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EDITORIAL – 14/10/2020

O IMPEACHMENT DOS CULPADOS

Não há só um culpado, eles são muitos e estavam juntos aplaudindo o ódio à Democracia destilado no Trigésimo Fórum da Liberdade em 2017, quando afirmaram que era preciso “a limitação da sua utilidade como modelo de tomada de decisões coletivas.”

Elegeram Marchezan Jr. Foram longe demais e agora querem se desfazer dele.

Desde a eleição, mesmo antes disso, já era sabido para que lado se curvava Nelson Marchezan Jr. Durante seu mandato o que se viu foi um festival de ataques a todas as instituições, categorias e à população em geral. Porto Alegre se tornou zona de ninguém, militarizada, esburacada. Sua vida cultural e política soterradas pelos desmandos de um prefeito que preconiza um Estado mínimo para o povo, mas máximo para seus amigos empresários, correligionários e coisas que o valham. Chegou a montar um “banco de talentos” para eles.

O atrito e a falta de diálogo se tornaram claros desde os primeiros dias de governo. Alta rotatividade nos cargos de secretarias, perseguições e arrocho salarial para os servidores. Isso só podia levar a uma consequência: reação por parte do povo frente a um projeto de desumanização da cidade.

Marchezan enfrentou as maiores greves da história do funcionalismo portoalegrense e, sejamos francos, saiu relativamente vitorioso na maioria delas, mesmo com o claro e intencional desmantelamento dos serviços públicos prestados pelo poder público municipal. Sucateou serviços que já foram modelo, como o transporte público realizado pela centenária CARRIS; praticamente extinguiu a Secretaria do Meio Ambiente e o Departamento de Esgotos Pluviais, alagando a cidade com a mesma frequência de qualquer chuvinha…

Esse projeto de Estado veio acompanhado das negociatas de sempre: apoio adquirido à custa de nomeações aos partidos já tradicionais do meio. Para aquele que se vendia como “nova política”, o apoio se baseou no que de mais atrasado existe, antecipou-se ao Bolsonaro em suas relações, em nível local. Mesmo com essa lubrificação, as engrenagens também se deterioraram com o Legislativo e o diálogo, nesse ínterim, nunca foi bem azeitado, apesar de boa parte de seus projetos terem sido aprovados.
A insatisfação tornou-se geral e chegamos onde estamos: o processo de impedimento do prefeito.)

Aqui não cabe analisar se houve, de fato, crime de responsabilidade. Isso é competência das/os vereadoras/es. Mas entender esse processo como um aprofundamento do modelo de Estado que o prefeito tentou implementar e que agora o engole é fundamental. A direita extremada que o ajudou a se eleger, agora lhe quer a cabeça, pela perpetuação de seu projeto político. E esse é o ponto nevrálgico: o impedimento do prefeito não encerra seu projeto neoliberal. Ao contrário, abre margem para que outra personalidade assuma as rédeas desse processo na eleição vindoura, aglutinando os conservadores, direitosos moderados e neoliberais e nos imponha mais quatro anos dessa marcha insensata.

O crime é dos mais graves e vem sendo cometido contra a cidade que já foi considerada a Capital da Democracia e que já prestou serviços públicos de qualidade para os seus habitantes, principalmente, para os mais pobres. Não pode ser perdoado e nem esquecido.

Independentemente do resultado do processo das CPIs e impeachment, urge a reconstrução de um projeto popular para a cidade que enfrente não apenas os nomes que se apresentarão como postulantes ao cargo de prefeito, mas, principalmente, seu projeto de cidade e de sociedade excludentes.

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