O desemprego no Brasil caiu para 5,2% no terceiro trimestre de 2026, o trimestre de julho a setembro. É a menor taxa para esse período desde 2012, quando começa a série. Os dados são do IBGE, da PNAD Contínua, divulgados em 30 de outubro, via Agência Brasil (abre em outra aba). No trimestre anterior a taxa estava em 5,4%; um ano antes, em 5,6%.
O número que mais pesa é o outro: 103,6 milhões de pessoas trabalhando, a maior população ocupada da série histórica. Ficaram 5,6 milhões procurando emprego sem achar.
A notícia boa, sem desconto
Tem mais gente com trabalho, e o dinheiro que entra no bolso de quem trabalha, somado, também bateu recorde. A massa de rendimento real habitual chegou a R$ 387,5 bilhões, a maior da série. O rendimento médio de todos os trabalhos ficou em R$ 3.790, estável em relação ao trimestre anterior e 3,6% acima do mesmo período do ano passado.
Isso é vitória de verdade para quem estava na fila do emprego e saiu dela. Ninguém aqui vai torcer o nariz para isso. A Itatiaia ouviu economistas que veem sinais de desaceleração da atividade, ligados aos juros altos; é um alerta, não uma conta fechada. E a gente não vai inventar o motivo da queda: nenhum dos dados divulgados diz qual foi a causa.
Agora, olha o que sobra
Emprego não basta. A pergunta é que emprego é esse e o que ele garante a você. E aí o mesmo levantamento mostra o outro lado: 38,8 milhões de trabalhadores estão na informalidade, 37,5% de todo mundo que trabalha. Mais de um em cada três brasileiros ocupados não tem a proteção completa de um emprego formal.
Informal não é a mesma coisa que sem carteira. Dentro desses 38,8 milhões está o empregado sem carteira, mas também quem trabalha por conta própria sem CNPJ, entre outros. Segundo a Tribuna de Jundiaí (abre em outra aba), com dados do IBGE, o setor privado tinha 39,4 milhões com carteira, estável, e 13,7 milhões sem carteira, também estável. Os trabalhadores por conta própria eram 26,1 milhões. E 2,5 milhões de pessoas estavam desalentadas: desistiram de procurar.
Quer dizer: o recorde de gente trabalhando não trouxe, no trimestre, um salto de carteira assinada. E o rendimento ficou estável de um trimestre para o outro. E, para quem está na informalidade, quando a doença chega ou o serviço some, a conta do mês fica sem ninguém do outro lado.
O fio dessa história
No episódio "Feriado no 1º de Maio, sindicato fechado no dia 2" (abre em outra aba), a gente usou uma régua para desmontar a propaganda de quem diz que acabou com o desemprego: emprego tinha; a sacola da feira é que voltava mais leve. Contar quantos têm trabalho é só metade da conta. A outra metade é o que esse trabalho compra e que direito ele dá.
Aplicada ao Brasil de hoje, a régua dá um resultado misto, e é justo dizer isso. O rendimento subiu em 12 meses, e a massa de renda é recorde. Mas a régua não mede só o salário: mede também quem fica fora da proteção. E aí são 38,8 milhões de pessoas.
O que pode mudar, e até quando
Na quarta-feira, 4 de novembro, o Ministério do Trabalho divulga o Caged de setembro, o retrato do emprego com carteira assinada. É o segundo termômetro, e diz se a vaga formal está crescendo junto com a ocupação.
A outra frente é a jornada. A Emenda Constitucional 141, a do fim da 6x1, "estabelece o prazo de 60 dias para a implementação da nova jornada", e, segundo nota do Ministério do Trabalho e Emprego (abre em outra aba) de 27 de outubro, não abre exceção para categoria ou setor. A indústria de refrigerantes, pela Abir, pediu mais tempo. Na mesma nota, o ministério, com o ministro em exercício Chico Macena, prometeu: "o Ministério prepara uma portaria sobre a implementação das novas regras, com publicação prevista até o final deste mês." O mês era outubro.
O que dá pra exigir
- O quê: a portaria de implementação da 5x2 publicada no Diário Oficial, sem brecha por setor, como a própria nota diz que a emenda manda.
- Quem decide: o Ministério do Trabalho e Emprego, hoje com Chico Macena como ministro em exercício.
- Quando: a nota de 27 de outubro prometia a publicação até o fim de outubro.
- Onde acompanhar: as notícias do MTE (abre em outra aba) e o Diário Oficial da União.
E fica a pergunta que a régua deixa: a folga a mais é regra para quem tem patrão que cumpre a lei e fiscal que aparece. Quem está entre os 38,8 milhões da informalidade não tem ninguém medindo a jornada. Por isso a portaria importa, e importa o que vem com ela: fiscalização que chegue a quem tem carteira e não vê a lei cumprida.
