista de quem trabalhava (abre em outra aba).

Por Fio Vermelho ·

Fontes

4 fontes · 3 confirmadas · 1 disputada

TD251

Fonte confirmada.

A distribuição de renda durante o 'milagre econômico' brasileiro: um balanço da controvérsia — Barone & Bastos, IE/Unicamp, Texto para Discussão 251 (tabelas de Langoni, 1973), 2015-02

Pela tabela de Langoni com o Censo de 1970: os 10% mais ricos passaram de 39,66% para 47,79% da renda; a metade mais pobre, de 17,71% para 14,91%; a renda média subiu em todas as faixas (10% mais pobres de Cr$ 25 para 32; 10% mais ricos +66,9%).

https://www.eco.unicamp.br/images/arquivos/artigos/3386/TD251.pdf

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IPEA-SALMIN

Fonte confirmada.

Salário mínimo real (série GAC12_SALMINRE12) e PIB (série SCN10_PIBG10) — Ipeadata (Ipea; IBGE/SCN)

O PIB mais que dobrou entre 1964 e 1974, com 14% em 1973; o salário mínimo real caiu 34,4% entre 1964 e 1974, despencando em 1964-67 e ficando parado durante o milagre.

Esse documento não tem link público.

CNV-V2

Fonte confirmada.

Relatório da Comissão Nacional da Verdade, volume II, texto 2 — Comissão Nacional da Verdade, 2014

As horas de trabalho no mínimo pra comprar a cesta (88h16 em 1965, 163h32 em 1974, Moreira Alves); produtividade metalúrgica +99% com salário real parado em 1966-1974 e salário em 17% do produto industrial em 1980 (Edmilson Costa); greves por ano: 154 em 1962, 12 em 1970, nenhum registro em 1971 (Erickson).

https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/cnv/pdf/volume_2_digital.pdf

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HORAS-CESTA

Fonte disputada: os historiadores discordam.

Horas de trabalho pra comprar a cesta em 1965 — CNP/IPLAN/IPEA (1979, dado do DIEESE) e Maria Helena Moreira Alves (via CNV)

Quantas horas o mínimo exigia pra comprar a cesta em 1965: o documento do Ipea de 1979 dá 87h20; Moreira Alves, citada pela CNV, dá 88h16. O texto diz "umas 88 horas".

Aqui os historiadores discordam.

https://repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/0f66d0e7-26b2-4b0d-84c1-5f54e3098a43/content

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