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Fio Vermelho

A arma que não faz barulho: a fome que ninguém assina

Por Fio Vermelho ·

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Vídeo curto do pensamento: A arma que não faz barulho: a fome que ninguém assina

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Na Guerra do Contestado, no planalto de Santa Catarina, entre 1912 e 1916, não foi a bala o que mais matou. O historiador Paulo Pinheiro Machado fez a conta do jeito que dava: "Em combate, não chegariam a mil. Mas a fome matou famílias inteiras nos redutos, seguramente mais de 10 mil pessoas". Quantos morreram de verdade, ninguém contou. As estimativas vão de 3 mil a 30 mil.

A fome não caiu do céu. O general Setembrino de Carvalho foi mandado à região em setembro de 1914, e o plano, como descreve a historiadora Márcia Espig, era de estrangulamento: quatro colunas "que progressivamente inviabilizariam o abastecimento dos rebeldes". O objetivo era cortar todo o comércio dos sertanejos. Funcionou como o plano previa. Um sobrevivente contou que, quando aparecia uma rês pra matar, "as crianças cercavam o animal abatido e comiam até as tripas quentes". No fim, comia-se xaxim, raiz, tudo o que se mexesse.

Repara na diferença entre as duas mortes. A bala tem quem atira, tem o dia, tem o lugar. Dá pra contar, dá pra processar, dá pra fotografar. A fome não tem estampido. Mata devagar, dentro de casa, e quando chega o fim parece que ninguém fez nada. Por isso a morte por bala vira guerra, e a morte por fome vira desgraça. Uma tem culpado. A outra parece ter só vítima.

Essa é uma das lições mais úteis que o poder aprendeu: tirar a comida não deixa digital. Hoje ninguém precisa cercar reduto com tropa. Basta o preço do arroz subir mais que o salário, o benefício atrasar, a merenda encolher na escola. Na hora de explicar, ninguém diz decisão. A palavra que aparece é crise, mercado, conjuntura, como se fosse chuva. E quem está com a geladeira vazia ainda escuta que precisa se planejar melhor.

Só que fome tem papel assinado, em 1914 e agora. Lá, era um plano de campanha, com um general responsável por ele. Aqui, é orçamento votado, juro decidido em reunião, preço de comida que alguém escolheu deixar correr solto. A diferença é que o papel de hoje não usa a palavra estrangular. Usa ajuste.

Então, quando o prato da tua casa encolher, não aceita a pergunta errada. A pergunta não é "o que deu errado". É "quem assinou, e quando". A fome é a única arma que consegue convencer a vítima de que a culpa é dela, e ela só funciona enquanto ninguém vai atrás da assinatura.

O cerco, o avião e o que existe hoje na terra dos redutos está no episódio sobre a Guerra do Contestado (abre em outra aba).

Por Fio Vermelho ·

Fontes

3 fontes · 2 confirmadas · 1 disputada

JU

Fonte disputada: os historiadores discordam.

Contestado: a história bem-contada — Luiz Sugimoto, Jornal da Unicamp (sobre o livro de Paulo Pinheiro Machado), 2005

Quantos morreram no Contestado: as estimativas, muito imprecisas, vão de 3 mil a 30 mil; Paulo Pinheiro Machado estima menos de mil em combate e seguramente mais de 10 mil de fome; o Arquivo Nacional fala em mais de 10 mil mortos.

Em combate, não chegariam a mil. Mas a fome matou famílias inteiras nos redutos, seguramente mais de 10 mil pessoas

Aqui os historiadores discordam.

https://www.cecult.ifch.unicamp.br/pf-cecult/public-files/publicacoes/83/liderancas-luiz-sugimoto.pdf

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ESP07

Fonte confirmada.

Breve estudo sobre o Movimento do Contestado: a historiografia militar e o caso dos operários da EFSPRG — Márcia Janete Espig, Anos 90 (UFRGS), 2007

O general Setembrino de Carvalho foi enviado ao Contestado em setembro de 1914; o plano era de estrangulamento, com quatro colunas que cortariam o abastecimento dos redutos.

que progressivamente inviabilizariam o abastecimento dos rebeldes

https://seer.ufrgs.br/index.php/anos90/article/view/5407

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TOP

Fonte confirmada.

Guerra, cerco, fome e epidemias: memórias e experiências dos sertanejos do Contestado — Paulo Pinheiro Machado, Topoi v.12 n.22, 2011

Depoimentos de sobreviventes recolhidos por Machado: as crianças comiam até as tripas quentes da rês abatida e, no fim, comia-se xaxim e tudo o que se mexia.

as crianças cercavam o animal abatido e comiam até as tripas quentes

https://revistas.ufrj.br/index.php/topoi/article/view/70481

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