A Taurus vendeu 279,9 mil armas no Brasil em 2020: mais de 700 por dia, todo dia do ano. As vendas dela no mercado brasileiro passaram de R$ 187,4 milhões em 2019 para R$ 381,2 milhões. O lucro do ano, R$ 263,6 milhões, foi seis vezes o do ano anterior. É justo dizer que a maior parte do faturamento veio de vendas fora do Brasil, principalmente pros Estados Unidos, e que o lucro não nasceu todo aqui. Mas, sobre o Brasil, a empresa escreveu no relatório de resultados uma frase que vale ler inteira:
A mudança da legislação nacional com relação à posse de armas levou à mudança no perfil de consumo de armas no Brasil, com aumento da procura por armas de calibres anteriormente restritos, como 9mm e fuzis, modelos que incorporam maior valor agregado e, portanto, maior rentabilidade para a Companhia.
Traduzindo: a lei mudou, o brasileiro passou a comprar a arma mais cara, e a arma mais cara dá mais lucro.
A lei a que a frase se refere é uma série de decretos do governo federal, a partir de 2019. Os registros de caçador, atirador e colecionador, os CACs, passaram de 117.467 em 2018 para 783.385 em 2022, quase sete vezes mais, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Um atirador podia comprar até 60 armas, 30 delas de calibre restrito.
Repare nas duas línguas. Fora do relatório, arma é assunto de medo e de moral: defender a casa, a família, a liberdade. Dentro do relatório, a mesma coisa vira "perfil de consumo", "valor agregado", "rentabilidade". Uma língua é feita pra convencer quem vota. A outra é feita pra prestar contas a quem tem dinheiro investido. Só a segunda fala de dinheiro.
Isso não é coisa de fábrica de arma. É como a economia em que a gente vive conversa. Em público, toda mudança de lei chega embrulhada em valor: liberdade, modernização, segurança, geração de emprego. No documento pro investidor, a mesma mudança aparece pelo que é pra empresa: oportunidade de vender mais e mais caro. O sócio quer saber onde está o lucro, e a empresa tem de contar. O relatório de resultados é o lugar onde o lucro tira a fantasia.
E todo lucro tem duas pontas. Quem comprou pagou a arma. O dono da ação ficou com o lucro. A ponta que paga quase nunca lê o relatório, porque ninguém escreve relatório pra ela.
Dá pra virar isso a nosso favor. Toda vez que uma lei for vendida com palavra bonita, vale procurar quem vai falar dela no próximo balanço: a empresa de capital aberto, a associação do setor, o banco que financia. A frase verdadeira costuma estar lá, em linguagem de planilha, publicada, esperando quem tenha paciência de ler. O relatório da Taurus de 2020 continua publicado.
A propaganda fala com o eleitor; o relatório fala com o sócio. Quando os dois discordarem, acredite no que foi escrito pra quem tem dinheiro em jogo.
A outra ponta desse recibo, a que não aparece em balanço nenhum, está no episódio sobre quem lucrou com aquele governo (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

