Em novembro de 2010, na TV da Câmara, o deputado Jair Bolsonaro defendia castigo físico em criança. Deu como exemplo o filho que "começa a ficar meio assim, meio gayzinho": "leva um couro, ele muda o comportamento dele". Ninguém foi preso por essa frase. Ela foi tratada do jeito que essas frases costumam ser tratadas lá em cima: polêmica, opinião, coisa de quem fala o que pensa.
Cá embaixo, a mesma ideia não tem aspas. Em 15 de fevereiro de 2017, no Bom Jardim, em Fortaleza, Dandara dos Santos, travesti de 42 anos, foi espancada até a morte, e quem bateu filmou. Ninguém liga os assassinos dela a deputado nenhum, e este texto também não liga. Mas o Brasil é, há 18 anos seguidos, o país que mais mata gente trans no mundo: 80 assassinatos só em 2025, segundo o dossiê da ANTRA. Uma sociedade que escuta como opinião a ideia de que o filho diferente se conserta na surra é a mesma que bate, filma e espalha.
É uma divisão de trabalho, e ela é bem desigual. Quem fala no microfone ganha entrevista, corte e seguidor. Quem leva a frase a sério pega o pau, a arma, o celular pra filmar. E quem morre é quem estava longe dos dois: o vizinho, a travesti do bairro, o tesoureiro do partido no próprio aniversário. Em 9 de julho de 2022, Marcelo Arruda comemorava 50 anos numa festa em Foz do Iguaçu quando Jorge Guaranho chegou tocando música do Bolsonaro e atirou três vezes. O júri, em Curitiba, condenou Guaranho a 20 anos e deixou o motivo escrito: divergência política.
Pense no teu filho, no teu sobrinho, no aluno da escola da esquina. A frase que alguém repassa no grupo da família rindo é a mesma que um menino ouve em casa antes de apanhar. O dano não fica no estúdio onde ela foi dita. Ele aparece no hospital, no velório, na festa que acabou em tiro.
Por muito tempo pareceu que a conta só se cobrava embaixo: o atirador ia a júri, e quem fazia o discurso ia pro próximo programa. Isso começou a mudar, e mudou por sentença, com nome e número. Carla Zambelli, que correu de arma na mão atrás de um homem desarmado na véspera da eleição de 2022, está condenada pelo Supremo a 5 anos e 3 meses, sem recurso desde 30 de outubro de 2025. Jair Bolsonaro foi condenado pela Primeira Turma do Supremo a 27 anos e 3 meses por golpe, e cumpre pena em prisão domiciliar desde março de 2026.
Essas sentenças não apagam Dandara nem devolvem Marcelo à festa. Mas desmontam a desculpa mais antiga de quem manda: a de que palavra de cima é só palavra e não tem endereço. Tem, e a Justiça brasileira já mostrou que sabe achar o endereço quando a fala vira arma na rua e plano no papel. O que não dá é aceitar que a escada da cobrança pare no degrau de baixo, onde fica sempre quem não tinha microfone nenhum.
Por Fio Vermelho ·

