Em 12 de fevereiro de 2020, o dólar bateu R$ 4,35, o quarto recorde seguido. Perguntado sobre isso, o ministro da Economia do governo de então disse que um dólar um pouco mais alto é bom pra todo mundo. E lembrou do tempo do dólar barato com uma frase que ficou:
empregada doméstica indo pra Disneylândia, uma festa danada
Oito dias depois, em 20 de fevereiro, ele pediu desculpas. A desculpa encerrou o assunto. Não desfez o que a frase dizia: pra quem comandava a economia do Brasil, a empregada doméstica no avião era sinal de que alguma coisa estava fora do lugar.
Não era a primeira vez que ela aparecia assim. Em 2012, a Câmara votou a mudança na Constituição que deu às trabalhadoras domésticas o que todo trabalhador de carteira já tinha: horário com limite, hora extra, fundo de garantia. Em 2013, um deputado que anos depois chegaria à presidência, e que teria esse mesmo ministro na Economia, foi contra e disse na TV Câmara:
É um exército de pessoas que vão para a informalidade ou vão para o Bolsa Família
Duas falas, de duas pessoas, com sete anos de distância. Quando o direito era dela, falaram em informalidade. Quando a viagem era dela, falaram em festa danada. Nas duas, a mesma ideia: o que é normal pra quem tem carteira assinada vira exagero quando chega na cozinha dos outros.
Isso diz muito sobre como o país se organiza. Tem um pedaço da classe média e da elite cuja vida confortável depende de alguém que cozinha, lava e cuida das crianças por pouco dinheiro. Até aquela mudança na Constituição, esse trabalho ficava fora de regras que valiam pra quase todo mundo. Quando ele fica um pouco mais caro, ou quando quem faz ganha um pouco mais de folga, o incômodo não aparece como interesse. Aparece como preocupação: com o emprego dela, com a economia, com o câmbio. A palavra é técnica. O susto é com quem saiu do lugar.
E o câmbio tem lado. Quando o dólar sobe, quem recebe em real compra menos. "Bom pra todo mundo" só fecha a conta se "todo mundo" não incluir quem recebe salário em real, a começar pela própria empregada.
A cena se repete hoje com outros personagens. A diarista que pede carteira, o entregador que pede regra, a cuidadora que pede hora de almoço. A cada direito pedido por quem serve, aparece alguém pra anunciar que o emprego vai acabar. Repare que esse aviso quase nunca vem quando o benefício é de quem já tem. Ninguém fala em informalidade quando o desconto é pro patrão.
Quando o direito de quem trabalha soa como bagunça, é porque a ordem foi feita sem ela.
As duas frases, e o que mais aquele governo entregou e pra quem, estão no episódio sobre quem lucrou com ele (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

