No domingo, 4 de outubro de 2026, o PL elegeu 121 deputados federais, a maior bancada eleita por um partido desde 1990: só o antigo PMDB, em 1986, fez mais. No Senado, levou 19 das 54 vagas em disputa, segundo a contagem do Congresso em Foco, mais do que o MDB e o PT juntos. E cinco governadores do PL já saíram eleitos no primeiro turno.
Michelle Bolsonaro virou senadora pelo Distrito Federal com 938.496 votos, ao lado de Bia Kicis, que chama os condenados do 8 de janeiro de "presos políticos". Carlos Bolsonaro, vereador do Rio por seis mandatos, mudou o domicílio eleitoral pra Santa Catarina e saiu de lá senador. Nikolas Ferreira foi o deputado mais votado do país: 3.119.318 votos, quase um em cada quatro eleitores que foram às urnas em Minas Gerais.
Flávio Bolsonaro liderou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos e perdeu o segundo, em 25 de outubro: Lula foi reeleito. Na mesma noite, Flávio disse que é "impossível reconhecer o resultado" e anunciou que vai pedir a anulação da eleição. O motivo que ele deu: um ministro do STF prorrogou a votação em duas horas no país inteiro. A campanha dele também tinha pedido ao TSE pra estender o horário, até as 19h, em cidades de São Paulo, do Paraná e de Santa Catarina. Nove dias antes, numa sabatina na TV Globo, ele tinha prometido: "Independentemente de qual for o resultado, vou respeitar". A Presidência eles não levaram. No Congresso, fizeram a maior bancada em 40 anos, e essa bancada fica quatro anos. A pergunta não se decide numa noite: que projeto é esse, de onde vem e o que faz com a caneta na mão. A resposta está na história e no painel de votação.
"Deus, Pátria e Família" tem certidão de nascimento
Em 7 de outubro de 1932, Plínio Salgado lançou o Manifesto de Outubro e, com ele, a Ação Integralista Brasileira, a versão nacional da extrema direita que crescia na Europa. Em 1930, ele tinha ido à Itália estudar o fascismo e foi recebido por Mussolini. O primeiro item do manifesto trazia Deus, a Pátria e a Família, as três com inicial maiúscula.
O historiador Leandro Gonçalves, especialista em integralismo, chamou a frase, nos anos Bolsonaro, de "o slogan fascista mais repetido ao longo deste governo". Bolsonarismo não é integralismo requentado. Mas o lema é o mesmo e a origem é essa. Ninguém pega emprestada uma bandeira de 1932 por acaso.
Existe até uma ponte de carne e osso. Em 1937, Olímpio Mourão Filho chefiava o serviço secreto da AIB quando escreveu o Plano Cohen, um falso plano comunista de greve geral, saques e incêndios, lido no rádio e usado pra abrir caminho ao golpe do Estado Novo. Em 31 de março de 1964, o mesmo Mourão deu a largada, em Minas Gerais, no golpe que derrubou João Goulart.
O que a ditadura fez e o que ele disse dela
A Comissão Nacional da Verdade conseguiu provar 434 mortos e desaparecidos na ditadura, e apontou 377 responsáveis por crimes contra a humanidade, como tortura e execução.
Jair Bolsonaro olhou pra isso e achou pouco. Em 2016, no programa Pânico, da Jovem Pan, disse: "O erro da ditadura foi torturar e não matar." No mesmo ano, no voto do impeachment de Dilma Rousseff, abriu assim: "Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff". Ustra é o coronel que a Justiça de São Paulo declarou torturador em 2012. Presidente, em 2019, Jair mandou o Ministério da Defesa fazer as "comemorações devidas" do 31 de março de 1964.
E não ficou na fala. Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por cinco crimes, entre eles tentativa de golpe de Estado e organização criminosa armada. Desde 25 de novembro de 2025 não cabe mais recurso, e ele cumpre a pena. O homem que mandou comemorar um golpe foi condenado por tentar outro. O filho Eduardo já tinha dito, em 2019, que "se a esquerda radicalizar" a resposta podia vir "via um novo AI-5", o ato que fechou o Congresso em 1968. Pediu desculpas no dia seguinte.
Como o fascismo chegou lá: de braço dado com a direita "respeitável"
O fascismo não tomou o poder sozinho. Na Itália, as esquadras fascistas destruíram em poucos meses boa parte das organizações operárias do vale do Pó, com dinheiro graúdo dos grandes proprietários de terra. Em 1921, entraram no Parlamento pela mão do velho liberal Giolitti, que achava que ia domesticar o fascismo. Em outubro de 1922, o rei se recusou a decretar estado de sítio contra os esquadristas, e Mussolini montou governo com liberais e católicos.
