Nos Estados Unidos dos anos 1930, a General Electric vendia duas lâmpadas pequenas de tamanho parecido e mesmo encaixe. Uma era a lampadinha de árvore de Natal, feita pra durar 500 horas. A outra era a lâmpada noturna, feita pra durar 2.000. Quatro vezes mais.
Alguns revendedores tiveram a ideia que qualquer um teria: comprar a noturna pra pendurar na árvore. Em 30 de julho de 1937, um memorando da empresa aos gerentes e vendedores recomendou investigar esses pedidos. Entre os motivos, um estava escrito com todas as letras:
our Xmas Tree Outfit manufacturers object ... because they do not want to lose the sale of C-7-½ multiple Xmas tree lamps
Em português: os nossos fabricantes de jogos de luz de Natal objetam, porque não querem perder a venda das lâmpadas de árvore.
A empresa alegou que a noturna era fraca e menos resistente pra ficar na árvore. Pode ser. Mas o papel foi parar num processo por monopólio contra a General Electric, e em 1949 o juiz escreveu que, nesse caso e no da lâmpada de lanterna, o que pesava era "o máximo retorno em lucros" pra fábrica. Sobre o Natal, disse que a empresa tinha o poder de promover um produto de vida curta no lugar de um que durava quatro vezes mais.
A gente costuma explicar a coisa que quebra cedo como limite da técnica: ainda não inventaram melhor, fazer durar sai caro demais. Essa história fura a explicação. A que durava mais não estava num laboratório do futuro. Estava no catálogo da mesma empresa, na prateleira do lado, com o mesmo encaixe. Saber fazer, a empresa sabia.
Vale olhar quem protegeu quem. Os fabricantes de jogos de luz queriam a venda da lampadinha de árvore. A General Electric levou a queixa deles em conta e mandou investigar os pedidos dos próprios revendedores. Uma empresa cuidou do negócio da outra. Do lado de fora desse acerto ficava a família que montava a árvore e voltava à loja quando a lampadinha queimava. É como a loja esconder a pilha que dura pra você seguir comprando a que acaba.
Esse tipo de acerto entre empresas não era novidade pra General Electric. A filial dela no Brasil e no México está entre as signatárias do contrato do cartel mundial da lâmpada, fechado em 1924. O que isso mudou nas lâmpadas vendidas aqui, os documentos não dizem. Mas o nome está lá, na lista.
O caso ensina uma coisa sobre a economia em que a gente vive. Quando a venda que se repete é o que sustenta o lucro, o produto que dura vira ameaça, mesmo quando já existe e está pronto. Em 1937, a noturna continuou no catálogo; o que a empresa fez foi desconfiar de quem queria usá-la na árvore e promover, pro Natal, a de vida curta. E isso não aparece na vitrine. Só aparece quando um memorando interno vai parar num tribunal.
Quando disserem que não dá pra fazer melhor, vale lembrar de 1937. Às vezes a que dura mais já está pronta, com o mesmo encaixe, e alguém foi mandado investigar quem pediu.
O contrato de 1924 e o resto dos papéis que foram parar no tribunal estão no episódio sobre a lâmpada que durava demais (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

