O IBGE divulgou na sexta-feira, 16 de outubro de 2026, que o Brasil tinha, em 2025, 1,499 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil, 4,0% de todo mundo dessa idade. O número caiu 9,2% em relação a 2024 e é o menor da série, que o instituto começou em 2016. Desde 2016 são 601 mil a menos, uma queda de 28,6%. Mesmo assim, numa conta nossa, dá pra lotar o Maracanã 19 vezes.
Dois cuidados que o próprio IBGE impõe. A série não tem 2020 e 2021, os anos da pandemia, então é o menor da série, não o menor da história. E o instituto classifica esses números como experimentais: "são estatísticas que estão sob avaliação". A pesquisa conta quantos são; não mede por que o número caiu.
Quem entra na conta
A régua é a da lei. Até 13 anos, qualquer trabalho conta, inclusive o trabalho pro consumo da própria família. Aos 14 e 15, só é permitido trabalhar como aprendiz. Aos 16 e 17, só com carteira assinada, e nunca em serviço insalubre, perigoso ou noturno.
Por isso o 1,5 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos não é uma fila de crianças pequenas na fábrica. Mais da metade, 58,1%, tem 16 ou 17 anos: são 871 mil. Outros 348 mil têm 14 ou 15, e 280 mil, de 5 a 13. Do total, 358 mil só produzem pro consumo da casa. O maior grupo está no comércio, que na conta do IBGE inclui oficina de carro e moto (29,0%), depois na roça, na criação e na pesca (16,7%).
E 525 mil estavam em ocupações que a lei põe entre as piores formas de trabalho infantil, listadas no Decreto 6.481/2008.
Semana de adulto, dinheiro de menos
De todos os que estavam em trabalho infantil, 21,4% trabalhavam 40 horas ou mais por semana: um em cada cinco cumpria semana de adulto. Entre os de 16 e 17 anos, eram 29,6%, e quase metade desse grupo trabalhou no mínimo 25 horas por semana.
Pelo IBGE, quem fazia 40 horas ou mais tirava em média R$ 1.439 por mês. O salário mínimo de 2026 é R$ 1.621. Numa conta nossa sobre essa média, a semana inteira de adulto rende uns 89% de um mínimo, R$ 182 a menos todo mês.
A semana de trabalho sai de algum lugar, e sai da escola. Entre todos os brasileiros de 16 e 17 anos, 89,6% estavam estudando. Entre os de 16 e 17 em trabalho infantil, só 79,6%: um em cada cinco fora da sala de aula. E 705 mil deles trabalhavam na informalidade.
Também não é qualquer criança. Nas casas com alguém de 5 a 17 anos em trabalho infantil, a renda média era de R$ 1.383 por pessoa por mês; nas casas com gente dessa idade e ninguém trabalhando, R$ 1.591. Pretos e pardos são 59,7% da população de 5 a 17 anos, mas 67,0% dos que estão em trabalho infantil.
O fio: o banho de água fria de 1917
O episódio Por que a gente trabalha tanto e continua na merda (abre em outra aba) fala de um menino operário que, nos anos da greve de 1917, deu depoimento ao jornal A Gazeta, de São Paulo. Segundo a reportagem da CUT republicada pela Fundação Perseu Abramo, ele tinha 12 anos e trabalhava das 7 da noite às 6 da manhã, 11 horas de serviço, com 25 minutos de descanso. E contou o que acontecia com quem não aguentava: "Quando um menino vem a ter muito sono e larga o trabalho indo dormir alguns minutos escondido, acordam-no com um banho de água fria".
A greve geral de 1917 parou mais de 70 mil trabalhadores em São Paulo. A jornada de 8 horas era o pedido mais conhecido, mas a pauta pedia também o "fim do trabalho de menores de 14 anos" e o "fim do trabalho noturno para as mulheres e menores de 18 anos".
Hoje, o artigo 7º da Constituição, no inciso XXXIII, garante a "proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos". O que os grevistas pediam na rua está, hoje, escrito na lei. O episódio resume: "toda hora livre que a gente tem hoje foi arrancada por gente que parou de trabalhar".
O IBGE não mede em que horário esses adolescentes trabalham, então a comparação com o menino de 1917 é pela jornada, não pelo turno. Mais de cem anos depois da greve, a lei proíbe o que ela pedia, e o país ainda tem um em cada cinco desses meninos e meninas cumprindo 40 horas por semana.
O que vem agora
O número está fechado: não há votação, prazo ou recurso pendente. Como a estatística é experimental, o IBGE pode revisá-la, mas não marcou data pra isso.
A regra está na Constituição desde 1988, e desde 1998 com a idade mínima de 16 anos. A queda mostra que o número se mexe. O 1,5 milhão mostra o tamanho do que a lei ainda não alcança.
