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EDITORIAL – 07/07/2020

Lutar contra a tragédia, desmascarar a farsa

A tragédia está posta. A crise sanitária agravou grandes problemas do Brasil, como a desigualdade socioeconômica, o preconceito de classe, o racismo estrutural e o machismo. Nesse sentido, vemos a doença e a morte pela COVID-19 – propagadas pela irresponsabilidade da burguesia e seus representantes – se espalharem rumo às regiões metropolitanas e áreas periféricas.

O discurso espalhado pelas entidades classistas burguesas e seus governos prega o retorno à atividade econômica “normal”. O “isolamento vertical”, no qual se protegeria apenas os “mais frágeis”, já se mostrou uma falácia. A reabertura gradual, com o número de mortos e contaminados crescendo a cada dia, também. O que a burguesia e seu aparato estatal querem é disciplinar a classe trabalhadora a não parar a produção de lucro, mesmo em setores não essenciais e com risco de morte muito além do que se normalizou no país. Ou seja, a lógica é de que, se os trabalhadores possuem apenas a sua força de trabalho, que a vendam – mesmo que percam a vida, já que não poderão contar com o Estado para atravessar o período de isolamento social. Esse discurso tem convencido uma parcela dos estratos de renda média, que inclusive têm se manifestado nas “carreatas da morte” e nos protestos pelo fechamento do regime político democrático.

Sabendo dessa tática da burguesia para o momento, como o campo organizado da classe trabalhadora deve realizar o combate?

A tarefa prioritária é construir e participar da frente de combate à pandemia. Isso significa construir concretamente: (i) condições materiais de fortalecer o isolamento social para salvar vidas e (ii) condições políticas de avanço de consciência em oposição a quem quer entregar os brasileiros para a morte.

Nesse sentido, é fundamental entender a materialidade da classe e como ela tem se movimentado. O que vemos é uma construção positiva nas bases com comitês populares e de bairro, visando combater a maior dificuldade para os trabalhadores e vantagem para a classe dominante: a fome. É premente contribuir na organização das atividades de solidariedade ativa, ou seja, com conteúdo organizativo e de classe nos locais afetados. Manter o isolamento e ajudar outros a fazê-lo é uma das táticas para o momento, inclusive com paralisações nos locais de trabalho em prol do isolamento social sem perda de direitos, contra as demissões e medidas trabalhistas que Bolsonaro e seus asseclas têm tomado. Ajudar na captação da Renda Básica Emergencial e fortalecer campanhas pela isenção, não pagamento e não corte dos serviços básicos (água e luz, principalmente).

A popularidade de Bolsonaro tem caído sistematicamente e isso se reflete no tamanho dos atos contra o regime político democrático, ao mesmo tempo em que o contraponto às ações da direita nas ruas se mostra crescente. As ruas são o espaço privilegiado de expressão da resistência, o que se mostrou em Porto Alegre e outras capitais do país, mesmo que não como atividades massivas. Ações pontuais e com bom planejamento devem ser a tônica do momento, dando ressonância a elas nas redes. Disputar a legitimidade dos atos é fundamental para a garantia das liberdades democráticas e o direito à manifestação, sem deixar de lado a preocupação sobre os riscos sanitários em meio à pandemia que ameaça a vida dos trabalhadores. Além disso, os protestos estarão sempre sujeitos à ação de infiltrados e provocadores, que banalizam os movimentos de rua e facilitam o trabalho dos órgãos repressores. Em síntese, as vozes das ruas são tão necessárias quanto o cuidado e a proteção, em defesa dos direitos e das vidas da classe trabalhadora.

As ações, mesmo as diretas, não se encerram nelas mesmas. Seu protagonismo e alcance dependem da forma e conteúdo de sua comunicação. É importantíssimo que orientemos as ações e sua repercussão nas redes, amplificando as lutas por meio das ferramentas de comunicação, para escancarar a contradição de classe e quem, especificamente, tem patrocinado esse massacre: notoriamente grandes empresários e políticos.

Nesse estágio de aceleração da pandemia, cada vez mais, as contradições de classe se acirram. Nesse contexto devemos sempre ansiar o que a classe trabalhadora anseia: a sobrevivência. Lutar contra a tragédia, entender o sofrimento alheio e construir solidariedade de classe e organização política devem ser os focos de ação em uma frente ampla, com objetivo imediato de enfrentamento ao governo e ações de médio e longo prazo na defesa dos direitos e do regime político democrático. Só assim conseguiremos desmascarar a farsa dos governos e dos patrões e avançar para uma nova sociedade.

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