Em fevereiro de 1933, a central sindical alemã ADGB prometeu ficar fora da política. Hitler tinha acabado de virar chefe do governo, e os dirigentes acharam que, baixando a cabeça, salvavam alguma coisa. Quando o novo governo transformou o 1º de maio em feriado nacional, com o dia pago, a central chamou os filiados pra festa e esperou, em troca, ver atendidas outras reivindicações. Perto de um milhão de pessoas lotaram o campo de Tempelhof, em Berlim. Uns doze Maracanãs cheios.
Na manhã de 2 de maio, a tropa do partido nazista, guiada pela organização nazista de fábrica, ocupou as sedes e os escritórios de todas as entidades da central, no país inteiro. Confiscou os bens, levou os dirigentes presos e hasteou a bandeira do partido na fachada. O dinheiro dos sindicatos foi parar na Frente Alemã do Trabalho, criada em 10 de maio: patrão e empregado no mesmo saco, com o partido mandando nos dois. O salário passou a ser fixado por funcionário nomeado pelo governo.
Não dá pra chamar aqueles homens de covardes. Eles fizeram a aposta que muita gente faz até hoje: a de que o comportamento decide o castigo. Quem fica quieto, quem não se mete, quem mostra boa vontade, escapa. A aposta errou por um motivo simples. O que incomodava não era o que os sindicatos faziam. Era o que eles eram: o lugar onde quem trabalha junta força pra negociar o preço do próprio trabalho. Isso não some com bom comportamento. Some com cadeado.
A mesma aposta tem frases conhecidas no Brasil de hoje. "Sindicato não devia se meter em política." "Associação de bairro é pra cuidar da praça, não pra fazer protesto." "No serviço, cada um na sua, que é melhor não ficar marcado." Soa como prudência, e às vezes é só cansaço de briga. Mas salário mínimo, jornada, aposentadoria, quanto custa demitir: tudo isso se decide em lei, ou seja, em política. Pedir a quem trabalha que fique neutro é pedir que saia justamente da sala onde a conta dele é feita. Do outro lado da mesa, ninguém sai.
A neutralidade tem ainda um custo que quase nunca entra na conta: quem recua sem cobrar nada em troca vai perdendo o costume de reagir, e o adversário percebe. Em 1933, cada recuo da central foi um sinal de que ela não ia reagir. Quando o dia 2 chegou, quase ninguém resistiu.
Nada disso é chamado pra bravata. É um lembrete sobre o que vale a pena proteger. Uma organização vale pelo que consegue fazer quando apertam, não pela simpatia que conquista de quem aperta. Filiado que paga a mensalidade, assembleia que enche, delegado que conhece cada turno da fábrica: é isso que faz o outro lado pensar duas vezes. Gesto de boa vontade não faz ninguém pensar duas vezes.
Quem promete ficar quieto pra ser poupado entrega justamente a única coisa que obrigava o outro lado a ter cuidado.
A festa, a manhã seguinte e a pergunta de por que tanto trabalhador aplaudiu naquele campo estão no episódio sobre o conto da extrema direita (abre em outra aba).
Por Fio Vermelho ·