Na Alemanha, os nazistas nunca tiveram maioria em eleição livre: fizeram 37% dos votos em julho de 1932 e caíram pra 33% em novembro. Quem botou Hitler lá foram os conservadores. Papen convenceu Hindenburg, e em 30 de janeiro de 1933 Hitler virou chanceler. Eles tinham certeza de que iam controlar o homem.
Deu no que deu, e rápido. Em 23 de março de 1933, com os 81 deputados comunistas impedidos de entrar, a Lei de Plenos Poderes deu a Hitler o poder de fazer lei sem o Parlamento. Só os social-democratas votaram contra. Em 2 de maio, a SA e a polícia ocuparam os sindicatos. O trabalhador alemão perdeu o sindicato e o direito de greve, e as condições de trabalho passaram inteiras pra mão do patrão.
O mesmo filme, em outras línguas
Nos Estados Unidos, Donald Trump tomou posse em 20 de janeiro de 2025 e, no mesmo dia, perdoou ou reduziu a pena de todos os condenados pelo ataque ao Capitólio de 6 de janeiro de 2021. Em março de 2026, perto de 70 mil pessoas estavam presas pela polícia de imigração, e 23 tinham morrido sob custódia em cinco meses, mais do que no ano anterior inteiro.
Na Argentina, a pobreza chegou a 52,9% no primeiro semestre do governo de Javier Milei, em 2024: mais da metade do país. Depois recuou e hoje está em 32,3%, quase 10 milhões de pessoas. Em agosto de 2024, aposentados que protestavam contra o veto de Milei ao aumento deles levaram gás lacrimogêneo na porta do Congresso.
Na Itália, o partido de Giorgia Meloni carrega no símbolo a chama do partido que ex-fascistas fundaram em 1946. Fabio Rampelli, então vice-presidente da Câmara pelo partido dela, disse em 2022 que a chama não tem nada a ver com os totalitarismos do século 20. Na Alemanha, a inteligência interna classificou a AfD como extremista em 2025, e um tribunal suspendeu o rótulo até o julgamento final. Em El Salvador, a Assembleia de Nayib Bukele aprovou a reeleição sem limite numa votação de minutos.
E tem a Hungria, que é a lição. Em 2022, o Parlamento Europeu declarou que o país de Viktor Orbán tinha virado uma "autocracia eleitoral". Parecia eterno. Em 12 de abril de 2026, Orbán perdeu, e o partido Tisza fez 138 das 199 cadeiras.
O fio volta pro Brasil. Em julho de 2025, a Casa Branca elevou a tarifa sobre o Brasil a 50% e justificou a medida com o processo contra Jair. Em 16 de junho de 2026, o STF condenou Eduardo a 4 anos e 2 meses de prisão por coação no curso do processo: segundo a denúncia que o Supremo acolheu, ele fez gestões pra que os Estados Unidos punissem autoridades brasileiras e impusessem medidas econômicas ao país. O político da pátria acima de tudo foi condenado por coação, e a conduta que o Supremo aceitou foi trabalhar pra que um governo estrangeiro punisse autoridades e o próprio país.
O padrão: tira de quem trabalha, protege os seus
Em 2016, Jair e Eduardo votaram sim no teto de gastos. Em 2017, votaram sim na reforma trabalhista, a do contrato intermitente, em que você só recebe pelas horas em que o patrão te chama. Em 2019, veio a reforma da Previdência do governo Jair, com idade mínima de 65 anos pra homem e 62 pra mulher, e Flávio votou sim. Um ano antes, em 2018, Jair tinha explicado a filosofia pra empresários no Rio: "é melhor menos direitos e emprego do que todos os direitos e desemprego".
O coordenador da campanha de Flávio, Rogério Marinho, disse em março que "a trabalhista tem de ser revisitada". Um estudo que gente da campanha levou a empresários fala em cortar até R$ 250 bilhões em despesas obrigatórias, com aposentadoria e BPC corrigidos só pela inflação, num país em que sete de cada dez benefícios do INSS pagam um salário mínimo. Flávio negou e disse que não ia fazer economia em cima de quem mais precisa.
Aí vem a objeção. Em 27 de maio de 2026, quando a Câmara aprovou o fim da escala 6x1 por 472 a 22, Nikolas, Bia Kicis, Carlos Jordy, Gustavo Gayer e boa parte do PL votaram sim. No Senado, em 14 de outubro, Flávio votou sim. A isenção do Imposto de Renda pra quem ganha até R$ 5 mil passou na Câmara por 493 a 0, com o voto deles. E Flávio prometia manter o Bolsa Família.
