A comida básica ficou mais cara em todas as 27 capitais do Brasil de agosto pra setembro. É o que mostra a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, do DIEESE, o instituto de pesquisa dos sindicatos, com a Conab, a Companhia Nacional de Abastecimento, divulgada na sexta-feira, 9 de outubro. Na média das capitais, quem ganha um salário mínimo precisou trabalhar 102 horas e 11 minutos em setembro só pra pagar a cesta. Em agosto tinham sido 98 horas e 37 minutos: são 3 horas e 34 minutos a mais de trabalho pela mesma comida.
A cesta, aqui, não é o carrinho do mês da família. É a comida de um adulto por um mês: 13 produtos no Centro-Sul e 12 no Norte e no Nordeste, onde não entra batata e a farinha é de mandioca. As quantidades são as da ração essencial fixada em 1938 pelo Decreto-lei 399. É a mesma régua há quase 90 anos.
O que muda pra quem trabalha
Do salário mínimo de R$ 1.621, saem 7,5% de INSS antes de o dinheiro cair na conta. Do que sobra, 50,21% foi pra cesta em setembro, na média das capitais. Em agosto tinham sido 48,46%; em setembro do ano passado, 49,09%. Traduzindo: metade do que o trabalhador do piso recebe vai pra comer o básico, ele sozinho. Aluguel, luz, gás, ônibus, remédio e a comida dos filhos saem da outra metade.
Em São Paulo é pior. A cesta mais cara entre as capitais custou R$ 922,51 e pediu 125 horas e 12 minutos de trabalho no mínimo, ou 61,52% do salário líquido. Em 12 meses, a cesta paulistana subiu 9,53%. No mesmo período, o mínimo foi de R$ 1.518 pra R$ 1.621, uma alta de 6,8% (conta nossa). A comida correu na frente do salário.
A cesta mais barata saiu em Aracaju, por R$ 587,76. A maior alta do mês foi em Florianópolis (7,61%), seguida do Rio de Janeiro (7,32%). Em 12 meses, a cesta ficou mais cara em todas as capitais, de 2,61% em Boa Vista a 15,14% em Fortaleza.
E quanto deveria ser o mínimo? O DIEESE faz a conta pelo que a Constituição manda o salário cobrir (comida, moradia, saúde, educação, transporte, lazer e o resto) pra uma família de quatro pessoas. Em setembro, deu R$ 7.750,01: 4,78 vezes o mínimo que está valendo.
O que subiu, o que caiu e por quê
O tomate subiu em todas as capitais menos Macapá, e em Florianópolis ficou 65,55% mais caro em um mês. A batata subiu em todas as cidades do Centro-Sul, onde ela é pesquisada: de 9,94% em São Paulo a 46,03% no Rio. O arroz agulhinha subiu em 24 capitais, e a carne de primeira, em 23.
Nem tudo subiu. O café em pó ficou mais barato em 25 das 27 capitais, e o feijão caiu em 18. Mas o alívio do feijão é de um mês só: em 12 meses, ele subiu em todas as capitais. O carioca, de 27,81% em Campo Grande a 61,28% em Macapá; o preto, de 22,52% em Porto Alegre a 35,73% em Curitiba.
Segundo o DIEESE, a alta acompanha uma subida dos alimentos no mundo inteiro, medida pela FAO, o órgão da ONU pra alimentação, puxada por conflitos internacionais que travam a logística e pelo clima. Aqui dentro, ainda segundo o DIEESE, o frio atrasou o tomate, a procura de fora pesou no arroz e a chuva derrubou a oferta de batata.
O fio: a mesma cesta na ditadura
A régua de 1938 é a mesma que mostra o que aconteceu com quem trabalhava na ditadura. Em 1965, o trabalhador do mínimo precisava de umas 88 horas pra comprar a ração essencial: 87h20 num documento do Ipea de 1979, com dado do DIEESE, ou 88h16 pela pesquisadora Maria Helena Moreira Alves, citada pela Comissão Nacional da Verdade. Em 1974, eram 163 horas e 32 minutos. De 1964 a 1974, a economia brasileira mais que dobrou, e o salário mínimo, descontada a inflação, perdeu um terço do valor.
Dá pra pôr hoje do lado? Com cuidado, porque as horas não são a mesma conta: hoje o DIEESE divide o salário por um mês de 220 horas; o documento de 1979 usava cerca de 240, porque antes de 1988 a semana era de 48 horas. Por isso a gente compara em pedaço do salário mínimo bruto, numa conta nossa: a ração de um adulto custava cerca de 36% do mínimo em 1965 e 68% em 1974. Em São Paulo, em setembro de 2026, custou 57%. Não é comparação exata, mas a régua é a mesma: a comida de uma pessoa, medida no salário de quem ganha menos.
É essa a conta do episódio sobre a ditadura vista de quem trabalhava, da série Brasil de Baixo pra Cima, que estreia nesta quarta-feira, 14 de outubro, às 19h, no YouTube do Fio Vermelho.
O que pode mudar, e quando
O número de setembro está fechado, e a pesquisa completa está no site do DIEESE (abre em outra aba). A próxima, com os preços de outubro, sai no começo de novembro e vai dizer se a alta do tomate e da batata perde força ou continua.
Até lá, a conta de setembro é esta: de cada R$ 2 que caem na conta de quem ganha o mínimo, R$ 1 vai pra comida básica de uma pessoa só.