Tudo verdade. O fim da 6x1 passou na Câmara a quatro meses da eleição, com o país olhando. Em maio, o próprio Flávio tinha oferecido outra saída: pagar por hora, com 13º, FGTS e férias "proporcionais às horas de trabalho". "Se quiserem, vão trabalhar mais", disse. E três dos 22 que votaram contra, Caroline de Toni, Nicoletti e Marcel van Hattem, saíram senadores em outubro. A gente lê assim: votaram a favor a quatro meses da urna, com todo mundo vendo. O resto aparece em outra coluna do painel.
Em 16 de setembro de 2025, a Câmara aprovou por 344 a 133 a PEC da Blindagem, que mexia nas prerrogativas de deputados e senadores, e no dia seguinte, a urgência da anistia. Em 10 de dezembro, veio o PL da Dosimetria, que reduz a pena dos condenados pelo 8 de janeiro e pela tentativa de golpe, Jair incluído: segundo o relator, o regime fechado dele poderia cair pra 2 anos e 4 meses, conta que advogados contestam. Nas três votações, Nikolas, Bia Kicis, Jordy e Gayer votaram sim. Lula vetou; em 30 de abril de 2026, o Congresso derrubou o veto. Em 16 de outubro, numa sabatina na TV, Flávio chamou o julgamento do pai de "farsa".
Trump perdoou; aqui, votaram a urgência da anistia e, no fim, cortaram a pena. Com uma mão, votam o direito que todo mundo está vendo. Com a outra, aliviam a pena de quem tentou o golpe e mexem nas regras que protegem o próprio mandato. Aliviar a pena de quem atacou a democracia é avisar ao próximo que vale a pena tentar.
O inimigo de plantão
A violência política já matou. Em 9 de julho de 2022, Marcelo Arruda foi morto na própria festa de 50 anos, em Foz do Iguaçu, por Jorge Guaranho, que chegou tocando música do Bolsonaro. Guaranho foi condenado a 20 anos por homicídio qualificado por motivo fútil: a divergência política.
E pra ninguém olhar a coluna das votações, sempre tem um inimigo à mão. No Dia Internacional da Mulher de 2023, Nikolas subiu à tribuna da Câmara de peruca e disse: "Hoje eu me sinto mulher, deputada Nikole." Em abril de 2025, a Justiça do Distrito Federal condenou ele a pagar R$ 200 mil por danos morais coletivos pelo discurso transfóbico, numa decisão cível de primeira instância, da qual cabia recurso. O integralismo tinha o comunista e o judeu. Trump tem o imigrante. Aqui, a pessoa trans serve de alvo. Muda o alvo, não a função: botar o trabalhador pra brigar com quem está do lado dele enquanto a reforma passa. O método se reconhece pelo que já está aqui: lema de 1932, inimigo interno, golpista com pena aliviada.
O que a gente faz com isso
Os nazistas foram atrás dos sindicatos três meses depois da posse, e não por acaso: trabalhador organizado é o obstáculo que esse projeto não contorna com lema nem com vídeo viral. E a prova mais perto de casa é a própria 6x1: os mesmos deputados que aliviam a pena de golpista votaram pelo fim da escala com gente demais olhando.
É isso que funciona: não parar de olhar. Cada votação nominal é pública, nome por nome, no site da Câmara. A memória é nossa.
Perderam a Presidência, mas têm 121 cadeiras e quatro anos, e já cortaram a pena de golpista uma vez, derrubando o veto de Lula em 30 de abril. Desde a noite de 25 de outubro, Flávio quer anular a eleição. Em 2022, o PL tentou parecido: a coligação de Jair pediu pra invalidar os votos de 279 mil urnas do segundo turno. O TSE negou o pedido e multou a coligação em R$ 22,9 milhões por má-fé. Então a exigência tem nome. Quando o pedido de Flávio chegar à Justiça: julgar rápido e às claras e, se for má-fé de novo, multar de novo, como o TSE fez em 2022. Na Câmara: o deputado que votar de novo pra aliviar pena de golpista vai ver o próprio nome em cada porta de fábrica e em cada grupo de zap do bairro dele. O fim da 6x1 já mostrou que dá pra ganhar deles quando o país inteiro está olhando. A Itália de 1922 e a Alemanha de 1933 mostram o que acontece quando os de cima acham que dá pra usar essa gente. A Hungria de 2026 mostra o que acontece quando o povo decide que não dá.
Por Fio Vermelho ·
